A riqueza está na contradição. Ou não. Logo, está sim.

8 Outubro, 2008 at 10:27 pm (Crownedvic) (, , , , , , )

Conforme muitos já saibam, enquanto alguns apenas desconfiem, e muitos infelizes sequer já tenham pensado a respeito, a civilização na qual vivemos é marcada por uma primazia dada à ordem, à coerência, à harmonia, às verdades absolutas, à “linha reta” que crê poder estacionar-se num ponto derradeiro e perfeito, como se fosse possível encontrar a última palavra sobre algum assunto. A crença na possibilidade de serem encontradas verdades absolutas sobre diversos problemas e questões é uma grande marca do nosso mundo contemporâneo.

Como se fosse possível descobrir “a verdade absoluta”, nossa cultura nos propõe a confrontar várias idéias com a esperança de que, no final, toda a diversidade de interpretações consideradas falsas sejam derrotadas pelas poucas verdadeiras. E isso, conforme me parece, é visto como um benefício…

O grande problema é que uma cultura desenvolvida nessa direção acarreta na mente das pessoas a atrofia. Pois, uma pessoa que não ousa experimentar vários pontos-de-vista, é uma pessoa atrofiada. É alguém que nasceu num determinado contexto social e não se deu ao trabalho de questionar a tradição e a educação que recebeu e que se transformaram em hábitos. Sem o questionamento, torna-se bem difícil propor a si mesmo um enriquecimento interior. É necessário que experiências múltiplas com o sentir e o pensar sejam praticadas, pois é assim que se consegue ampliar o campo de visão e desenvolver a capacidade de refletir de forma mais rica, profunda e complexa. E, para isso, é necessário constantemente se contradizer.

A contradição, tão abominada pelo modelo estabelecido e por importantes mitos da nossa história, traz a insegurança e o medo, pois deixa o indivíduo que se contradiz perdido num labirinto escuro. A vida se transforma numa guerra contra tudo e contra si mesmo. E isso é horrível e injustificável, pois ser humano nenhum consegue viver sem padrões. Vivemos em culturas porque não vivemos no caos. O homem é essencialmente um ser cultural. Sem que demos forma ao caos do qual fazemos parte, ficamos sem definição e sem sentido para existir.

Ou seja, estamos precisando de contradições. Precisamos de mais caos em nossas vidas. E que se dane a tradição! Contradições são a chave para o aperfeiçoamento espiritual e para aprendermos a não levar a vida toda centrada numa ou em outras convicções. A vida é dinâmica, o tempo passa, o mundo gira; conservar interpretações que podem até ter sido necessárias dias atrás, mas que agora não são, é se aprisionar. E é aí que entram os benefícios de se dar ao direito de contradizer freqüentemente. Afinal, se não há verdades absolutas, que importa se o que pensamos hoje não seja mais necessário amanhã? E qual o problema em jogarmos fora todas as velhas “verdades”, às quais nos simpatizávamos, a partir do momento em que notamos que já nos amadurecemos e algo novo deve vir tomar o lugar delas?

E é exatamente nesse exercício de confrontar experiências múltiplas e, muitas vezes, divergentes ao extremo, que aprendemos a olhar para tudo com uma certa desconfiança, com um certo ar de “bem, isso poderia muito bem ser interpretado de outras formas além da qual estou interpretando”. O mundo passa a ser visto como possibilidades de perspectivas múltiplas. E aprender a não se agarrar, como religiosos fanáticos se agarram a dogmas, a tal ou qual perspectiva, é um exercício que pode e deve ser aperfeiçoado.

Ou seja, como uma das possíveis conseqüências dessa prática da contradição, talvez a mais deplorável seja o niilismo. Sinto pena de quem não seja capaz de perceber que, em pleno século XXI, no qual várias teorias de grandes pensadores consagrados já foram provadas, há inúmeras verdades já reconhecidas como absolutas e que dispensam qualquer questionamento. E, se o indivíduo adquire o hábito de se contradizer constantemente, ele na verdade se torna um camaleão, um ser sem forma própria ou definição, como um rio que apenas se molda à forma da superfície na qual passa. E nisso podemos incluir a perda de sentido da vida, pois esta se reduziu a uma desconfiança perpétua em relação a tudo, de forma que nenhum prazer alcançado pareça mais consistente. Toda a vida parece vazia e impalpável como um nevoeiro que a cada instante se dissipa mais. O indivíduo que se contradiz demais corre o risco de acabar se desembocando nesse niilismo, o que significa que sua “forma” se desmanchou e tudo o que restou, após tão desastroso processo, foi falta de definição, de personalidade, em detrimento da “metamorfose ambulante”, do “estar em todos os lugares e em nenhum”. Ou seja, em troca de nada.

