A. – Como que não? Claro que é possível!
B. – Acredito que não. Você com certeza tomou a decisão errada. Você sabe que estudar nunca é demais, mas decidir sua carreira executiva focando a pós-graduação, sem trabalho, é um grande equívoco da sua parte. Na hora em que terminar seu doutorado, até mesmo seu mestrado, tenho certeza de que terá dificuldade de ingressar no mercado. Se somente fez iniciação científica na graduação, não fez estágio e entrou direto na pós-graduação sem nenhuma experiência profissional, a sua situação será mais complicada ainda.
A. – Então quer dizer que, mesmo tendo este título, a probabilidade de ficar desempregado será grande?
B. – Olha, essa é a minha opinião. Como líder de projeto eu não te contrataria pela idade que você tem e pelo enorme custo que teria que arcar contigo. Além disso, com essa idade, já teria que ter entrado no mercado. Afinal, você precisa conhecer a empresa. Além disso, precisa ser moldado pelos valores que ela prega. Isso é de fundamental importância para o seu crescimento profissional.
A. – Eu não vejo dessa forma. Se eu sou pesquisador, não quer dizer que necessariamente eu teria um perfil inadequado para ingressar no mercado. Posso muito bem ter um perfil de um empreendedor, por exemplo. Posso muito bem ter a plena capacidade de adaptar a esse mercado. Não vejo dificuldade nisso. Aliás, não vejo quase nenhuma dificuldade em sofrer adaptações ao longo da minha vida.
B. – A questão não é adaptação ou não. A questão é a falta de experiência que você vai ter com uma idade relativamente alta. E mais, vou ser bem sincero contigo. Realmente não vale a pena fazer somente o mestrado e doutorado porque, veja só, fazer um mestrado pra ganhar apenas 4.000 reais para mim é pouco. Um engenheiro com 2 anos de experiência vai ganhar mais do que você. Tenho um amigo que fez o doutorado dele na Alemanha e, quando voltou, ganhou só 8.000 reais. Acho isso muito pouco para a titulação dele. Olha, daqui a 5 anos, quando eu virar gerente da planta, vou ganhar mais que o dobro dele, que é doutor. Sem contar ainda com o bônus anual da empresa. Realmente, pelo menos financeiramente (que é o que eu penso), você só vai perder dinheiro fazendo a sua pós-graduação. Além disso, o estudante de pós-graduação é muito introspectivo e muito metódico, não tem o dinamismo e a velocidade que a gente tem.
A. – Discordo de você. O estudante de pós-graduação apenas adapta seu jeito de trabalhar na pesquisa. Você não pode fazer um trabalho ruim, mal escrito como muita gente faz por aí. Você, nesse sentido, não pode deixar de ser metódico, perfeccionista. Muito menos você tem que necessariamente ser rápido o suficiente para entregar algum resultado. Em trabalhos intelectuais, às vezes é preciso muito tempo para conseguir obter um dado, mesmo que seja em pequena quantidade. Entretando, esse dado é muito valioso para a pesquisa. Talvez, agora, isso não tenha nenhum resultado inovador para alguma aplicação ou fim, mas servirá de base científica para algum eventual trabalho futuro. Veja um exemplo clássico: Leibniz foi um grande filófico do século XVII. Além de enormes contribuições no cálculo diferencial e integral, ele inventou os números binários. Eu duvido que você praticamente não se utilize de nada que se relacione com a era digital.
B. – Eu não estou dizendo que para a humanidade a pesquisa é ruim. É boa sim. Só estou dizendo que, para entrar no mercado, você terá muita dificuldade. Pelo menos aqui no Brasil. Além disso, não vai ganhar dinheiro.
A. – Você então não acha que, de certa forma, eu não tenho nenhum potencial de ingressar no mercado?
Nesse aspecto, discordo completamente de você.
Primeiro ponto, não é descartada a hipótese de se fazer um doutorado buscando a inovação. Doutorado, ou mestrado, não é só estado da arte, mesmo considerando importantíssimo esse tipo de abordagem. É possível, sim, fazer parceria com alguma empresa ou até mesmo microempresa com o intuito de desenvolver pesquisa de altíssima qualidade. Provavelmente isso trará um razoável retorno financeiro na empresa. Nos Estados Unidos, por exemplo, isso é muito comum. Existem até empresas que têm mais de 1.000 doutores. Isso é ruim? Ter 1.000 doutores? A cada 100 pesquisas feitas nos Estados Unidas, 90 são oriundas de parcerias entre empresas e Universidades. No Brasil, somente 30. A área de pesquisa e desenvolvimento cresce mais a cada dia que passa e é um mercado demasiado potencial para estudantes de pós-graduação. Voltando novamente aos Estados Unidos, por que não fazer doutorado lá? Afinal, não é lá que é valorizado o conhecimento intelectual e o aluno que realmente estuda e não é igual ao Brasil onde o estudioso é tachado de nerd e desvalorizado nas empresas? Não é por isso que o Estados Unidos está no patamar econômico que está? Eles não são bobos. Desde sempre perceberam que conhecimento intelectual é a peça-chave para o pleno desenvolvimento de uma nação.
