Um jovem de 25 anos com cara de 40 assume a direção de uma multinacional nos Estados Unidos. Um jogador de futebol, de 19 anos, porém com aparência de 30, e não é “gato”, é vendido por tantos milhões de dólares para a Europa. Uma recém-formada em engenharia, de 20 anos, passa no programa de Trainee de uma grande corporação. O que as pessoas pensam sobre isso? Será que pensam como eu? Ficam indignados?
Hoje em dia, a criança entra na escola com pouco mais de um ano de idade. Aprende a ler mais precocemente. Muitos, inclusive, aprendem a ler na faixa dos 4 ou 5 anos. Isso não quer dizer que antigamente isso não acontecia. Somente que com menos freqüência. Aos 6 anos de idade, não é exagerado dizer que uma criança já pode estar fazendo balé, escolinha de futebol, curso de inglês, espanhol, informática, piano, flauta, violão e alemão. Aula de forró também. E que provavelmente as aulas de natação a criança começou a fazer quando tinha pouco mais de 1 ano de idade.
Recentemente, um priminho meu de 13 anos me perguntou como está meu mestrado, quando irei terminar e quais são minhas perspectivas de mercado após a defesa. Fiquei pensando… Quando eu tinha 13 anos eu estava na sétima série. 1995. Eu sabia, evidentemente, o que era mestrado e doutorado. Entretanto, nem tinha disposição e interesse de começar a pensar nessas coisas. Se sabia direito do que se tratava eventualmente o mercado já nessa escolaridade. Nunca iria chegar, naquela época, a um estudante de mestrado perguntando quais eram as pretensões dele quando terminasse o curso. Também porque naquela época não conhecia nenhum.
Os pré-adolescentes hoje já são adultos. Os adolescentes? Super adultos. Jovens dessa faixa etária já enfrentam os seus problemas, já competem acirradamente entre si, se imergem na vida sexual na faixa dos 15 anos e já pensam no mercado de trabalho ainda no ensino fundamental. Já são formadores de opinião, e dos bons ainda. Tudo isso precocemente.
É muito diferente essa garotada de hoje quando comparada a garotada de 10 anos atrás na qual eu fazia parte. Para combinar de ir para a balada, por exemplo, a gente combinava por telefone. Hoje, recursos como o MSN e o Orkut facilitam esse tipo de coisa. Aliás, quase nenhum jovem mais usa o telefone fixo. Hoje não tem o celular com inúmeras promoções? Ligações gratuitas e tal? Hoje não têm os superchats com a tecnologia VOiP?
E o mais assustador é a fonte de conhecimento disponível hoje em dia. Há 10 anos atrás, se restringia somente a livros, àquelas coleções gigantes de enciclopédia. Hoje existe o Google, esse Oráculo monstruoso nos bombardeando ilimitadamente de informação, seja de qualquer tipo. Se um jovem souber absorver estes recursos, pode virar um superintelectual e um super formador de opinião já quando adolescente.
Os jovens entram cedo na faculdade e no mercado de trabalho. Decidem qual será o seu profissional aos 16 anos. Hoje em dia, até mais cedo. Afinal, várias Universidades já fazem aquele programa seccionado de provas desde o primeiro ano para que os melhores sejam selecionados numa pequena parcela daquele total que passou no vestibular tradicional. Não se pode desprezar também que vários já sabem o que vão fazer na vida. Que já são idealizados com os seus sonhos e intenções para o que irá fazer. Alguns já sabem desde crianças. E já praticam. A única diferença é que começarão a ganhar dimdim na fase adulta, e olhe lá. Infelizmente, o que ocorre é que muitos jovens optam por profissões que darão a ele status social na sociedade e uma melhor remuneração. Por isso que alguns cursos são mais competitivos no vestibular. Ao invés do jovem procurar o seu sonho, ele acaba optando por aquilo que a maioria deseja, e até pelo estímulo da competição atrelada e esse modismo.
O mesmo acontece na inserção no mercado de trabalho. Na época de formatura, vários estudantes participam de programas trainees corporativos. Não é de se assustar que numa dinâmica de grupo, ou painel, na hora da apresentação, uma garota fala que tem 22 anos, é fluente em 4 línguas, é economista e morou 2 anos na Dinamarca. Não é de se assustar também um rapaz recém formado em engenharia eletrônica falar 5 línguas (alemão, mandarim, português, espanhol, inglês), ter vivido a infância nos Estados Unidos e a adolescência em Pequim. Nestes dias estava lendo uma revista e vi a foto de um diretor. Meio careca, aparência de ter mais ou menos uns 40 anos. O susto veio quando, no rodapé da figura, o diretor da multinacional, que vivia nos Estados Unidos, tinha apenas 25 anos. Aparentemente acabado pela idade que tinha.
Até que ponto os jovens, assumindo responsabilidades precocemente, suportarão esta sobrecarga? Até que ponto estes jovens viverão vidas de adultos experientes? Até que ponto essa nova juventude terá condições psicológicas e físicas de suportar grandes responsabilidades sem o necessário amadurecimento para isso? Realmente os jovens estão preparados para assumirem vagas em empregos que demandam muita frieza e experiência? Estão preparados para entrarem no mercado de trabalho com 20 anos de idade, e até mesmo começarem a se preocupar com o vestibular aos 16? Realmente vale a pena ser um super formador de opinião na pré adolescência?
