O Medo da Felicidade Extrema

Sempre existe uma sensação de medo quando estamos muito felizes. Parece que existe uma força motriz organizada pelo nosso próprio subconsciente que promove, em nós mesmos, uma sensação oposta desse fenômeno instantâneo e agradável denominado felicidade.

Que coisa absolutamente natural e absolutamente estranha!

Imaginemos que consigamos em algum momento das nossas vidas realizar sonhos. Estes se concretizam. Se tornam realidade. Surge aquela felicidade instantânea. Momentânea. Aquele breve instante prazeroso. Aquela breve sensação de plenitude.

De repente, no auge dessa felicidade, nos deparamos naturalmente com o nosso medo. O medo de perder essa plenitude, de perder essa bela e esporádica sensação momentânea, tão difícil de acontecer no nosso dia-a-dia.

Esse medo decorre de uma complexidade de pensamentos ruins, ataques de ansiedade e de “imaginações completamente imaginárias”. Premeditações. Seria o reconhecimento de que aquele maravilhoso instante presente não iria perdurar pra sempre? Seria a aceitação de que o que é bom dura pouco?

Sempre isso ocorre comigo. Sempre estou buscando meus sonhos. Sempre procuro desequacionar a minha entropia. Desejo que ela permaneça no estado menos estacionário possível, apesar de sempre fugir desse regime transiente e buscar uma estabilidade utópica, ou estabilidade ideal. Por isso que, quando esta chega, ou tende a chegar, já desejo atingir outra, senão não teria sentido a minha vida. É, em outras palavras, a busca de um equilíbrio utópico em instantes reais de não-equlíbrio.

Quando consigo realizar alguns sonhos, naturalmente fico sempre com medo que algo ruim possa acontecer naquele momento. Parece que é uma sensação surreal chegar no ápice de um objetivo traçado com muita dificuldade. De superar um desafio e atingir um norte.

Neste momento de plenitude a figura do medo é estimulada através dessas cargas elétricas sobrepostas no meu corpo, na sua parte superior. Acima do meu pescoço. Cabe a mim apenas reconhecer esse instante natural, mágico, e reconhecer que tal fenômeno é algo inerente à nossa espécie.

E que não teria sentido a nossa vida sem os nossos medos. Ainda bem!

Grande abraço a todos.

6 Comentários

  1. crownedvic disse,

    25 Outubro, 2007 às 2:23 pm

    Interessante post. Me fez pensar em como muitas vezes podemos, devido ao medo natural a que você se refere, evitar nossos próprios desejos e permanecermos inertes para não sentirmos aquele medo.
    O medo, para mim, é algo necessário, e como você diz, realmente não tem sentido uma vida sem esses medos e toda a complexidade de sentimentos “antagônicos” que nos acompanham.
    O grande problema é que, se revoltando contra o medo, ou seja, contra a instabilidade da vida e contra a inevitável transitoriedade dos nossos momentos e sentimentos, sejam eles bons ou ruins, muitas pessoas optam pela castração. Em vez de, ao sentirem o medo da perda, se motivarem para uma nova conquista, esse tipo de gente resolve mutilar os próprios desejos para não ter que sofrer mais por eles.
    Schopenhauer diz que “o homem é o pêndulo que oscila entre o tédio e o desespero”, mas, sob uma perspectiva saudável, podemos dizer algo como “o homem é o pêndulo que oscila entre a fome de prazer e a extinção deste prazer, que por conseguinte traz, com prazer, uma nova fome para um novo prazer ser atingido, e um novo medo, e uma nova fome, etc…” hehehehe… Abração, e sangre pelas suas paixões, pois castração é morte.

  2. Santaum disse,

    25 Outubro, 2007 às 3:49 pm

    Muito bom seu comentário,

    Estamos falando a mesma coisa, mas em outras palavras. Aliás, acho que o homem fala e pensa sempre a mesma coisa sob perspectivas diferentes. Esse é o barato da unidade e diferenciação de cada um. Essa “perspectiva saudável”, como você citou no seu excelente comentário, é justamente o conceito termodinâmico da entropia, que é um estado de desordem permanente. A medida em que se atinge um sonho, ou um norte, a entropia tende a se estabilizar. E é a partir deste momento que você começa a buscar outro estado de entropia maior, ou seja, uma desordem maior. Ou melhor, um outro sonho. É assim com o nosso universo. É assim com o nosso tempo cronológico.

    E é esse o objetivo deste blog. Discutir as mesmas coisas sob perspectivas diferentes e agregar para os leitores essas interessantíssimas diferenças. Espero, portanto, que este blog seja o mais “desordenado” possível.

    Valeu caro Victor,
    Um enorme abraço.

  3. 25 Outubro, 2007 às 8:59 pm

    Outro post interessantíssimo.

    Em algum lugar ouvi falar de uma citação sobre a “grande agonia da casa completa”. Enquanto temos um sonho, algo a conquistar, podemos idealizá-lo e nos satisfazer com nossas utopias, desejos, fantasias.

    Entretanto, a citação falava da agonia de ver uma casa pronta: tantos meses construindo-a, esperando que ela fique pronta, idealizando não só ela como a “vida nova” que haverá depois dela, mas quando se olha para a casa pronta, os idealismos caem e a realidade invade.

    Por isso prefiro aproveitar os meios e não os fins, não gosto de sacrificar o hoje em função do amanhã, e gosto dos pequenos, diretos e rápidos prazeres, ao invés dos complexos e demorados – ah, o gosto da espontaneidade é muito mais maravilhoso do que o intricado jogo consciente de medidas e palavras selecionadas.

    Abraços =)

  4. crownedvic disse,

    25 Outubro, 2007 às 9:27 pm

    Santaum, esse lance de entropia é mesmo interessante. Já estudei mais ou menos isso na minha graduação, na disciplina “Sociologia Ambiental”. Me lembrei do livro “O Ponto de Mutação”, de Fritjof Capra, um clássico. Nele é abordado a idéia de equilibrio, e a entropia é abordada em algumas partes. É um livro que aproxima um ramo da física (do qual Capra é estudioso, mas não tenho certeza se é Física Quântica) de outras disciplinas, incluindo pontos de vista até bem “místicos” e “zen”. Embora eu não curta muito essa parada “zen”, é um livro muito bom, vale a pena conferir. Mostra como muitas vezes realmente falamos a mesma coisa com outras palavras.

    Ah, e sou a favor da desordem de pensamentos também. Esse é o caminho para a liberdade, pois revela que não há pensamento único algum.

  5. Santaum disse,

    25 Outubro, 2007 às 10:22 pm

    Nosso pensamento pode ser entrópico também, porque não? Hehehehehe… Pensando bem, isso é coerente. Não é estático. É dinâmico. Não tem forma, nem cor, se desordena a cada ordenação. O pensamento é revoltado. Nunca está satisfeito. Sempre busca um norte.

    Confesso, caro Victor, que não tinha pensado nisso.

    Rev., obrigado pelos seus comentários, que são sempre muito bons.

  6. 17 Junho, 2008 às 12:01 pm

    [...] Publicado originalmente no Nada Pensitivo!. [...]


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