Estudo. Essa é a palavra-chave. Em um país em que um artista de programa de férias diz “Graças a Deus não li livros esse ano” e boa parte dos piores alunos de engenharia ficam nas melhores empresas por apresentarem um perfil extrovertido e respeitar hierarquia, o mercado teria que reagir da maneira mesmo como está pensando.
Segundo ponto, eu posso muito bem fazer um doutorado e, após terminá-lo, abrir um negócio. Existem muitas fundações de amparo que incentivam pessoas a abrirem, por exemplo, empresas incubadoras (microempresas). Existem, já, diversos exemplos de sucesso no Brasil em algumas regiões tecnológicas, como as cidades de Campinas e São Carlos no estado de São Paulo. Por que não empreender, por exemplo? Por que não começar do zero? Os grandes empreendedores sempre não começam do zero? E outra, diante da possibilidade de ser proletário, como você é, e ser dono do próprio negócio, prefiro ser dono do meu próprio negócio.
B. – Mas veja um ponto, você vai entrar nessas empresas e vai ganhar pouco. Seu salário, pelo título que você vai ter, será muito pouco. Além do mais, até você abrir o negócio e começar a lucrar, você vai ficar velho e não vai aproveitar a sua juventude com muito dinheiro. Vai passar a sua vida toda estudando? Bom, eu penso no dinheiro e…
A. – Posso ser até idealista, mas prefiro sempre progredir intelectualmente do que ser um rico sem cultura.
marcilioestefanio disse,
8 Março, 2008 às 1:18 pm
Santaum!!
Um homem deve seguir sua intuição.Se uma pessoa é capacitada intelectualmente,ela é capaz de contribuir de forma positiva com o planeta em que vive.Na verdade o objetivo final não é o dinheiro,dinheiro aliás na minha opinião é uma merda.
Uma vez numa aula de fenômenos o Damasceno disse o seguinte:
“Se acontecer a terceira guerra mundial eu não sei como será mas tenho certeza que a quarta vai ser com pau e pedra.”
Ou seja a perda de todo esforço intelectual de séculos com uma terceira guerra,faria a gente regressar a um estado primitivo de conhecimento inimaginável.
Como sobreviveria o Rico num mundo sem recursos materiais?E o Intelectual?O Intelectual com seus conhecimentos saberia trabalhar com os recursos naturais e contribuiria de forma positivo com seu meio.
Dinheiro é descartável,conhecimento é imprecindível.
Grande Abraço amigo!!!
“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia.”
Santaum disse,
9 Março, 2008 às 3:22 pm
Marcílio,
Sensacional sua linha de raciocínio. Um dos melhores comentários feitos até agora neste blog, na minha opinião.
Penso também da mesma maneira que você, mas quase todos hoje em dia pensam de maneira diferente da nossa. O foco hoje é a monetização, BENS MATERIAIS, capital.
Evidentemente que também não podemos (poder até que a gente pode, heheheh) ser radicais, abandonando a nossa vida ocidental e parando em uma ilha deserta, limpando a nossa bunda com a água do mar ou as folhas das plantas, hehehehe. Devemos ressaltar também que a gente precisa de uma condição financeira mínima para tirar o nosso sustento. Agora, se buscarmos o conhecimento, não há dúvida de que buscaremos alternativas para vários fins, e a sobrevivência financeira não estaria fora disso.
Grande abraço meu caro e até o dia 21 de abril em Uberlândia, na nossa festa dos 3 anos de formatura.
Rev. Peterson Cekemp disse,
10 Março, 2008 às 1:20 pm
Dinheiro é descartável,conhecimento é imprecindível.
Cara, a melhor frase.
E eu também acho o dinheiro uma merda ^^
Abraços Santaum, post interessantíssimo amigo.
marcilioestefanio disse,
10 Março, 2008 às 2:09 pm
Santaum,
Vá pra ilha que você encontrar com muito dinheiro e limpe a banda com ele.Hehehehehehehehehehe!!!!Brincadeira!!!
Somos poucos a questionar o dinheiro,o capitalismo,mas já que eles estão ai,estabelecidos, vamos usá-lo da melhor maneira possível.Concordo com você amigo.Não dá pra ficar nadando contra a corrente a vida inteira.
Grande Abraço!!!
Rev. Peterson Cekemp disse,
10 Março, 2008 às 4:58 pm
Eu penso que devemos usar o dinheiro da melhor maneira possível, mas não perder chance alguma de lutar contra ele.
É um bom pensamento, vai
Santaum disse,
10 Março, 2008 às 8:30 pm
Eu não sou contra o dinheiro não. Sou a favor de ter dinheiro.
O que acontece é o seguinte, o dinheiro vira mais foco do que a busca de conhecimento do indivíduo. Uma pessoa faz um curso técnico para ficar rico, enquanto o outro estudante quebrado e amigo dele não ganha nada e faz o segundo grau científico.