Daqui uns tempos, não haverá diferença da juventude no meio da velhice. Ou o contrário. E isso será passado.
Grande abraço a todos.
Rev. Peterson Cekemp disse,
13 Novembro, 2007 às 3:00 pm
Eeeu acho que sei onde esse post começou =D
Ainda não pensei sobre isso o suficiente pra fazer o meu raciocínio caber em poucas linhas (não que precisem ser poucas, mas acho que serão muitas e bem confusas), então depois eu penso sobre isso…
Ateh
Santaum disse,
13 Novembro, 2007 às 3:22 pm
Verdade, sabe mesmo. Através do chatcismo, hehehehe.
Santaum disse,
14 Novembro, 2007 às 10:04 am
Santaum.
Boa-Tarde.
O seu texto me fez pensar o seguinte: até que ponto esses jovens serão mais felizes?
Sabe, na batalha do dia-a-dia (um ‘mamute’ por dia), continuar estudando ad infinitum, trabalhar para o sustento…tudo isso cansa, cansa muito.
Mas, plagiando o comercial: ‘o que nos faz feliz’? Será que galgar altos postos, estar no pico do Everest, ganhar montes de dinheiro, publicar livros… será isso a felicidade?
Ainda não tenho a resposta (nem tampouco sei se um dia a terei), mas acho que é só mais uma que acrescentaria às inúmeras levantadas por seu texto.
Abraços. [:)]
Bom Fátima,
Agora respondendo no assunto do post, hehehe, eu acredito que esses jovens não estão mais felizes. Estou dizendo isto no geral. Existem exceções, evidentemente. Mas acredito que eles, na sua maioria, estão menos felizes. Se estão felizes, estão apenas superficialmente. Seria esta aquela felicidade, portanto, pra dizer para o outro que está bem. Que tem um bom carro, que ocupa um bom cargo na empresa. Porém, consigo mesmo, no seu interior, está longe de atingir essa felicidade verdadeira. Ainda mais hoje em dia, neste mundo do consumo, da hierarquia, da competição (falta de sonhos), do status social e de que ninguém pode se fracassar, somente vencer. Não é a toa, também, que hoje em dia várias pessoas são depressivas, nível de stress e elevados, e nunca se viu tantas pessoas cometendo suicídio no Brasil como agora.
Justamente por causa destas questões surgiu a minha indignação e as minhas perguntas no final do texto.
Obrigado, novamente, pelo comentário!
crownedvic disse,
16 Novembro, 2007 às 1:43 pm
ESCRAVOS TRAINEES, isso sim!!!
Oi pessoal, Brincão, vim aqui só pra dizer que concordo com sua posição. Os jovens de hoje não são felizes como os de antes…
E por quê? Porque têm a inocência quebrada bem mais cedo, ao mesmo tempo em que o pesadelo da vida adulta, com responsabilidades impessoais, toma conta do cotidiano.
Vivemos numa época de escravos, e me dou o direito de dizer que é uma era lastimável, na qual todos nós somos obrigados a gastar a maior parte do nosso tempo em tarefas objetivas que somente realizamos por imposição do contexto social.
É claro que há exceções, mas em termos gerais, o homem hoje é um infeliz, um proletário, que desde criança é treinado para vender sua força-de-trabalho. E, hoje, mais do que nunca, o trabalho carece de substância. Trabalho hoje é nada mais que execução de tarefas impessoais orientadas para determinados fins. E estes fins são relacionados a interesses que, na minha opinião, não contribuem em nada para com a riqueza espiritual de um ser humano.
E o que provoca, numa pessoa, uma existência débil dessas? Para mim, dificilmente a infelicidade não possui uma presença majoritária.
Santaum disse,
19 Novembro, 2007 às 3:35 pm
Grande Vitão,
Cara, essa é a mais pura verdade. Para mim, por exemplo, essa é uma situação bastante conflitante. Afinal, sou engenheiro, e engenheiros geralmente trabalham para empresas, multinacionais, e para entrar nessas multinacionais, é necessário participar de programas de trainees, dinâmicas de grupo, entrevista, etc.
Inclusive, já trabalhei 1 ano em uma multinacional. E gostei ainda. Foi uma experiência interessante. Mas espiritualmente, foi uma experiência interessante? Talvez não, talvez somente profissionalmente.
Não sei se entende o que estou querendo dizer. Eu fiz engenharia porque acho interessante, e preciso de dinheiro para sobreviver. Entretanto, reconheço que sou treinado para vender a minha força de trabalho, até mesmo para mim mesmo.
Entretanto, algumas pessoas realmente gostam de fazer isso, participar de programas corporativos de trainees, etc. Mas, há de se concordar que essa é uma minúscula, minúscula, minúscula, minúscula, minúscula, minúscula minoria.
Portanto, acho que não estou incluído nesta minoria e tenho que abrir um negócio próprio para mim, hehehe.
E com esse movimento-precoce-social-juvenil então, como Vsa. Exc. mesmo disse, a nossa inocência é quebrada desde cedo.
Seu comentário foi sensacional Vitão.
Grande abraço.