Homossexuais são normais!

24 Abril, 2008 at 5:35 pm (Rev. Peterson Cekemp) (, , )

Por Rev. Peterson Cekemp

Eu estava discutindo com uma certa pessoa nos últimos dias acerca da normalidade dos homossexuais. Ela insistia em dizer que eles não eram normais; ficou indignada comigo, a pessoa. E eu dizendo que sim, eles são normais.

O modo como é defendido o ponto de vista contrário ao meu é um só: na natureza, os machos copulam com as fêmeas. Ponto. Isso é normal.

Mas é daí que eu parto. Em primeiro lugar, vamos definir a normalidade: enquanto ela não for aquele assunto estudado na química de segundo ano (a normalidade de uma solução), ele é subjetivo e portanto é totalmente flexível. Por exemplo: minha casa é branca – fato. Minha casa é normal – interpretação. Ponto. Esta cadeira é feita de madeira – fato. Esta cadeira é normal. Interpretação. É o velho (nem tão velho assim) preceito do discordianismo: se você olha para a realidade com uma grade cultural, você vê ordem em certos lugares e desordem em outros. Se você olha com outra, você vê coisas diferentes. Garanto que os gregos (muito melhores que nós, diz o bigode) não achavam o homossexualismo “anormal” – ha, gotcha.

No reino biológico animalia também existe homossexualismo. Há, inclusive, uma excelente matéria da Superinteressante sobre o assunto. Portanto, se você considera os animais de forma geral, o homossexualismo é a exceção, não a regra. Mas veja, há vários outros seres que não realizam reprodução sexuada. E eles vieram muito antes de nós, por que esses motivos não fariam da reprodução assexuada algo mais normal que a sexuada? As minhocas são hermafroditas. Anormais, né? Essa classificação é ridícula. Ou melhor, é normal. Mas não enxergar que ela é só uma classificação qualquer, tolinha como outra qualquer, isso não é legal.

Se você não acredita em algo porque acredita que essa é uma verdade absoluta, que independe da observação humana (o que pressupõe um Deus, note), você a adota por suas conseqüências. Quais são as conseqüências de classificar os homossexuais como anormais? Digo, essa pessoa com a qual eu debati o tema diz que, tudo bem, os homossexuais são normais porque você os aceita – mas não são normais. Ora, muito bem; devemos tratá-los com respeito, mas eles não são normais.

Mas pense bem no que você está fazendo. Eu me surpreendo com a nossa capacidade inata e cega de considerar esses idealismos, e não o indivíduo. Falamos de pessoas sem rosto, é muito fácil falar delas. Mas devemos falar é das pessoas que existem, que sentem, que se importam, e que têm tanto direito de ser felizes quanto nós.

Ora, se você nasce sem uma perna. Todo mundo te trata direito, mas você é anormal. Se você debate o assunto você vê a opinião de todo mundo dessa forma: você é legal cara. Mas você é anormal. Isso é exclusivo, não inclusivo. Isso destrói a pessoa, sinceramente.

Não podemos simplesmente partir do pressuposto de que um homossexual é homossexual porque quer. Não podemos raciocinar nada se não temos uma mínima base pra apoiarmos nossos raciocínios; isso é mau-caratismo intelectual – em outras palavras, não dá pra “achar” alguma coisa e sair pensando sobre isso. Isso é bem típico dos pensadores médios brasileiros, aqueles que não são tão alienados quanto a maioria, mas ainda assim não são tão “profundos”. Eles simplesmente pegam um “achismo” e trabalham com ele. Não é assim que as coisas funcionam.

Se a ciência ainda não “sabe” porque alguém é homossexual, é necessário dar a nossa razão o benefício da dúvida. Pode ser por isto, mas pode ser por aquilo. Eu, pessoalmente, acredito que é por uma miríade de fatores – não em conjunto; apenas digo que são vários e pode ser qualquer um. Violência sexual por parte dos pais. Desilusões amorosas. Vontade de experimentar. Pré-disposição genética. Prazer. Sei lá. Realmente não me interessa o motivo, interessa é: o que eu tenho a ver com isso? Por que eu deveria me importar com gays casando? Desde que não casem comigo, eu não tenho nada a ver com a vida deles. Se eles são felizes assim, casem-se, fiquem juntos, whatever. Se a vida é curta demais pra aprender alemão, por que ela seria longa pra se preocupar em impedir que pessoas supostamente anormais casem? Isso é uma coisa pequena de se fazer, eu acho.

Se um homossexual nasceu assim, e você o classifica como anormal, você está envenenando a vida dele, sinceramente. Destruindo. Você aí, que de repente me lê com aquela cara de “eles são anormais sim”, ponha a mão na consciência. A sua vida toda você fez alguns amigos aqui e ali, seus pais têm um carinho “normal” por você, mas a todo lugar onde vai você sabe o que as outras pessoas estão pensando: anormal. E não precisa nem dizer; na verdade, depois de um certo ponto o fator “os outros” não é mais necessário. Se todo mundo fala pralguém que ela é anormal, ela acredita. E ela passa a se agredir por dentro com isso, se machuca intelectualmente ao classificar a si própria como anormal. Isso destrói a auto-estima, e se você parte, novamente, do pressuposto de que a vida é curta – e que não volta – você desperdiça uma existência que poderia ser tão boa com… Merda. É isso, desculpem a palavra, mas esse pensamentozinho de “respeito tudo bem, mas é anormal” é um pensamento de merda.

