Entre a Mesmice e a Fuga do Mesmo

Existe algo na minha vida que me intriga bastante. Esse algo é justamente este paradoxo entre a mesmice e a fuga do mesmo na minha vida. O que me deixa mais satisfeito? A mesmice ou justamente o ato de escapar dela?

A mesmice me parece que é uma fuga que a nossa vida intuitivamente nos propõe a fugir da dor, da derrota e da frustração. Nos dá uma sensação de conforto instantâneo, alívio e de certa forma nos conduz a atitudes iguais às dos outros. É um sentimento rebanhado, de uma maioria que faz parte de um enorme grupo que naturalmente sempre está à nossa volta. Pode soar estranho, mas subentende-se que essa enorme maioria geralmente é feliz. Entretanto, seria essa uma felicidade de capa, de superfície, uma embalagem que mascara aquele verdadeiro sentimento que um espírito livre é capaz de proporcionar.

O grupo oposto é composto de pessoas que são contra essas posturas mesmas e iguais às dos outros. São uma pequena minoria. São pessoas fisicamente iguais às outras, porém elaboram em si pensamentos universais completamente diferentes daqueles que vieram de uma mesmice. São questionadores, sempre interrogam tudo que está em sua volta e sempre tendem a buscar a sua verdade absoluta. Às vezes não, evidentemente, contanto que não se pode deixar de adjetivá-los como criaturas humanas que refletem pensamentos em torno de si e em sua volta, que buscam um norte no seu dia-a-dia e ficam intrigados com as coisas tais como efetivamente são. Dá a entender que esse grupo se frustra mais e ao mesmo tempo fica revoltado e insatisfeito com as situações naturais que são deparadas no decorrer da sua vida. A pessoa desse grupo sempre se intriga em várias situações pelas quais a mesmice se manifesta e muitas vezes pode sofrer bastante com isso, por se tratar de uma minoria. Talvez não, pelo fato de se achar diferente e também por acreditar veementemente naquilo que o incomoda. E, para muitos desses poucos, essa pode ser uma felicidade interior e verdadeira.

Fico questionando qual o caminho que eu devo tomar, ao observar que tenho vários conhecidos que sequer se questionam sobre si mesmos. De conhecidos que, quando começo a comentar sobre assuntos do tipo, sequer começam a discutir algo parecido e encerram-me dizendo que eu estou viajando. Será, portanto, que não faço parte do grupo arrebanhado e fico intrigado como poucos acerca dessas questões reflexivas e existenciais? Seria isso um problema?

Para os mesmos, isso é um problema. Ainda mais quando se trata do atual, do hoje em dia. Para os mesmos, compensa mais ser igual aos outros e buscar na sua unidade algo plural e coletivo, para que os desvios da sua mesmice sejam mascarados. Para os mesmos, vale a pena buscar um modelo global para que ele se frustre menos e o outro não perceba a sua fraqueza natural e interior. Até para ele “mesmo” a sua maneira plural de viver lhe cai muito bem pelo fato de omitir algumas frustrações no seu pensamento interior e na sua unidade. Parece que essa sensação pode deixar em si um falso conforto, uma falsa alegria e uma falsa comodidade momentânea que não o faz se distinguir dos outros. Para os mesmos, isso seria, portanto, uma válvula de escape.

É, portanto, uma sensação frustrante e malograda os bem-aventurados que procuram questionar a sua existência e tudo que está em sua volta? Talvez a resposta seria sim. Mas não completamente um sim. Seria um sim com uma cara de não. Intuitivamente, este sim poderia ser um não ou nenhum dos dois, ou os dois ao mesmo tempo. O que interessa é que essas sensações ficariam mais claras, verdadeiras, como também o oposto delas. Não se criaria a partir daí uma máscara, uma capa, algo superficial. Os sentimentos seriam unânimes e verdadeiros. Viriam do seu interior. E essas sensações são fantásticas.

Mas até que ponto vale a pena expor em si estes sentimentos verdadeiros? Seria demasiado satisfatório para mim o simples fato de assumir verdadeiramente meus sentimentos ao invés de mascará-los?

Apesar desse paradoxo, todos já sabem a minha resposta.

Grande abraço a todos.

15 Comentários

  1. 16 Janeiro, 2008 às 10:14 am

    Grande texto, Santaum! Excelente!

    E o curioso é o seguinte: a vontade de ser diferente, questionador e se destacar do grupo foi tão elevada que o sistema aprendeu com isso, e agora VENDE isso. Falar que há apenas pessoas que não querem se adaptar a todos e pessoas que querem é natural, mas poucos querem mesmo ser igual a todos, principalmente porque o nosso próprio ambiente nos ensina a ser diferentes, a sair da mesmice – mas, desde que essa fuga seja COMPRADA nos postos autorizados. Aí, não existe fuga da mesmice. Como disse já o menino do filme “Os Incríveis”:

    - Everybody is special, son
    - Which is just another way of saying nobody is…

    Abraço!

  2. Santaum disse,

    16 Janeiro, 2008 às 3:08 pm

    Interessante mesmo o seu comentário Rev. Peterson. Foi um dos mais interessantes que fez até agora.

