Por que não sou alternativo

Por Crownedvic.

 

 

Tenho visto um crescimento da tal denominada “cena independente” em todos os lugares. O grande problema disso é que, por todos os lados, surgem turminhas de jovens “maneiros” montando suas bandas e tocando suas composições de conteúdo duvidoso e, graças à inclusão digital e mais um monte de outras facilidades atuais, gravando seus discos pelo “meio independente”.

Não que eu seja contra essa história do “faça-você-mesmo”, mas hoje as massas têm abusado desse direito. Tornou-se uma moda banal, e está claro que pouca qualidade se sufoca numa enxurrada de porcaria sem fim.

A porcaria de que falo aqui não é qualidade sonora, técnica musical, virtuosismo ou produção e mixagem. Um bom músico consegue fazer música boa com poucas notas e com poucos recursos (não estou dizendo que este é o meu caso, pois não me considero músico). É claro que aprecio um trabalho de produção e mixagem bem feito, mas o conteúdo que critico aqui é o conteúdo ideológico dessas bandas (ou melhor, das pessoas que formam essas bandas).

Termos como “alternativo” e “independente” têm sido aplicados sem pudor algum. Parece não haver mais uma definição precisa para isso; hoje uma variedade imensa de “tribos” ou de “modas” é classificada como parte da tal “cena alternativa”. Mas eu gostaria de saber uma coisa: alternativa em quê?

Será mesmo que para ser “alternativo”, basta vestir uma “roupinha irada” com desenhos indianos, usar uma bolsinha de crochê, ouvir Los Hermanos e Zeca Baleiro e a “nossa” amada MPB, e ler Paulo Coelho e mais uma infinidade de bobagens exotérico-comerciais? Assistir Efeito-Borboleta e se gabar com aquele ar irritante de cinéfilo cult? Pois é esse tipo de coisa que predomina no “cenário alternativo”. Essas pessoas chegam muitas vezes a se denominar “hippies”. É claro que há muitas outras vestimentas “alternativas” por aí – depende de qual for a “tribo” em questão. Há os que se denominam “grunges”, há os “indies”, os “punks”, os “headbangers” e mais um monte de rótulos, que lêem, ouvem e vêem o que for característico do rótulo do qual façam parte. Isso quando conseguem ler, ouvir ou ver algo.

Mas e o conteúdo? Onde está? Será que ser alternativo é isso? Assistir MTV e pensar como pensa um público típico da MTV? Pois é isso que vejo em minha frente quando freqüento lugares “altenativos” em minha cidade. Aquela já ultrapassada mentalidade burguesa disfarçada com maneirismos e gírias “da hora”. Às vezes até penso ter caído dentro do seriado “Malhação”: cada um tem seu estilo e seu swing engraçadinho, contagiante e jovem – Huguinho tem seu estilo rastafari, Zezinho é um skatista, Luizinha é uma gótica, e por aí vai. Meu amado Deus, uma bazooka, por favor!

Mas, no fundo no fundo, não há muita diferença entre esse tipo de gente e aqueles jovens ridículos que costumam freqüentar lojas de conveniência de postos Ipiranga. A diferença é que, nestes lugares, as patricinhas vestem roupas de patricinhas, e não de Avril Lavigne, Pitty ou Alanis Morissete. E os playboys vestem roupas de playboys, em vez de uniformes de hippies-de-boutique, ou de qualquer outro estereótipo “alternativo” de boutique. No final, é tudo a mesma coisa. Ficam lesados o tempo inteiro – pois a vida deles é uma porcaria – e caminham para a mesma direção. As idéias e os fins de todos são ruins do mesmo jeito, mas por vias (mais ou menos) diferentes.

