Da Preocupação do Próximo

Talvez seja unânime a aceitação de que todos os indivíduos sejam diferentes. A própria definição de indivíduo já o torna único por si só, apesar da definição dessa palavra na biologia se referir a um organismo, o que de certa forma implica praticamente na mesma abordagem unitária.

Como somos preocupados com o próximo, hã? Às vezes nos doamos tanto para o próximo que até esquecemos de nós mesmos. Abrimos mão de nossa individualidade para auxiliar a individualidade dos outros. Não estou propondo aqui o individualismo muito menos o “ajudar ao próximo”, mas sim a maneira como um se preocupa com o outro em excesso no sentido da comunicação e da fala. O modo como um enxerga o mundo e como o outro enxerga da maneira dele.

Naturalmente, poderá haver conflito de idéias entre esses dois indivíduos uma vez que cada indivíduo tem a sua maneira de pensar, apesar de que ambos podem apresentar semelhanças de idéias ou até mesmo de comportamento.

Quando nos deparamos com uma pequena diferença de ponto de vista e uma pessoa gosta muito da outra, uma tenta convencer a outra de que aquilo que prega é o correto e que aquilo deve ser posto em prática. São os conselhos, em muitos casos, hã? Talvez pode ser a alegação de que o certo para um pode ser o errado para o outro ou vice-versa? Eu posso afimar isso como um certo para mim apesar de admitir que esse certo para mim pode ser o errado para o outro. Intuitivamente, aquele que acha certo aquilo que defende é em muitos casos o certo pra ele definitivo e pronto.

O que eu quero dizer com isso? Não é comum em reuniões familiares ou festas de formatura de faculdade conselhos de amigos ou parentes para o que realmente deve ser o certo a ser seguido no ponto de vista deles? Não é comum ouvir nos discursos algo como “Se eu fosse você”? Tá certo (ou errado) que também o indivíduo não pode ser egocêntrico e que tudo aquilo que ele pensa e admite seja um certo imutável. Pode ser para ele, e de fato isso é certo para ele. E também que alguns conselhos são para o bem daquele indivíduo no ponto de vista do outro indivíduo. Mas temos que tomar cuidado com os excessos. Afinal, como é comum um indivíduo aconselhar o outro sendo que não consegue aconselhar a si mesmo, hã?

É justamente esse o ponto. A conclusão disso é que existem alguns indivíduos que aconselham outros indivíduos sem saber detalhadamente o que se passa na cabeça desses últimos. Uns não estão inteirados com a situação dos outros. Falta comunicação. O indivíduo é realmente único biologicamente e até mesmo fisicamente, mas ele depende do outro para sobreviver e para ser um ser humano. O indivíduo depende do coletivo, e inclusive essa capacidade de linguagem auxiliou o desenvolvimento da nossa própria espécie. Para aprimorar a comunicação entre os dois pontos de vista diferentes, é necessário primeiramente que um ponto de vista respeite o outro e consequentemente um complemente o outro seguindo essa mesma ótica.

Talvez com isso aquele tio que acha que é bem sucedido no ponto de vista dele seja menos influente no crescimento dos sobrinhos, ou o colega de faculdade que acha que tá bem no ponto de vista dele respeite mais a carreira do outro e admire a opção que este escolheu. Seria, portanto, uma comunicação sem palpites desnecessários, conselhos inúteis para o outro e consequentemente uma relação mais respeitosa e de aprendizado.

Grande abraço a todos.

4 Comentários

  1. crownedvic disse,

    21 Junho, 2008 às 11:48 am

    Santaum, você tocou num ponto que considero muito interessante: até onde deve ir o limite para a individualidade? Para o respeito ao espaço do “outro”? E até onde deve ir a tolerância, e até onde deve ir o relativismo?

    Penso que os dois extremos sejam ruins. Considerar-se o portador da verdade é ruim, assim como dizer “sim” a tudo também é. E talvez uma das grandes dificuldades que pessoas habituadas a ter uma vida mais reflexiva enfrentam é saber até que ponto deve ser mantida a consideração pelo “outro” e a partir de que ponto esse “outro” deve ser desconsiderado e ignorado.