E que a pessoa que debateu comigo não leia isto. Afinal, ignotum per ignotius. Não dá pra ensinar uma coisa a alguém que acha que já sabe.

Link Permanente 5 Comentários

Bilionários

15 Abril, 2008 at 8:00 pm (Marcílio)

Warren Buffet tem uma fortuna pessoal de 62 bilhões de dólares. Carlos Slim tem 60 bilhões de dólares e Bill Gates, que está em terceiro lugar na célebre publicação da revista Forbes sobre os homens mais ricos do mundo, tem apenas 58 bilhões de dólares de fortuna pessoal, tadinho.
Entre eles e todos nós, existe a affluenza, denominação dada ao sentimento de culpa provocado pelo abismo existente entre os muito ricos e o restante da humanidade. Legal né?

Acredito que o combate à pobreza do mundo começa pelo combate à riqueza, ou seja, uma luta inútil por completo já que a humanidade caminha em busca da felicidade, uma utopia.

Link Permanente 2 Comentários

1 Ano Bissexto

6 Abril, 2008 at 4:00 pm (Crownedvic, Marcílio, Santaum)

Neste post, o Pensitivo pretende fugir um pouco da sua normalidade, fazendo uma singela homenagem ao nosso colega Rev. Peterson Cekemp e, principalmente, a Cabala Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna.

O que se esperar de uma pessoa que tem praticamente 3 livros escritos, uma Cabala com assuntos complexos, com seminovosofias diferentes e projetos estranhos como o Super Homem Discordiano? O que se esperar de uma pessoa que escreve e exterioriza explicitamente o discordianismo? E que raios é esse negócio de discordianismo?

Eu entrei na primeira vez na Cabala Discordiana Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna no dia 63 de Burocracia de 3173 YOLD. Simplesmente, foi “nonada”. Eu fiquei meio assustado, primeiramente com o título e com os detalhes da coluna. O que se pensar inicialmente de um sítio que tem um gato preguiçoso com um título chamado de Orkutcídio? Mas que nome grande! O que era “Lasagna”? Perguntei para mim mesmo: será que é lasanha em inglês? E quem seria essa tal dessa Éris? E mais, o que se esperar de um blog que não incentiva o uso de uma comunidade tão popular?

Fiquei pensando com minha namorada e amigos: como será esse autor? Um gênio que deveria ser um intelectual tiozão com a vida já definida que toma seu precioso tempo expondo particularidades intelectuais da sua vida? Uma pessoa experiente que tenta publicar seus três livros? Um sujeito que lê bastante livros – como Nietzsche – e tem um conhecimento amplo em filosofia e outros da área de humanas?

No dia 63 de burocracia de 3173 YOLD, ao ler um post do Orkutcídio intitulado Epistemologia Teatrálica do Mundo, tive que adicioná-lo ao rol dos meus 10 favoritos na época em um post da Cabala Santaumniana. Esse foi, portanto, nosso primeiro contato. Logo depois ele comentou, em um fim de semana e pela primeira vez, no Pensitivo. Com opiniões e argumentações excepcionais, Rev. Peterson Cekemp acabou se tornando um dos autores desse blog, além de escrever na Cabala Orkutcídio, Tudismocroned, Só de Solo, Discordia Brasilis (foi um dos idealizadores da Revista homônima do último blog). Contribuiu para a revisão do livro do blogueiro Ibrahim César – chamado EQM – e, acima de tudo, é discordiano.

Detalhe primordial e para deixar alguns impressionados: Rev. Peterson Cekemp tem somente 15 anos.

*****

O Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna completou no dia 21 de discórdia de 3173 YOLD 1 ano bissexto de vida, e seria mais do que justo parabenizá-lo aqui no Pensitivo em pleno 23 de discórdia à 6:66:66 (2/3 do dia). Eu, Victor e Marcílio te desejamos muita prosperidade! Parabéns.

*****

Passo a bola, finalmente, para o Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna. Fechado o ciclo !!!!! (5 exclamações)

Link Permanente 5 Comentários

Seja o que você quiser! – Se tiver dinheiro (e estupidez) suficientes.

2 Abril, 2008 at 11:42 am (Crownedvic) (, , , , , , , )

Por Crownedvic.

Uma bela mulher caminha pela rua de uma grande e limpa cidade, com chiques óculos de sol e roupas caras e modernas. Logo em seguida, sai de um restaurante um homem, igualmente polido e lustroso, pisando sobre um chão também demasiado limpo, respirando um ar puro conhecido por poucos, esbanjando sofisticação ao tirar do bolso a brilhante chave para seu brilhante carro. Ao abrir o carro, ele olha para a bela mulher, que revela na expressão da sua face um sinal de aprovação. Após essa cena, um slogan toma conta de toda a tela, dizendo algo do tipo: “Seja o que você quiser, tal carro faz a diferença”.

