Por Crownedvic.
Ao caminhar pelas ruas, noto que há algo muito errado com os transeuntes. Seus olhares vagos, secos e sem brilho, atados por uma sedutora e cruel utopia, denunciam a desesperada embriaguez pela qual são dominados.
Marchando sob um imponente firmamento trançado por valores velhos e mórbidos tombado sobre suas costas, seguem seus rumos, como dedicados soldados, em direção ao auto-aniquilamento. Suas vidas não passam de meras reproduções de um decadente conjunto de idéias doentias, que se oficializaram como valores, e se consolidaram em suas vísceras ao tornarem-se tradição. Mas ninguém percebe o quão prejudiciais são as naturezas das perspectivas que originaram tal tradição. E como perfeitos servos, apenas se preocupam em servir, sem que percebam o quão servos são.
E, à medida que suas preciosas vidas vão, a cada ano, se consumindo, escorrendo por entre os dedos e se aproximando da última gota, esses devotos escravos servem, servem, servem, e servem.
E acreditam, mesmo existindo sob uma condição tão asfixiante, que no fundo no fundo são felizes, ou que algum dia virá a felicidade (nem que seja após a morte), e que tudo ou quase tudo é lindo e maravilhoso, que coisas ruins acontecem com todo o mundo, mas que todos nós devemos agradecer ao nosso deus por termos o que temos, pois há pessoas que não têm nem onde caírem mortas e mesmo assim ainda agradecem… E, quando o já familiar vazio existencial toma conta dos seus corpos, basta darem uma ida aos shopping-centers, aos botecos, às boates, aos estádios, e a todo misericordioso e aconchegante calor-humano, farmácia ou consultório escuro que sirva de aconchego. Diversão e remédio é o que não falta!
Será que há algo mais perigoso do que um conformismo tão extremo? Conformismo, aqui, diz respeito a não tentar viver uma vida diferente do modelo que é imposto pela sociedade, é não ousar dizer “não” à ordem estabelecida a favor de um “sim” a si próprio, é continuar desperdiçando a própria vida como um cão doméstico numa covarde e triste fuga de si mesmo.
Há anos vinha eu defendendo o argumento de que as pessoas estão com suas consciências presas porque são manipuladas pelo perverso “sistema”. Defendia eu que a humanidade se transformou num grande rebanho porque há um forte condicionamento social que a envolve e determina grande parte da personalidade dos indivíduos desde o nascimento. E, como solução para o rompimento dessa prisão, acreditava eu que tudo o que seria preciso era oferecer à massa alienada um pouco mais de esclarecimentos e oportunidades para o exercício da reflexão e do questionamento.
Bom, isso pode até funcionar vez ou outra, mas hoje já não me faz mais sentido ter esperança na capacidade de as pessoas se libertarem a ponto de o mundo se salvar. Estão todas tão comprometidas com suas alegrias superficiais, fúteis, vulgares, instantâneas e ilusórias, que não vêem motivos para trocarem tão miserável entorpecimento pela dura e trágica visão nua e crua da realidade.
Não que eu acredite que seja possível alguém saber o que de fato é “a realidade”. Mas posso dizer com segurança que a vida não é uma simples roda de violão. Por que ninguém acorda? Quando é que os efeitos dos alucinógenos irão acabar, e as pessoas perceberão finalmente que a vida é bela sim, mas não no sentido banal como costumam ver em novelas e em comerciais de margarina, e que a felicidade só é alcançada quando se decide mergulhar nos próprios medos, para depois se escalarem os próprios abismos? Viemos ao longo da história sempre criando grandes doutrinas e correntes filosóficas que surgem principalmente sob a vontade de repulsa à própria existência, que nos ensinam a auto-renúncia e o não a tudo o que nos torna corajosos, independentes, autônomos, saudáveis, criadores e livres.
É o ódio à própria natureza que tem residido no espírito do homem. O pensamento ocidental, que é o dominante, possui como principal alicerce o ódio, e talvez seja oportuno finalmente perguntar: como, então, poderia o homem se libertar de todo esse torpor? Há uma infinidade de diagnósticos dados por pensadores denominados “humanitários” para esse tipo de questão. Uns dizem que o segredo está no fim do capitalismo, outros dizem que o segredo está no processo de conscientização das massas. Uns dizem que o segredo é transformar primeiro a estrutura social, outros dizem que o segredo é transformar o indivíduo primeiro com tal ou qual enfoque teórico. E por aí vai. Mas eu pergunto: de onde a realidade social decadente na qual vivemos surgiu? Pois a nossa tradição, a nossa moral, os nossos valores, tudo isso, é criação humana. Somos nós os responsáveis pelo nebuloso mundo no qual vivemos. Nada disso caiu do céu de repente, ou nos foi dado de presente por algum gigantesco disco-voador: fomos nós, homens, que transformamos, e com muito prazer, o paraíso no qual surgimos num real inferno. E fomos nós que inventamos crenças e verdades secas, frias e murchas para nos confortarem e nos fazerem acreditar que não estamos num lugar ruim e assim podemos suportar nossa própria natureza repugnante e vil.