    Isso para mim sempre foi um dilema. Principalmente porque não poderia nunca considerar a interpretação que faço acerca das pessoas algo absoluto. Mas preciso me agarrar à minha interpretação de forma firme, pois se trata das vontades que me conduzem. Se amanhã houver outras vontades, passarei a atender a elas.

    Mas, levando em conta o contexto sócio-cultural no qual estamos inseridos, encontrei para mim a posição que mais considero adequada: dar ouvidos a uma parcela mínima de pessoas, e ignorar o resto.

    Sei que isso lembra a filosofia do bigodudo (e lembra mesmo), mas veja só: vivemos num mundo no qual a grande maioria não sabe o que é refletir. A “razão” para elas somente vai até onde as necessidades práticas do dia-a-dia a exigem. Não há exercício reflexivo no mundo atual – o que há é uma razão meramente instrumental, orientada apenas para fins práticos. E isso está incluído também em círculos de intelectuais e na academia (não pensemos que a alienação e falta de identidade e subjetividade se restringem apenas às donas-de-casa acomodadas). Essa é a regra, e por isso, em regra, teremos sempre que ouvir palpites, conselhos, imposições e “se eu fosse vocês” insignificantes e sem valor, superficiais.

    Não dou ouvidos quando alguém vira para mim e aplica um “se eu foce você” na minha cara. Claro que dou ouvidos a uma ou outra pessoa nesse tipo de situação, mas isso é rara exceção.

    Concordo com você quando diz que as pessoas devem falar somente o necessário – mas infelizmente a grande massa não sabe discernir o que é e o que não é necessário. Para os homens banais, muita coisa é necessária. Coisa até demais. Faustão é necessário, Big Brother é necessário, discutir sobre Isabela Nardoni é necessário, seguir o rastro do rebanho é necessário.

    Por isso não tenho a mínima compaixão para com pessoas que só dizem besteira, porque elas pensam besteira e são besteira, e nada mais que isso. Sei que tentar dialogar com esse tipo de gente é perda de tempo. Não vejo vantagem em me dissolver nisso. Pra variar, como diz o nosso amiguinho Zaratustra (mais ou menos nestas palavras): Fuja da praça pública! Não é função sua ser enxota-moscas!

  2. Santaum disse,

    21 Junho, 2008 às 6:26 pm

    Crownedvic, o bom do Nada Pensitivo! é que os comentários são sempre melhores que os posts.

    Você entendeu muito bem o que tentei escrever abordando o contexto geral no primeiro parágrafo. E mais, com relação ao resto penso da mesma maneira que você. Este texto foi mais um desabafo para algumas situações que acontecem em excesso no dia-a-dia.

    Grande abraço!!!!!

  3. crownedvic disse,

    22 Junho, 2008 às 8:51 pm

    É, Santaum, isso acontece em excesso no dia-a-dia mesmo. E sabe de uma coisa? Cheguei a um ponto no qual não vejo sentido algum em discutir nesse tipo de situação. Se alguém começa a impor a mim a ignorância e julgamentos superficiais e pobres, o que eu poderia fazer além de rir ou simplesmente pedir para que aquele tipo de gente cale a boca?

    Freqüentemente, esse tipo de desafiadores que, a todo custo, querem convencer que estão certos (como se estivéssemos numa batalha importantíssima na qual, como em Highlander, “só pode haver um” ) soltam aquele velho jargão “quem cala consente”, quando eu simplesmente digo que não perderei meu tempo discutindo baboseiras.

    Bem, isso é um jargão deles, não meu. Talvez meu jargão, no lugar daquele, seria “quem não faz parte do zoológico, não relincha e nem grunhe”. Enfim, é isso aí. Sei que esse tipo de atitude é bem arrogante e tal, mas convenhamos – eles mereçem!… Abraços.

  4. 27 Junho, 2008 às 8:37 am

    [...] Beavis and Butt-head: Há no Nada Pensitivo! um texto parecido com [...]


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