Por Crownedvic.
Algo que me chama atenção nas disciplinas acadêmicas ligadas às ciências políticas e aos cursos que têm como principal direcionamento a análise da sociedade, como por exemplo, Ciências Sociais e História, é a predominância de uma defesa ao engajamento, à militância, a favor das minorias sociais, do “povo”, dos proletários e da igualdade a todos.
Juntamente a isso, vê-se facilmente destacar, nos alunos e professores mais entusiasmados com a idéia de “mudar o mundo”, uma histeria que não seria possível deixar de ser notada mesmo de longe.
Aquele discurso nervoso, aflito, inflamado, que em meio a gritos e suores parece até em alguns momentos ser capaz de mover montanhas ou partir o mar ao meio, é algo já bem conhecido como característica intrínseca desses inspirados “militantes”. E como há pessoas que se atraem por uma gritaria!… Nas manifestações barulhentas, parece brotar um sentimento de união, de comunhão, de libertação espiritual que encanta as massas. Todos compartilhando um momento sublime de extravasamento de tensões nervosas, gritando, cerrando os punhos, agitando bandeiras e suando os rostos, imersos numa multidão de manifestantes explodindo emoções.
Mas não é só esse vulgar frenesi (semelhante àquilo que encontramos em estádios de futebol) que une todas essas pessoas, de forma que as faça sentir uma comunidade, uma fraternidade de irmãos. Estão todos abraçando ou defendendo causas, empenhando-se em estender sua bondade e compaixão àqueles que por eles são reconhecidos como fracos e impotentes (e somente quando alguém é reconhecido como fraco e impotente que é possível tolerarem-no).
Algo que me chama muita atenção em meio a tudo isso é a inevitável primazia dada ao “bem-absoluto”, ao “bem comum”, ao “dever sagrado”, ao “imperativo categórico”, “ao valor de todos os valores”. Em outras palavras, a inevitável primazia dada à massificação.
Esses mais inflamados militantes políticos (ou simpatizantes) se justificam por meio de argumentos e princípios cuja maneira como são usados pouco se difere da forma como fanáticos religiosos utilizam seus mandamentos. Prevalece, entre esses “cidadãos conscientes e responsáveis”, a necessidade de submissão a uma consciência coletiva – e essa obediência, essa autonegação em prol de um “bem absoluto” é considerada a virtude suprema e o exemplo a ser seguido.
Isso cheira a pasto. Pessoas desse tipo estão sempre querendo convencer o outro. Por onde quer que passem, transborda de seus poros uma necessidade extrema de argumentar, de debater e justificar as próprias atitudes segundo códigos de conduta, princípios e deveres incondicionais. Segundo uma moral. Vivem presos à consciência política, para agir, escrever, palestrar e sentir, pois sem se submeterem a tal consciência, estariam agindo sob vontade própria e dessa forma estariam deixando o “dever sagrado” de lado.
Não me agrada esse perfil da maioria dos militantes (sejam eles militantes na prática ou apenas “no mundo das idéias”). Está por trás disso uma vontade de homogeneização de personalidades. E, pior do que isso, nota-se neles uma forte hostilidade para com aqueles que não se simpatizam ou convertem à defesa do bem absoluto abraçado por eles. Virar para um fanático desses e dizer: “não concordo com o que você diz, pois penso de outra forma”, já é o suficiente para que uma forte intolerância e hostilidade se revelem. Basta alguém não concordar, e imediatamente tais “soldados do bem absoluto” se põem a, nervosos, argumentar e a julgar segundo o moralismo ao qual são atados.
E por que eles se sentem tão à vontade para julgar quem adotou uma perspectiva diferente? Por que, além de se sentirem tão à vontade para isso, se consideram legitimados para julgar aqueles que não são “seus iguais”? – Porque é exatamente assim que age o rebanho. Os homens bovinos, os cordeiros, são aqueles que dissolvem suas singularidades na homogeneidade. Essa perda da individualidade é considerada por eles uma virtude, pois em nome de algo “superior”, “verdadeiro” e “absoluto”, se reduzem com orgulho à condição de meros instrumentos. Pelo fato de se considerarem mensageiros e defensores da verdade, nem sequer sentem vergonha de exporem tal posicionamento servil ao público a qualquer momento – na verdade, isso é para eles um exemplo que deve ser seguido. Desejam que, assim como eles se reduziram a meros instrumentos, “o outro” e o mundo inteiro se reduzam também a servos do “bem comum”. E, quando este “outro” não concorda em se tornar um instrumento, quando este “outro” não tem interesse em “ser útil à comunidade”, o homem bovino põe-se a bufar, a julgar e a vilipendiá-lo, com a crença de que possui todo o direito de sobrepor seus valores (supostamente absolutos) aos de outrem.
“Nós somos o bem; logo, se você não é como nós, então você é mau!” – é isso o que está nas entrelinhas do pensamento da maior parte dos “defensores da igualdade e justiça social”. Portanto, caro leitor, cuidado! Há bondade demais em toda esquina e beco deste mundo… Cuidado com os “homens bons”, eles pioram a vida!…
marcilioestefanio disse,
20 Maio, 2008 às 5:57 pm
Caro Crownedvic
Mais um excelente texto amigo.
