Por Crownedvic.
Predomina, na sociedade estabelecida, a idéia de que um bom estado espiritual é aquele caracterizado por ausência de conflito, de dor, de incertezas, de instabilidades e de crises existenciais. Esse é o tipo de vida desejado em nossa cultura. É cultuado no pensamento estabelecido esse tipo de existência pacata, que está sempre em busca de conforto e repouso, incapaz de guerrear com os próprios pensamentos e sentimentos (e nisso entrar em profundas crises) com prazer.
Há uma diferença grande entre o tipo de vitalidade que se aspira à instabilidade, à incerteza e aos conflitos existenciais, e o tipo que se aspira ao repouso e à verdade absoluta.
No primeiro caso, trata-se de uma vitalidade saudável, que vê na dúvida, na contradição, no transitório, no perecível, algo belo e necessário. Aqui, a perdição no labirinto é amada e desejada. A vitalidade saudável não condena a própria existência por dela fazerem parte sentimentos dolorosos, perdas, crises, dúvidas, dores e conflitos. Tudo isso é afirmado como parte da vida, e a idéia de perfeição não é projetada para uma outra realidade na qual tudo seria estático e imperecível: esta realidade na qual se vive já é perfeita, não se deseja outra.
Já em relação ao tipo de vida que somente consegue imaginar-se plena quando a ausência de conflitos predomina, podemos notar uma repugnância à existência. Condenando o lado trágico da vida, que é o lado da crise, é um tipo de concepção que inventa o mundo no qual gostaria de existir. Esse processo é fruto da incapacidade de aceitar a própria existência: diz não à própria existência ao dizer como ela deveria ser. Numa reação hostil contra a própria existência, portanto, esse tipo de vida estabelece valores e virtudes que surgem de acordo com o desejo de uma outra realidade. A realidade, no caso, não é aceita, para tal vitalidade, trágica como é. Faz-se necessário sabotá-la e criar argumentos que justifiquem a tragicidade da vida e a própria vida. O que esse tipo de vida diz, nesse processo de reação, é: “mas como seria possível um mundo no qual tudo o que é vivo algum dia morre, sem que depois exista um outro mundo melhor?”, “mas como poderíamos sobreviver numa realidade na qual tudo algum dia irá perecer, onde nada é absoluto, eterno e imutável?”, “como poderíamos aceitar a idéia de que vivemos num mundo no qual há dor e sofrimento, e não teremos recompensa alguma após vivermos?”, “como poderíamos suportar a própria existência sem termos como garantia uma existência melhor no futuro?”… E esse tipo infeliz de vida vai e vai argumentando, procurando e inventando recompensas em mundos transcendentais, em “outras dimensões”, até que consiga encontrar razões para suportar a si mesmo e se convencer de que finalmente vale a pena existir.
É um tipo de vida que depende de promessas e argumentos para suportar a si mesma nesses sintomas de decadência, doença, degeneração. Essa ânsia em se chegar a um ponto no qual todas as “verdades” se aparentarão imutáveis é a vontade de não lutar mais, de não se mover. É a vontade de ver o todo se petrificando num eterno repouso. E essa vontade de repouso, de inércia, de ausência de destruição e criação, de ausência de movimento, é uma vontade de redução ao nada, de morte, que é a característica de organismos cansados e sofredores.
A vida (que é um incessante movimento de destruições e criações no qual o conflito é necessário) é desvalorizada em culturas que se alimentam por aquela concepção de vitalidade doente. Como resultado, consolida-se uma cultura decadente que se desenvolve tendo o nada como fim. Podemos perceber, com muita facilidade, em todos os âmbitos da nossa vida social, o predomínio desse tipo de aspiração ao nada, pois se trata de um conjunto de perspectivas e valores que se consolidaram em nosso imaginário. Está presente em quase todas as principais doutrinas da nossa história. É a base da nossa moral. O grande problema disso é que, pelo fato de tais perspectivas se consolidarem em nosso imaginário, elas acabam se apresentando como o modelo a ser seguido, como o “verdadeiro caminho”. E, como sabemos, são raras as pessoas que questionam os valores sociais e culturais estabelecidos. A grande massa só se preocupa em servir, e em reproduzir o servilismo do qual faz parte.
Dessa forma, conceitos como o de alegria, de felicidade, de “bem-aventurança” e afins passam a representar, como virtudes, aquele tipo de vontade doentia – e o que é mais triste: como caminhos para alguma salvação prometida. A afirmação da vida trágica como é passa, assim, a fazer parte do conjunto de concepções que devem ser negadas pelos homens, enquanto o não à própria existência passa a ser considerado virtude.