    Aí entra justamente a proposta do texto, o sentido de rebanho, de fazer parte dele ou não. Se rebanho, mesmice. Non rebanho, non mesmice.

    Os criadores de bois conhecem bem isso.

    Grande abraço.

  3. 16 Janeiro, 2008 às 4:51 pm

    “Os criadores de bois conhecem bem isso.”

    Essa frase disse tudo.

    Abraço

  4. Santaum disse,

    17 Janeiro, 2008 às 1:15 pm

    Essa frase não é minha. Advinha de quem é?

  5. fredseifert disse,

    17 Janeiro, 2008 às 9:54 pm

    VI que você fez um comentário sobre o meu comentário (!) no blog orkutcidio.
    Eu tenho um blog também. Se quiser dar uma olhada, é só clicar!

    A mesmice é boa. É a mesmice que nos faz pensar, pra escaparmos dela mesmo.

    Abraços.

  6. Santaum disse,

    17 Janeiro, 2008 às 10:43 pm

    Olá Fred Seifert.

    Conheço o seu blog sim, muito bom por sinal. Seus textos são interessantes.

    Lembro do comentário sim. Falando em comentário, seus comentários no orkutcídio também são sempre muito bons. E que bom que visitou este sítio e, melhor, fez comentário.

    Seja bem-vindo!

    Sobre seu comentário, sua última frase mostrou justamente a intenção deste post.

    Grande abraço.

  7. crownedvic disse,

    19 Janeiro, 2008 às 2:15 pm

    Grande post, Santaum! Como deve imaginar, me identifiquei muito com ele.

    Me chamou a atenção aquele paradoxo que você apontou sobre o que de fato é frustração e o que de fato é ou não é felicidade. Pois, como podemos inferir, você não valoriza muito a felicidade das massas, que é aquele estado “dopado” no qual tudo é uma porcaria disfarçada.

    Me lembrei foi de um trecho do longa de animação chamado “Waking Life” (quem não viu ainda, veja!!!!!!) que diz sobre a dor de existir, mais ou menos assim: “HÁ DOIS TIPOS DE SOFREDORES: OS QUE SOFREM POR POBREZA DE VIDA, E OS QUE SOFREM POR ABUNDÂNCIA DE VIDA.”

    O filme é muito legal, e hoje é possível encontrar o DVD nacional em algumas lojas virtuais, vale a pena conferir.

    Ah, e sei que estou meio sumido daqui, mas em breve posto alguma coisa. Estou passando por um período de adaptação. Fugir da mesmice constantemente tem seus efeitos colaterais!!!…

    E em breve vou soltar um presentinho pra galera aí, um texto meu sobre o movimento punk. Abraços a todos.

  8. Santaum disse,

    19 Janeiro, 2008 às 3:38 pm

    Grande Vitão. Sim, imaginei sim.

    Não conheço esse longa não. Vou ver se assisto por aqui.

    Estaremos aguardando o seu próximo post.

    Grande abraço.

  9. 19 Janeiro, 2008 às 4:47 pm

    Opa, texto sobre o movimento punk?

    Aguardo ansioso =)

  10. Santaum disse,

    19 Janeiro, 2008 às 8:31 pm

    Bom Vitão, você é sabedor do assunto né bicho. Monografia e tals… Portanto…

  11. crownedvic disse,

    20 Janeiro, 2008 às 1:59 pm

    É isso mesmo, Reverendo, um texto sobre o movimento punk. Trata-se da monografia que fiz para concluir meu curso de Ciências Sociais, em 2006.

    Fiz uma identificação da ideologia punk, sob uma perspectiva filosófico-política. Usei Hannah Arendt lá. O punk é um movimento (ou, talvez, FOI) muito interessante e rico, embora hoje eu não acredite e nem concorde mais com o anarquismo e aquela idéia de que todos nós somos seres bons por natureza e tal…

    Bom, enfim, em breve colocaremos o link para que possa ser feito o download. Falta eu escrever um pequeno parágrafo avisando que minha monografia já está defendida, aprovada e registrada, portanto pertence ao acervo da universidade – o que significa que meus direitos autorais estão já assegurados com isso. Até, e que bom que se interessou pelo texto.

  12. Santaum disse,

    20 Janeiro, 2008 às 9:01 pm

    E essa foto aí Vitão?

    Hahahahhaha.

    Para o Rev. Peterson: Vsa. Exc. é anarquista correto?

    P.S.: Marcilião, estou esperando seu próximo post também, heheheeheh.

    Grande abraço a todos.

  13. 20 Janeiro, 2008 às 10:34 pm

    Hummm, sim, sim, me interesso muito =)

    Eu também não acho que somos seres bons por natureza – tampouco maus – mas sim, sou anarquista. Anarco-discordiano seria mais completo, talvez, hehehe.

    Ah, e detalhe: eu também pretendo cursar ciências sociais ^^ Acho um curso muito foda.

    Abraços

  14. Santaum disse,

    21 Janeiro, 2008 às 6:45 pm

    Bom gosto Peterson. Deve ser um excelente curso.

  15. 30 Junho, 2008 às 8:42 am

    [...] Texto original no Nada Pensitivo!. [...]


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