Acho uma pena essa banalização que tem ocorrido. As poucas pessoas ou bandas que possuem o devido conteúdo que faz juz ao termo aternativo (ou deveria fazer) têm suas identidades dissolvidas por tamanha vulgaridade ao redor. São constantemente agredidas ao terem que toda hora ouvir clichês vazios e sem conteúdo algum – aqueles “alternativos” só sabem repetir e repetir frases prontas sem saber o que de fato querem dizer. Dizem o tempo todo: “Abra sua mente”; “Atitude!!!”; … Mas por que então ainda são tão presos, tão cegos e tão burgueses? Repetir frases prontas de Jim Morrison parece ser o suficiente para provocar neles a sensação de que eles realmente são o que dizem ser, mas a verdade que sabemos é que não passam de papagaios. Só que bem mais coloridos e muito mais idiotas. E por isso não sou alternativo. Nem mainstream. Sou de lugar nenhum, e não pertenço a cena alguma.

8 Comentários

  1. henriquewint disse,

    30 Janeiro, 2008 às 8:02 pm

    Eu já pertenci à várias tribos que vemos por ai, sendo a última, a turma dos metaleiros fodões que podem passar por cima de todo mundo com sua superioridade, ironia e sarcasmo. Foi então que conheci Shakespeare, e Nietzsche.. acabei abrindo meus olhos a novos lugares.. percebi que toda aquela arrogância não me levaria a lugar nenhum.
    Ainda continuo no mesmo sistema, mas de modo geral, mais livre.. muito embora ainda seleciono muito bem o que leio, escuto e vejo.

  2. Santaum disse,

    30 Janeiro, 2008 às 8:40 pm

    Olá Henrique,

    Acho que em alguma fase da nossa vida chegamos a pertencer a alguma tribo, ou até em toda a nossa vida, pelo fato que intuitivamente tendemos a viver em algum grupo, mesmo que para outro ele seja, a priori, ridículo. A gente tem que fazer parte de algo com que nos identificamos, ou então se identificar em não fazer parte de nenhum cenário, como o Victor. E ainda bem que podemos fazer as nossas escolhas.

    Grande abraço e muito obrigado por frequentar este blog Henrique.

  3. Santaum disse,

    30 Janeiro, 2008 às 8:43 pm

    Vitão, pra variar, mais um texto excelente. Mais forte, porém demasiado interessante. Depois eu comento direito sobre ele.

    Grande abraço.

  4. 31 Janeiro, 2008 às 12:06 am

    Henrique: tenho um amigo que precisa de umas doses cavalares de Nietzsche e Shakespeare, então.

    Um texto muito bom, mas, pardon me, vivemos talvez em lugares bem diferentes. Efeito Borboleta por aqui é bem comum e popular, ninguém nunca se gabou de cult por causa desse filme. Paulo Coelho então, é coisa de madame – por aqui, aliás, ser “alternativo” é NÃO ler Paulo Coelho.

    Eu concordo com você. Vivemos num mundo de mudanças tão aceleradas que não dá pra assimilar tudo – é quase como um emprego de organização de arquivos; hoje em dia há tanta coisa a classificar que alguém mais preguiçoso coloca tudo na gaveta do “alternativo” e pronto, tá resolvido.

    A pergunta é muito válida. Alternativo A QUE? Acho que é a primeira coisa que os alternativos deveriam se questionar.

    Rótulos são coisas curiosas – bastante chatas e um pouco inúteis, não fossem as receitas nas latas de leite condensado – e eu prefiro não assumir nenhuma “oficialmente”, simplesmente porque elas se aplicam a mim até certo ponto – e, adaptando um pensamento hakimbeyibrahimcesariano, não quero mapear meu território. E fazer um mapa pra caber em uma pré-concepção social, é isso que é se declarar “alternativo” orgulhosamente. O melhor jeito de ser alternativo é procurar não ser nada que se defina – ou seja, buscar alternativas (back to basics) àquilo que lhe é apresentado, seja isso mainstream ou underground, e buscar as alternativas em qualquer fonte, mainstream ou underground.

    Outra coisa que tem a ver com isso… Não, esquece. Essa idéia dá um bom post. Não dá pra ficar só no comment ;D

    Grande post, crownedvic (É Victor, right?)

