O Salto de Fé e o mundo injusto

Por Rev. Peterson Cekemp.

“Confie em mim”, diz a voz com a qual todos nós já nos deparamos. “Eu sei que isso não parece real / certo / lógico, mas, por favor, confie em mim”.

Essa é a voz da fé. Acreditar naquilo que contraria o que se tem por certo, por lógico. O problema da fé é que ela, como aponta Kierkegaard, é um tanto quanto necessária. Nossa biologia limita-nos; não temos todas as informações, e escapam a nós todas as relações possíveis entre elas. Logo, além do que se pode saber há a fé. Até certo ponto, há conhecimento. Depois, há apenas escolha.

Mas quais são as conseqüências da fé?

Em primeiro lugar, retire fé do contexto religioso – não é desta fé que eu estou falando. Sobre isso falarei num futuro próximo, um post que se seguirá a esse. Em segundo lugar, eu me recuso, por falta de vontade, espaço num post de blog, estudo e reflexão, a debater o assunto extensamente, como ele merece ser debatido. O que eu quero é mostrar como o mundo é injusto. Ou simplesmente caótico.

Porque, veja bem… Uma amizade. Ou até mesmo uma relação amorosa. As atitudes da outra pessoa para com você demonstram os sentimentos dela, mas o nosso conhecimento é limitado demais. É preciso ter fé nos sentimentos da outra pessoa.

Mas os problemas começam quando as atitudes da outra pessoa contrariam isso. Ela fala e você acredita em seus sentimentos, mas ela toma atitudes que vão à direção contrária! E então, acreditar ou não?

Agora que o problema está apresentado, continuemos.

Na maioria das histórias, dos contos, dos romances, há um momento onde é necessário para algum personagem nadar contra a corrente da lógica, sem nenhum lugar onde se apoiar – ou alguns poucos e frágeis – e o problema é que a realidade é por demais caótica, e há uma chance de que o bizarro e o improvável aconteçam.

Mas a questão é: como a sorte do universo pode premiar uma pessoa por ela ir contra toda a lógica e o conhecimento? É como dar um iPod pro estudante que tirou a pior nota da sala. Em uma cultura recheada de histórias onde a fé e a esperança contam mais do que o conhecimento, estamos criando pessoas ignorantes, que valorizam mais uma intuição boba do que a capacidade de raciocinar.

Mas, ao mesmo tempo, não estariam os burros inflados com coragem? Bem, aí depende. Se a fé é tanta que não há sequer medo de estar errado ao contradizer a mente, então essa coragem não tem valor algum. De que adianta a coragem, se ela não for o fruto da mais intensa das batalhas entre a vontade e o medo?

Nesse caso, quando a pessoa conhece a lógica de uma situação e ainda assim a contradiz, ela está sendo corajosa, não? Idiota, claro, mas talvez sua vontade seja superar, vencer, entortar a lógica para seu desígnio. O teorema de Thomas (em inglês) pode explicar porque esse tipo de fé pode triunfar.

A minha opinião sobre a última frase deste último parágrafo, é bom ressaltar, é a de que a fé pode triunfar e inverter situações conceituais, abstratas, mas não materiais. Falo isso antes que alguém venha dizer que a fé move montanhas, no sentido literal.

É, amigo, o universo é caótico demais… Pense bem antes de aceitar o convite da fé – essa fé do dia-a-dia, nos amigos, nas situações, nas possibilidades… “Confie em mim”, ela diz. Saiba que não há razão pra fazer isso. A escolha é sua.

10 Comentários

  1. Santaum disse,

    18 Dezembro, 2007 às 12:35 pm

    Fantástico, fantástico.

    Como já esperava, um texto excelente.

    Parabéns e bem-vindo ao Nada Pensitivo! Rev. Peterson.

    Grande abraço.

  2. 18 Dezembro, 2007 às 5:28 pm

    Muuito obrigado =D

    Abraço =)

  3. 18 Dezembro, 2007 às 9:35 pm

    Velho amigo!

    Você por aqui?!

    Seja bem-vindo!

    Dawkins, no “Deus, um delírio”, cita um exemplo magnífico de como a fé pode ser falha em questões ‘materiais’, num experimento de ‘cura de doentes pela oração’ (experimento sujeito ao ‘duplo cego’).

    Mais depois comento mais sobre isso, já se faz tarde!

    Parabéns pelo texto, abraços fraternos!
    :)

  4. 19 Dezembro, 2007 às 10:01 am

    Obrigado, Fátima!

    Eu realmente quis deixar claro que a fé da qual eu falava era essa conceitual e abstrata. A fé material é simplesmente ridícula mesmo.

    Abraços fraternos =D

  5. brocaze disse,

    25 Dezembro, 2007 às 2:53 pm

    Texto realmente muito interessante… parabéns!

  6. 25 Dezembro, 2007 às 10:31 pm

    Obrigado Brocaze =D

  7. 3 Março, 2008 às 1:07 pm

    [...] – se as pessoas continuarem a se agarrar desesperadamente àquilo que lhes é necessário agora. Se a fé é um salto, é preciso dar um salto nessa direção. Afinal, ter fé na própria razão e …. Se você clicar nesse link gigantesco das últimas frases, você vai ser direcionado pro texto [...]

  8. 27 Maio, 2008 às 10:18 am

    [...] que me leva a pensar que o primeiro passo pode ser o mais importante na maioria dos casos. Tags: amor, eu, pessoa, [...]

  9. 25 Julho, 2008 às 12:54 pm

    [...] Texto originalmente publicado no Nada Pensitivo! [...]

  10. 6 Junho, 2009 às 12:28 am

    [...] que me leva a pensar que o primeiro passo pode ser o mais importante na maioria dos casos. Pra pensar amor, eu, pessoa, [...]


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