É esse tipo de abordagem que predomina nos comerciais. Poderia ficar aqui escrevendo inúmeros exemplos – que, por sinal, já se tornaram grandes clichês – de propagandas eivadas de narrações apoteóticas e forçosamente carismáticas, como aquelas que costumam aparecer em comerciais de bancos e universidades.

Bom, mas o que me chama atenção mesmo é que quase sempre está presente, como tema central, a idéia de que a felicidade e a liberdade (ilimitadas, por sinal) estão mais acessíveis do que nunca, já que o novo produto mágico acabou de ser lançado.

E os inspirados publicitários não se cansam de colocar imagens de família unida e feliz, com crianças felizes e radiantes brincando nos balanços de um paradisíaco jardim. Imagens de amiguinhos correndo com bóias na praia ensolarada, de crianças boazinhas encontrando estrelas-do-mar na areia, de maridos e esposas comemorando datas especiais, com presentes e todos os já conhecidos ícones que representam realização pessoal em nossa sociedade retrógada. E, para variar, ouve-se a familiar voz de “velho-maduro-pedante” narrando textos sentimentalistas que dizem frases do tipo “Corra, brinque, dance! Não adie o agora!”; “Você já pensou em desistir muitas vezes, batalhou, enfrentou medos como o de cair ao andar pela primeira vez de bicicleta, e agora enfrenta medos maiores, mas isso faz com que se amadureça…”; e por aí vai o comercial que anuncia venda de alegria e liberdade, até chegar ao ponto final no qual se diz o nome do cartão de crédito, do carro, do banco, do refrigerante ou da universidade que proporcionará tamanha plenitude espiritual.

O que mais me choca a respeito disso não é o fato de comerciais tão vulgares existirem, graças a mentes criativas igualmente vulgares e lamentáveis. O que me choca realmente é o fato de que esse tipo de propaganda funciona, e que poucas pessoas têm a capacidade de sentirem profundamente insultadas quando expostas a tão vergonhosas experiências com os sentidos.

Pelo que se pode ver, há um elo forte de ligação entre aquele tipo de comercial, com aquele tipo de abordagem, e o público-alvo, que é quase o mundo inteiro: nas televisões, nos outdoors, nas revistas e onde o capital permitir está sendo anunciado algum produto que proporciona felicidade, liberdade e, o que mais me impressiona, identidade.

Mas, afinal, que tipo de gente se identificaria e aprovaria tanto comerciais cujo tema é baseado na compensação da miséria espiritual e existencial de uma pessoa? – O público-alvo é uma massa miserável, ignorante e manipulada, carente de auto-estima, infeliz, que está quase se tornando consciente de que é escrava (aqui pelo menos há um pequeno progresso!), e que depende principalmente da mídia e da publicidade para conseguir adotar algum tipo de identidade social.

O mais interessante é quando perguntamos por que, afinal, as pessoas do mundo inteiro são tão desgraçadas, e quase ninguém sabe responder. Mas, para quem, desse contingente cego, surdo, massificado e homogêneo de zeros em forma de vida, se sente uma exceção, não é difícil compreender o motivo… Já após nascermos, somos colocados numa pequena gaiola e logo após se inicia o adestramento; e, ao aprendermos a dizer “mamãe” e “papai”, damos nosso primeiro passo na roda giratória da qual nunca sairemos. E não tarde aprendemos a correr, no jardim de infância, nas escolas, nos cursos intensivos e extensivos, sempre rodando a pequena roda giratória, dentro de uma pequena e sufocante gaiola, como um louvável Ramster.

Dedicamos por toda a vida em adquirir títulos, certificados e diplomas, pois dependemos de qualificação profissional para nos mantermos vivos de uma forma economicamente decente. A principal meta das nossas vidas (ou uma das principais) gira em torno de qualificação profissional ou busca por uma vida economicamente tolerável. Nossas histórias são determinadas em sua maior parte por imposições externas, que nos forçam a tomar decisões, fazer escolhas e exercer ações cujos fins são impessoais. E, enquanto tais obrigações aumentam com o passar dos anos, o tempo de lazer e prazer diminui.

Então, afinal, onde se pode encontrar a verdadeira decência? Pois ter uma vida apenas economicamente decente não é ter uma vida decente. Falta ainda alguma coisa… – “Ah, já sei: posso comprar um carro, um tênis, abrir uma conta naquele banco que tem aquela propaganda das criancinhas felizes; bom, acho que podemos ser felizes. E, se eu não ficar feliz hoje, posso comprar outro produto, e mais outro, e mais outro. Afinal, sou um homem contemporâneo de mente aleijada, e produtos fazem a diferença, têm que fazer…”

– Mas não para mim.

Link Permanente 4 Comentários