  5. crownedvic disse,

    31 Janeiro, 2008 às 8:47 am

    Santão, valeu pelo comentário. Você, que é meu companheiro dos tempos da “Garagem do Pedrão” sabe bem o que rola por aqui… Poucas bandas sabem o que estão fazendo e dizendo, e poucas pessoas sabem quando uma música começou ou terminhou num show… Ah, E a do seu primo (Tetrex) é uma das poucas coisas boas que há por aqui. Essa banda é foda!

    Henrique, eu também já tive minha fase “true”. Realmente passei por aquela fase de “orgulho headbanger” e foi exatamente quando conheci Nietzsche que me despedi daquela besteira. Hoje ainda freqüento alguns shows de garagem e tal, pois tenho amigos que são pessoas interessantes, mesmo num meio corrompido como o “alternativo” da minha cidade. É aquela história: podemos selecionar, como diz você.

    Reverendo, grande comentário. Pelo que me diz, imagino que os alternativos daí são menos fajutos do que os daqui. Aqui, Paulo Coelho é como se fosse o Timothy Leary brasileiro… E Efeito Borboleta é um filme do qual esses “alternativos de boutique” daqui se gabam em dizer que gostam. Fazem aquela postura de intelectual, aquele “arzinho cult” mesmo. Que bom que aí pelo menos eles deixam Paulo Coelho para as madames!

    De qualquer forma, citei esses exemplos em meu post porque suponho que em todos esses âmbitos pseudo-alternativos o que predomina é a cultura de massa. Paulo Coelho, assim como o ridículo best-seller “O Segredo” é a cara desses hippies de classe-média estilo Malhação. Exoterismo barato e comercial. E os filmes, quase sempre o que predomina são esses blockbusters que não chegam a ser cults, mas que aparentam ser um pouco mais “inteligentes”, embora ainda sejam muito pobres (como Efeito Borboleta).

    Bom, gostaria de saber o que a turminha de Malhação da sua cidade gosta de ler e assistir, por curiosidade. Ah, e meu nome é Victor mesmo.

  6. 31 Janeiro, 2008 às 10:43 am

    Pois é Victor, a turminha de Malhação, pelo menos aquela com a qual eu convivo mais de perto (pra cê ver o sacrifício), não gosta muito de ler. Eu não sei aí, mas aqui a leitura é algo tão desestimulado em todo o canto que, enfim… Aqui o que mais distingue os cults são a música e o estilo de se vestir. Os alternativos há muito tempo se distanciaram do estereótipo “emo” – mas nem tanto – e quanto à musica, a cena inglesa é bem admirada e, claro, muito, muito MySpace.

    Mas quanto a leitura algo bem difundido entre os POUCOS que leem na turminha de malhação são os best-sellers, Caçador de Pipas, Menina que Roubava Livros, essas coisas. As pessoas que falam de O Segredo raramente leram o livro, mais viram o filme ou gostaram da idéia – mas ninguém compra aqueles Copycats do estilo “O segredo do segredo”. Quanto aos filmes, eu realmente não sei. Mas Efeito Borboleta é bem comum. Difícil encontrar alguem que não tenha visto e difícil achar alguém que até se lembre dele, depois de um tempo.

  7. Santaum disse,

    31 Janeiro, 2008 às 6:25 pm

    Peterson, gostei demais da conta de Caçador de Pipas, hehehhe. Até comprei A Cidade do Sol para ler, hahhahahh.

    Vitão, é verdade, fizemos parte daquele contexto. Normal demais. Mas, como foi dito, fizemos, ou seja, não fazemos.

    Tetrex é uma banda diferenciada, procura, além da sua musicalidade excelente, propostas sociais e comunitárias. Isso é algo raríssimo em bandas de rock. Para ter acesso ao blog da banda Tetrex (sim, eles têm blog), basta clicar no link abaixo.

    Olá, eu sou um link, clique em mim para acessar o blog da banda Tetrex.

    Grande abraço a todos.

  8. 16 Maio, 2008 às 1:46 pm

    [...] também: Por que não sou alternativo, no Nada [...]


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