Seja o que você quiser! – Se tiver dinheiro (e estupidez) suficientes.

Por Crownedvic.

Uma bela mulher caminha pela rua de uma grande e limpa cidade, com chiques óculos de sol e roupas caras e modernas. Logo em seguida, sai de um restaurante um homem, igualmente polido e lustroso, pisando sobre um chão também demasiado limpo, respirando um ar puro conhecido por poucos, esbanjando sofisticação ao tirar do bolso a brilhante chave para seu brilhante carro. Ao abrir o carro, ele olha para a bela mulher, que revela na expressão da sua face um sinal de aprovação. Após essa cena, um slogan toma conta de toda a tela, dizendo algo do tipo: “Seja o que você quiser, tal carro faz a diferença”.

É esse tipo de abordagem que predomina nos comerciais. Poderia ficar aqui escrevendo inúmeros exemplos – que, por sinal, já se tornaram grandes clichês – de propagandas eivadas de narrações apoteóticas e forçosamente carismáticas, como aquelas que costumam aparecer em comerciais de bancos e universidades.

Bom, mas o que me chama atenção mesmo é que quase sempre está presente, como tema central, a idéia de que a felicidade e a liberdade (ilimitadas, por sinal) estão mais acessíveis do que nunca, já que o novo produto mágico acabou de ser lançado.

E os inspirados publicitários não se cansam de colocar imagens de família unida e feliz, com crianças felizes e radiantes brincando nos balanços de um paradisíaco jardim. Imagens de amiguinhos correndo com bóias na praia ensolarada, de crianças boazinhas encontrando estrelas-do-mar na areia, de maridos e esposas comemorando datas especiais, com presentes e todos os já conhecidos ícones que representam realização pessoal em nossa sociedade retrógada. E, para variar, ouve-se a familiar voz de “velho-maduro-pedante” narrando textos sentimentalistas que dizem frases do tipo “Corra, brinque, dance! Não adie o agora!”; “Você já pensou em desistir muitas vezes, batalhou, enfrentou medos como o de cair ao andar pela primeira vez de bicicleta, e agora enfrenta medos maiores, mas isso faz com que se amadureça…”; e por aí vai o comercial que anuncia venda de alegria e liberdade, até chegar ao ponto final no qual se diz o nome do cartão de crédito, do carro, do banco, do refrigerante ou da universidade que proporcionará tamanha plenitude espiritual.

O que mais me choca a respeito disso não é o fato de comerciais tão vulgares existirem, graças a mentes criativas igualmente vulgares e lamentáveis. O que me choca realmente é o fato de que esse tipo de propaganda funciona, e que poucas pessoas têm a capacidade de sentirem profundamente insultadas quando expostas a tão vergonhosas experiências com os sentidos.

Pelo que se pode ver, há um elo forte de ligação entre aquele tipo de comercial, com aquele tipo de abordagem, e o público-alvo, que é quase o mundo inteiro: nas televisões, nos outdoors, nas revistas e onde o capital permitir está sendo anunciado algum produto que proporciona felicidade, liberdade e, o que mais me impressiona, identidade.

Mas, afinal, que tipo de gente se identificaria e aprovaria tanto comerciais cujo tema é baseado na compensação da miséria espiritual e existencial de uma pessoa? – O público-alvo é uma massa miserável, ignorante e manipulada, carente de auto-estima, infeliz, que está quase se tornando consciente de que é escrava (aqui pelo menos há um pequeno progresso!), e que depende principalmente da mídia e da publicidade para conseguir adotar algum tipo de identidade social.

O mais interessante é quando perguntamos por que, afinal, as pessoas do mundo inteiro são tão desgraçadas, e quase ninguém sabe responder. Mas, para quem, desse contingente cego, surdo, massificado e homogêneo de zeros em forma de vida, se sente uma exceção, não é difícil compreender o motivo… Já após nascermos, somos colocados numa pequena gaiola e logo após se inicia o adestramento; e, ao aprendermos a dizer “mamãe” e “papai”, damos nosso primeiro passo na roda giratória da qual nunca sairemos. E não tarde aprendemos a correr, no jardim de infância, nas escolas, nos cursos intensivos e extensivos, sempre rodando a pequena roda giratória, dentro de uma pequena e sufocante gaiola, como um louvável Ramster.

Dedicamos por toda a vida em adquirir títulos, certificados e diplomas, pois dependemos de qualificação profissional para nos mantermos vivos de uma forma economicamente decente. A principal meta das nossas vidas (ou uma das principais) gira em torno de qualificação profissional ou busca por uma vida economicamente tolerável. Nossas histórias são determinadas em sua maior parte por imposições externas, que nos forçam a tomar decisões, fazer escolhas e exercer ações cujos fins são impessoais. E, enquanto tais obrigações aumentam com o passar dos anos, o tempo de lazer e prazer diminui.

Então, afinal, onde se pode encontrar a verdadeira decência? Pois ter uma vida apenas economicamente decente não é ter uma vida decente. Falta ainda alguma coisa… – “Ah, já sei: posso comprar um carro, um tênis, abrir uma conta naquele banco que tem aquela propaganda das criancinhas felizes; bom, acho que podemos ser felizes. E, se eu não ficar feliz hoje, posso comprar outro produto, e mais outro, e mais outro. Afinal, sou um homem contemporâneo de mente aleijada, e produtos fazem a diferença, têm que fazer…”

– Mas não para mim.

4 Comentários

  1. marcilioestefanio disse,

    3 Abril, 2008 às 5:08 pm

    Taí algo que destroi toda gente,toda essência de um ser.O dinheiro.
    Hoje em dia não dá pra saber se uma pessoa está nos repeitando pelo que somos ou pelo que temos.
    Eu bem que gostaria de poder viver de amor,mas o capitalismo não me deixa.
    Texto interessantíssimo meu caro.Parabéns demais!!!!É a primeira vez que alguém escreve exatamente como eu penso.

  2. Santaum disse,

    7 Abril, 2008 às 6:46 pm

    Obrigado Victor,

    Você mostrou explicitamente e com muita excelência o que tava tentando dizer em um post anterior.

    Sem dúvida, me identifiquei completamente com as idéias apresentadas no texto. Me identifiquei até demais. E estou com o Marcílio!

    Não sei dizer se foi o seu melhor texto até agora – porque os outros também foram todos excelentes – mas foi um texto fóda, heheeheheeh. Parabéns Victor.

    Grande abraço !!!!!

  3. crownedvic disse,

    8 Abril, 2008 às 5:15 pm

    Marcílio e Santaum, obrigado pelos comentários.
    Acho interesssante como nossos posts acabam se “cruzando” em alguns pontos. E é nessa troca que surgem mais idéias para mais posts, como uma bola de neve…

    Esse post eu escrevi imediatamente após ter visto, na televisão, uma propaganda na qual ocorre aquilo que descrevi no primeiro parágrafo, logo no início. Me senti profundamente desconfortável por ter presenciado algo tão ridículo, e ao mesmo tempo todas as palavras desse post passaram prontas diante de mim.

    Bom, o mundo é uma porcaria, mas pelo menos nos inspira para algo… Como diria meu amigo Chris Cornell: “You make me sick, I make music”… Cheers!

  4. 14 Abril, 2008 às 1:53 pm

    Excelente, excelente post!!

    E Marcílio, compartilho sua opinião. A origem de todo esse mal é o dinheiro.


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