O Pegador, o Matador e o Catador

Como se sabe, a língua Portuguesa surgiu na Europa de uma maneira bastante espontânea. Ela começou a ser praticada no dia-a-dia pelos povos ibéricos ocidentais. É uma língua, portanto, de origem romana falada nos guetos pelos soldados e alguns colonos romanos desde o século III a.C. Esta data marcou a invasão romana na península Ibérica. Pode-se dizer, grosseiramente, que a língua Portuguesa derivou do Latim falado vulgarmente na região ocidental da península Ibérica. Esse Latim, evidentemente, não era igual ao Latim falado por pessoas cultas de Roma, como alguns magistrados e escritores. Mesmo assim, aquele Latim informal, inculto e falado por pessoas simples que viviam nas vilas e nos guetos derivou uma língua fantástica falada atualmente por mais de 210 milhões de falantes nativos.

Nessa ótica, gostaria de fazer alguns comentários acerca de certas palavras e expressões da nossa língua e outras.

A palavra pegar pode ter vários significados. Pegar pode significar “ficar com uma menina”, apesar de ser uma terminologia de certa maneira informal e vulgar. Este verbo também pode participar de diversas expressões, como por exemplo “pegar na cabra para outro mamar”. Quem também não conhece aquela expressão “pegar no boi”? E a mais famosa de todas: “o bicho vai pegar”. A palavra pegar pode indicar também que alguma pessoa entendeu alguma coisa. Um aluno pode muito bem falar pro seu professor que pegou o assunto. Pegar significa também agarrar alguma coisa, como também unir ou juntar, por exemplo, dois objetos. O verbo pegar existe também naquela expressão folclórica bastante famosa: “Boi, boi, boi / Boi da cara preta / Pega este menino / Que tem medo de careta”. É um verbo interessante. Demasiado interessante.

Neste caso, o verbo pegar significou pegar, pegar, pegar, pegar, pegar, pegar e pegar.

As palavras da língua portuguesa, como também palavras de diversas línguas, podem ter vários significados e variações. O inglês, então, nem se fale. Que idioma flexível o “tar” do inglês! Quanta flexibilidade (Lembre-se que estou desconsiderando o inglês falado e escrito na época de Shakespeare). O verbo get, por exemplo, tem o diabo a quatro de significados. Diabo a quatro? “Diabo a quatro” é uma expressão de origem francesa cuja tradução para o francês seria “faire le diable à quatre”. Como todos sabemos, essa expressão se originiou através de algumas expressões artísticas na Idade Média. A presença de quatro diabos no palco produzia uma enorme confusão e estardalhaço no palco teatral da época.

Comentando novamente sobre a palavra inglesa get, como apresenta uma enorme abrangência de significados! Tem uns que até brincam dizendo que, se não souberem usar algum verbo em inglês, basta usar o get. Esse verbo, portanto, é a prova viva de que uma palavra pode significar milhares de coisas diferentes.

Existem regiões em que catar pode significar a mesma coisa de pegar. Matar também. Naquele sentido meramente vulgar e informal que expressei o verbo pegar, matar pode significar pegar, como também catar. Não podemos negar também que matar, neste caso, não tem uma significação geral, apenas regional (Em algumas regiões de Minas Gerais, por exemplo). Se o cara matar a menina, quer dizer que ele vai “ficar com a menina”. E ficar, neste caso, também pode ter várias interpretações.

Matar também pode derivar a palavra matador. A palavra matador pode ter vários significados, dentre eles dois bastante conhecidos: aquele que mata pessoas e aquele que faz muitos gols.

O mais estranho disso tudo não é matar nem pegar. O estranho é alguém falar uma coisa e a outra pessoa que está ouvindo entender outra. Ou até mesmo escrever de um jeito e ler de outro. Podemos estender o caso de gesticular alguma coisa e interpretar de outra maneira. Comunicação é um problema sério. E quem são os culpados são as próprias palavras, com os seus inúmeros significados? Foram os romanos? Não. O culpado, na verdade, não existe. O que existe na verdade é apenas uma confusão baseada na interpretação. Subjetivamente, a gente pode pensar uma coisa e interpretar outra. Podemos escrever uma coisa e ler outra. Posso muito bem escrever e enrolar o caro leitor que lê insistentemente este texto descontextualizando com todas as informações pautadas até agora. Posso muito bem ser irônico e dizer outra coisa ao invés da coisa propriamente dita. Não existe aquele belo recurso denominado figura de linguagem?

Nesse vai e vem danado de múltiplas significações, suponhamos que um jogador faça um gol e na hora da comemoração ele gesticule o seu dedo da mesma maneira que se atira com uma arma de fogo. Sabe aquele gesto que o artilheiro faz com a mão? Pow, pow, pow? O que deu a entender neste caso? Que ele é matador. Matador pode ser matador, matador e matador. O matador mata matando. Mas o que isso quer dizer? Qual foi a interpretação dos recebedores da informação? Muitos podem interpretar que o gesto é um absurdo. E de fato é isso que provavelmente vai acontecer. “Com esse mundo da violência, é um absurdo um jogador fazer um gesto desses em pleno horário nobre da televisão”! “O jogador está incitando a violência”! Para o jogador, na interpretação e no seu desabafo momentâneo, ele apenas quis mostrar, até pra ele mesmo, que ele realmente faz muitos gols.

Que ele é matador, embora matador, matador e matador tenham significados diferentes.

Grande abraço a todos.

P.S: Visite o Blog do Santaum!.

2 Comentários

  1. 25 Novembro, 2007 às 11:18 pm

    hEHeahaEaehAEHAeheaheah
    Você é demais, Santaum. Deu uma grande volta, fez um gigantesco raciocínio, levou (pelo menos a mim) a uma ginástica retórica…

    Pra dar base à defesa daquele jogador de futebol =D

    Curiosamente estupendo =)

    Quanto ao verbo get, acho que tem mais de 340 significados heaheahaehaehaeh

  2. Santaum disse,

    25 Novembro, 2007 às 11:24 pm

    Grande Reverendo!

    Exatamente, queria abordar duas questões neste texto. O caso do jogador do Flamengo, que fez aqueles gestos que todos nós vimos na TV e que depois foi criticado por incitar a violência. O segundo, finalmente, foi o caso de uma aula de inglês que tive. Não sei se já leu algum texto de Shakespeare em inglês. Naquela época, tal idioma não era tão apreciado por ser bastante inflexível e complicado. De um tempo pra cá (pouco mais de um século), a língua inglesa ficou mais simples, flexível. Exemplo de flexibilidade? O verbo e ao mesmo tempo nome WATER. Isso mesmo, como já sabe, water pode ser tanto um verbo quanto um nome. Dentre outros exemplos. Isso é fantástico. Acho, também, bastante interessante a flexibilidade e a semelhança entre várias línguas. O problema é que alguns entendimentos podem ser confusos, e uma mesma palavra pode causar, sometimes, estranhas interpretações.

    Valeu pela informação do GET e muito obrigado pelas considerações.


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