Mais tarde, esse aluno que fez o científico entra em uma universidade pública, por exemplo federal. O rapaz que fez o curso técnico já ganhou e dinheiro e comprou carro. Aproveita e paga para fazer a universidade dele. Se forma e ganha um pouco mais.
O estudante da escola federal está fazendo o mestrado e o outro ganhando dinheiro. Além disso, outros colegas do rapaz da universidade federal já estão muito bem de vida somente com o título da graduação trabalhando em multinacionais.
O que se questiona neste post não é como usar o dinheiro ou não e se o dinheiro é bacana ou não. O que se questiona é que tudo que a gente faz na vida em termos educacionais é voltado para dinheiro. Principalmente o plano de carreira. Uma pessoa até sacrifica o que realmente gosta de fazer para ganhar mais. Todo curso tem um foco de melhoria financeira no futuro. Essas coisas desvalorizam a beleza do quadro intelectual, que é ter uma gama interessante de conhecimento.
Fazendo um desabafo, já estou de saco cheio de bobagens de algumas pessoas falando que eu estou perdendo meu tempo fazendo mestrado. Acho que estou, pelo contrário, ganhando meu tempo. Isso para mim é o que vale.
crownedvic disse,
11 Março, 2008 às 12:11 am
Santaum, belo post. Acho legal você estar tirando bom proveito intelectual do mestrado, sendo que a maioria das pessoas só visa retorno financeiro. Com certeza, um mestrado é uma boa para quem quer amadurecer intelectualmente.
No meu caso, que é filosofia/ciências sociais, tenho um pouco mais de facilidade em ser auto-didata. É esse o mestrado que terei, um “auto-mestrado”. No seu caso a coisa já complica, pois trata de matérias que sem um professor para orientar fica difícil demais…
E realmente o povo é escravo do dinheiro mesmo.
Por falar em escravidão, me chamou atenção quando você escreveu sobre deixar de ser proletário ao abrir o próprio negócio. O pensamento que isso me despertou foi que podemos até deixar de ser proletários ao abrirmos o próprio negócio, mas continuamos submissos à lógica capitalista. Não ficamos acima dela ao abrirmos o próprio negócio – na verdade, nos tornamos mais próximos ainda dela, pois a incorporamos.
Além disso, como já disse o nosso amigo bigodudo (mais ou menos nas seguintes palavras), “mandar muitas vezes é uma tarefa mais árdua e pesada do que obedecer…”
Muitas vezes um patrão é mais escravo ainda do que seus empregados. É claro que há aqueles indivíduos com “espírito empreendedor nato”, que são apaixonados por capitalismo e que se realizam espiritualmente sendo líderes de um certo contingente de empregados. Mas há, também, e em maioria, indivíduos aflitos, estúpidos, toscos e bobos que possuem “sangue de escravo” mas que conseguem adquirir uma posição alta que os permita mandar em algumas pessoas. Esses indivíduos continuam escravos mesmo quando mandam, mesmo sendo donos do próprio negócio.
Somente deve liderar aquele que PODE ser líder pois, caso contrário, o que haverá será também escravidão. Escravos são súditos, mas também tiranos (e infelizmente é isso o que predomina em todos os âmbidos da esfera social: tiranos no lugar de líderes). Abraço, e isso aqui foram só umas reflexões que seu post me provocou. AWAY!!!
Santaum disse,
11 Março, 2008 às 12:30 am
Interessante Vitão, muito interessante sua visão.
Obrigado mesmo por expor seu ponto de vista.
De fato, a discussão entre A. e B. foi bem interessante. Mas uma coisa é certa, um é mais orgulhoso que o outro. Um acha que é certo que e sua opinião sobrepõe à do outro. Detalhe que, no início, A. está mais comedido, ao passo que no final A. se sente mais ofendido com os argumentos de B e se solta mais. Eles estão presos, como se diz, nesse esquema armado do capital, mesmo A. não reconhecendo totalmente.
Agora, temos que lembrar que é utopia o mundo sem o dinheiro e o capital. Dependemos dele. Podemos até interpretar a escravização da mão-de-obra da maneira que estamos imaginando, mas lembremos que isso é teórico, utópico. Na prática, isso não existe.
P.S.: Sobre o mestrado, o crescimento intelectual não foi tanto dentro dele, mas sim fora dele. Isso também não quer dizer que sou o cara, o superintelectual e o dono da palavra, hehehehhehe. Estou longe disso, ehehhe. Apenas estou mais satisfeito com minha forma de pensar do que há 2 anos atrás, e mais ainda do que há 8 anos atrás, quando saí de Montes Claros.
Grande abraço Vitão! A propósito, Dadá me falou que você assistiu o show dos caras em BH. Que privilégio, hehehe!
crownedvic disse,
11 Março, 2008 às 12:17 pm
Santaum, eu fui pro show mesmo, e estou doido por causa disso até agora. O set foi perfeito, e os caras estavam muito animados. Houve 3 telões passando animações e filmagens feitas para cada música, muito louco mesmo. Veja no youtube depois, digite Dream Theater Belo Horizonte. Inacreditável!…