Será, portanto, que faz sentido ter esperança que um dia, o homem, arquiteto do seu próprio inferno, resolverá “consertar as coisas”? Por que estaria faltando o homem ainda perceber o que está errado, já que tudo o que ele criou foi de acordo com sua própria vontade? O que penso, hoje, é que o homem transformou o mundo à sua imagem e semelhança, e que por isso não faz sentido para ele querer outra coisa. Afinal, aconteceu o que deveria ter acontecido, e não podemos esperar algo melhor. Tem sido provado na prática que nosso potencial só vai até aí. A felicidade da humanidade é a própria danação. Se não fosse isso, não estaríamos na situação atual.
Finalmente me despedi do meu compromisso em querer conscientizar as pessoas, em “melhorar a humanidade”. Não acredito mais que as pessoas queiram se libertar. Parece-me muito mais coerente pensar que elas gostam mesmo é de servir. Quanto a “salvar o mundo”… Sinto vontade de rir quando me lembro dos dias em que eu me portava como se fosse alguma espécie de “messias”. Sempre que perspectivas diferentes, como as minhas ou as de outras pessoas excêntricas, se expressam, imediatamente eles nos crucificam. E, francamente, não consigo mais encontrar motivos para tentar ajudar uma espécie corrupta como a nossa – e nem tenho mais interesse algum em procurar. Hoje me declaro, para o mundo, morto, porque me declaro vivo para mim e para a minha história.
Falando assim, parece soar pretensioso da minha parte esse julgamento que faço da espécie humana, da qual obviamente também faço parte. Bom, penso mesmo que a natureza humana é a mais corrupta de todas, mas também penso que não somos todos iguais e que por isso, vez ou outra, nascem raras pessoas com uma sensibilidade refinada e especial. Me considero uma dessas pessoas. E você, amigo leitor? Ficará aí de cara fechada rogando pragas para mim, ou provará a si mesmo que é diferente desse exército de soldados despersonalizados e proclamará um sagrado “SIM” a si mesmo, assumindo sua condição de vida criadora e senhora de si? Eu faço parte dos poucos sujeitos que decidiram declarar guerra contra o mundo, porque EU NÃO SIRVO, e não estou disposto a gastar minha vida como um bêbado acomodado numa floresta encantada. E você, de que tipo de vida é feito?
Abraços.
santaum disse,
4 Outubro, 2007 às 10:42 pm
Parabéns pelo post Vitão. Já era esperado, de você, comentários sensacionais sobre a humanidade. E este nosso blog está mais do que atendendo a minha expectativa.
Conto agora com o Arrhenius para fecharmos o nosso grupo!
E eu também não sirvo.
Grande abraço Vitão.
suelyisr disse,
5 Outubro, 2007 às 7:16 am
Caro Victor
A vida tem perdas e muitos problemas. Todos os dias noticiam-se desgraças, abusos sexuais, homicídios, assaltos, pedofilia, trabalho escravo, agressões em mulheres, desastres químicos, etc, mas não é por isto que vou deixar de viver minha vida com otimismo e transmitir felicidade pras pessoas.Se fôssemos pensar assim, só teríamos ranzinzas em nossa sociedade.Só estamos precisando de agir mais e deixar de tanto comodismo.
Abração de suely
marcilioestefanio disse,
5 Outubro, 2007 às 5:22 pm
Eu se fosse vocês ficava mais otimista com o mundo gente.Se estiverem com alguma dificuldade vê se dá uma passadinha lá no nordestenparece que lá o mar é mais azul e o sol é mais forte.Mas brincadeiras à parte a reflexão do Victor é alto nível.Eu também faz tempo que não sirvo!!!!
Abração pra vcs!!!!!
Rev. Peterson Cekemp disse,
13 Outubro, 2007 às 11:41 am
“Eu não posso mudar o mundo. Só não posso deixar de tentar.”
De alguém que eu não me lembro quem.
santaum disse,
13 Outubro, 2007 às 1:08 pm
Grande reverendo!!!
Obrigado novamente pelo seu comentário. Tá lendo mesmo os posts né rapá!!!! Espero que esteja gostando.