Em torno dessas reflexões, cabe aqui perguntarmos: será que uma existência pacífica, isenta de crises e conflitos existenciais e profundos momentos dolorosos (devido ao conforto que aquelas ilusões e promessas oferecem) é mesmo mais saudável do que uma existência na qual é freqüentemente presente o caos e profundos tormentos oriundos de guerras travadas com o próprio pensar?
A massa enxerga somente a superfície, as aparências. Enxergando somente as aparências, compreende-se bem porque essas visões rasas gostam de dizer que “feliz é aquele que se aparenta feliz”, “feliz é aquele que não pensa e não se contradiz”, ou seja, que feliz é aquele que está sempre tranqüilo e sorrindo, sem conflitos emocionais grandes, e sem pensamentos profundos que causem inquietações, auto-avaliações e tormentos. Mas, analisando profundamente, percebemos que uma grande alma é aquela que carrega, em si, além do sorriso, a profunda dor e o profundo sorriso. Quem não assume o lado negro da vida é atrofiado, mal acabado. E não há nada de verdadeiramente alegre e feliz em ser incompleto, por mais que, aparentemente, pareça. É preciso que aceitemos nossos próprios demônios, pois é assim – e somente assim – que podemos conhecer o verdadeiro paraíso.
E o que é esse verdadeiro paraíso? Esse verdadeiro paraíso é o aqui e o agora, é tudo o que existe, que acontece, tudo o que nunca irá acontecer e tudo o que ainda irá acontecer. É amar o fato de se estar participando da trajetória do universo sem desejar que ela fosse outra, sem desejar alguma recompensa por isso; é encontrar um sentido para a própria existência sem que para isso tenham que ser inventados argumentos sustentados por promessas ilusórias e embriagantes. É existir sentindo prazer em existir, e não precisar inventar argumentos que justifiquem a própria existência.
Santaum disse,
20 Outubro, 2007 às 4:11 pm
Caríssimo Victor,
Mais uma vez, um excelente post.
Neste último parágrafo, você está expressando e sugerindo, em outras palavras, mas nas mesmas palavras, o ETERNO RETORNO?
Obrigado pela reflexão.
crownedvic disse,
20 Outubro, 2007 às 11:05 pm
Brincão, o eterno retorno é uma hipótese de Nietzsche, algo que ele abordou como um princípio para a filosofia que escolheu para si. Nietzsche nunca abordou esse tema de uma forma muito ampla, há na verdade pouquíssimos escritos dele sobre o eterno retorno. O que ele fez, na verdade, foi esboçar uma experiência que ele viveu mas não conseguiu, enquanto esteve lúcido, escrever de uma forma bem abrangente.
Quando escrevi esse post, não pensei que estaria escrevendo sobre o eterno retorno – a coisa simplesmente fluiu. Mas, se eu for encaixar aquele último parágrafo, realmente o assunto “esbarra” no eterno retorno, embora para eu estar falando do eterno retorno eu deveria estar enfatizando a idéia de que o universo possui um movimento cíclico, que o número de possibilidades de acontecimentos é finito, ou seja, eu deveria ter dado mais ênfase na questão cíclica do tempo.
Acho que, embora o assunto esteja contido na discussão do eterno retorno, posso dizer que aquele último parágrafo expõe aquilo que Nietzsche diz como “amor fati”, que é “amor ao destino”, um amor incondicional à vida em todas as circunstâncias. Bem, é isso mesmo que diz o parágrafo… Mas, se você conseguiu ver a presença do “eterno retorno” aqui, então parabéns! Pois pelo menos nas entrelinhas há uma “sombra” de eterno retorno mesmo… Abração.
Santaum disse,
21 Outubro, 2007 às 11:37 pm
Ok Victor,
Obrigado pelo comentário! E seu post foi excelente. Parabéns.
Grande abraço.
Rev. Peterson Cekemp disse,
22 Outubro, 2007 às 11:52 am
Em muito tempo, não via um post tão bom, sério.
Eu mal comecei a ler e o “amor fati” me bate à porta sim. Embora, como ele mesmo disse, o Eterno Retorno seja só uma sombra nesse texto.
Parabéns =D
marcilioestefanio disse,
22 Outubro, 2007 às 9:59 pm
Fico profundamente emocionado com o nível da reflexão feita neste post.Vítor está se mostrando um grande filósofo além de grande escritor é claro.Parabéns!
Grande Abraço a todos!!!!
crownedvic disse,
23 Outubro, 2007 às 9:43 am
Muito obrigado pelos comentários, caríssimos Rev. Peterson e Marcílio! É gratificante receber elogios de quem realmente sabe o que está elogiando. Me agrada muito o fato de meu texto ter emocionado vocês e não causado repulsa ou rancor em relação a tais idéias ou à minha pessoa – o que de fato é o que ocorre, com a maioria das pessoas. Muito obrigado, abraço a todos.