Um dos maiores defeitos do homem em minha opinião é sentir-se dono da verdade.Aliás muitos querem e pretendem ser donos da verdade.
O homem que é tido ou considerado como dono da verdade tem o mérito de poder manipular as massas para satisfazer suas proprias aspirações e necessidades.O instinto humano é egoísta.O que todo homem quer na verdade é o seu bem próprio e como nos foi dada a habilidade da intelegência,o que fazemos é usar de artifícios e artimanhas para alcançar o bem.Não o do próximo.
Grande abraço!!!
Santaum disse,
20 Maio, 2008 às 8:56 pm
Caro Victor (Crownedvic)!
Como te falei no início desse projeto, é sempre uma grande honra ter aqui os seus textos e suas exposições, sempre fantásticas.
Bom, a gente já discutiu várias vezes sobre esse assunto. Esse texto me lembrou algumas coisas escritas por Nietzsche, como o papel da moral e a formação do rebanho. E, pensando bem, pode parecer assustador no início mas essa linha de pensamento faz bastante sentido nos nossos grupos sociais. Essa tendência de organização é legítima e provavelmente irá se perdurar por muito tempo, conforme suas explicações no texto.
O que me parece claro nisso tudo é o “ego” do ser humano e o jogo do “certo e do errado”. Oras, o que é o certo para ti não necessariamente pode ser o certo para mim. Se alguém definiu um certo tipo de moral, ele persistirá com aquilo que para ele é correto e até alguns (ou um rebanho inteiro) manifestarão a mesma postura. Agora, a tendência natural dele é refutar o que para ele não é esse certo. Ou seja, o que é contra a moral dele. O outro pode muito bem achar errado isso tudo (essa moral criada). Daí entra o jogo de “egos”, e é difícil nessa breve discussão moral quem sairá ganhando, até porque um defenderá até o fim que a sua moral é a correta. Simples, um deseja ter mais “ego” que o outro. Um não aceita a argumentação do outro e vice-versa. Para o primeiro, a sua moral é o bem e para o outro a moral dele é a correta discordando, portanto, da moral do primeiro.
E essa interpretação pode ser generalizada, como por exemplo em religião, como descreveu no seu texto.
E realmente Marcílio, alguns excedem com esse jogo falso da verdade, achando que o que ele diz, afirma e defende como a sua própria moral é a verdade absoluta, mesmo reconhecendo que o conceito de verdade na verdade não é o que verdadeiramente revela.
É o peso da democracia. Temos que ser flexíveis.
C’est la vie et trés bien Victor.
crownedvic disse,
21 Maio, 2008 às 9:44 am
Valeu, Marcílio, obrigado pelo comentário. O egoísmo, como disse, é realmente uma grande característica da maioria dos homens, e o mais interessante é mesmo o fato de ele estar presente também por trás de posturas altruístas. Dessa forma podemos perguntar: há uma distinção clara entre egoísmo e altruísmo? Penso que muitas vezes seja algo extremamente complicado de saber.
O “homem bom” costuma exibir aquela cara miserável de mártir, de alguém que se sacrificou pelo bem da humanidade, mas isso não passa de artimanha safada para seduzir o próximo e dominar. Na santidade há muita esperteza – e muita tirania.
Santaum, vi pelo seu comentário que entendeu exatamente a mensagem que eu queria transmitir. Fanatismo é a marca do mundo no qual vivemos. Há fanáticos por todos os lados. O rebanho é a regra, a singularidade é a singularidade…
Esse post partiu de uma recente e desagradável discussão que tive com uma louca fanática pelo “bem comum”. Ela ficou horas me julgando, pelo fato de eu não ser um instrumento do bem, e essas coisas. O interessante é que enquanto eu não dava a mínima para convencê-la de qualquer coisa, ela gritava, nervosa, defendendo seu ponto de vista e a todo custo querendo que eu concordasse que ela é que sabe o que é a verdade. E o que eu fiz durante esse “debate”? – Fiquei rindo, dizendo bobagens e com isso deixei ela mais irritada ainda. É cada uma!…
crownedvic disse,
21 Maio, 2008 às 11:42 am
Oi, pessoal! Estava há pouco pesquisando sobre o fanatismo, e me deparei com um texto brilhante de um filósofo de Campinas que até então por mim era desconhecido. Leiam esse texto de Olavo de Carvalho: http://www.olavodecarvalho.org/semana/11212002jt.htm
Rev. Peterson Cekemp disse,
28 Maio, 2008 às 10:25 am
Cronedvic, eeexcelente texto!!!!!
Isis Nóbile Diniz disse,
15 Julho, 2008 às 3:52 pm
Pois é… E quando “ajudamos o próximo” nos ajudamos também.
Mais um garimpado « Universo Crônico disse,
4 Setembro, 2008 às 11:30 am
[...] Sobre os Soldadinhos da Verdade e da Justiça [...]
santaum disse,
17 Setembro, 2008 às 12:20 pm
Essa é a tendência Isis…..