Só podemos concluir que a contradição é algo perigosíssimo e deplorável, pois acaba com a graça e o sentido de viver. Pelo fato de pôr por água abaixo qualquer convicção ou verdade absoluta (inclusive aquelas que já foram provadas pela ciência e pela bíblia), o descrente joga no lixo aquilo que garantiria a ele uma razão para existir. Sem fé em mais nada, sem acreditar em algo, como sobreviver? – Bem, sobreviver é até possível, mas em condições de miséria existencial que pessoas boas não desejariam nem ao pior inimigo. Conforme já sabemos, o homem precisa de forma, de padrões rígidos para seguir, de segurança, pois sua constituição orgânica não suporta a ausência de tanto lixo internalizado e transformado em automatismos reproduzidos habitualmente.

E é aí que entra a importância de nos despirmos por completo e darmos um belo mergulho na contradição. E, acima de tudo, de percebermos que o niilismo é lindo. Pois o niilismo nos liberta. Contradição é a chave. Niilismo é a ponte. Sorriso completo e livre é o ponto de chegada (que também sempre será um ponto de partida). É dessa forma que sepultamos a cada dia o cadáver que fomos e varremos o horizonte abrindo alas aos “novos eus” necessários.

O bombardeio de informações diversas no mundo atual, como conseqüência da globalização e do fato de a internet estar cada vez mais acessível, contribui para que o perfil do homem contemporâneo seja o de um homem desenraizado. Com tanta informação indo e vindo, o homem atual se familiariza com tamanha diversidade cultural que seu pequeno mundinho perde força. Inúmeras outras possibilidades passam a ser conhecidas, e isso contribui para que a contradição tome lugar destacável em sua turbulenta vida. E isso me preocupa muito, inclusive em relação às pessoas mais jovens, pois o que será das nossas verdades, nossas tão queridas verdades, num mundo que deixa claro, cada vez mais, que não há verdade alguma?

A contradição não pode continuar. Ou seja, pode sim! Logo…

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Sobre a aleatoriedade

2 Outubro, 2008 at 12:43 pm (Darto") (, , , , , , , , )

Até que ponto podemos considerá-la existente?

Quando não há padrão, então há aleatoriedade, há o caos. Nenhuma lei é respeitada.

Quando o observador olha uma situação e não vê relações entre os acontecimentos, então declara que ali há caos. Pode declarar erroneamente, se não foi capaz de perceber o padrão existente.

Então você executa uma playlist no seu Windows Media Player, numa “ordem” aleatória[meio contraditório, mas vá lá]. Gostaria eu de saber qual gênio discordiano que elaborou um algoritmo com um número finito de etapas capaz de randomizar o resultado, escolhendo uma música de forma completamente erisiana. Pensei, pensei, e não saí do lugar: continuo achando que há um padrão ali.

Não é difícil de pensar que tudo segue algum padrão. Este padrão pode envolver milhões de incógnitas que variam entre si, tornando a visualização das relações muito complicada para nós; isso não quer dizer que o padrão não exista.

E então a abrangência aparece. Se existe um padrão em tudo, então tudo está conectado. Logo, o efeito borboleta conecta tudo em uma só rodada. Então pode[deve] existir uma Teoria de Tudo. E qualquer assunto, qualquer devaneio e qualquer conhecimento que seja é universal e não pode ser desprezado.

Não é como se o determinismo se tornasse totalmente verdadeiro. Você segue um padrão de ações, mas existem as variações das suas escolhas, possibilitando um quase infinito de universos paralelos. Penso que toda decisão tomada ou não, é tomada ou não de modo racional. Seu cérebro recebe dados, processa e reage logicamente. “Mas eu agi com a emoção, e não com a razão!”; a emoção tem sua razão, embora não percebamos facilmente. “Mas ele é louco, e reagiu imprevisivelmente!”; a loucura tem sua lógica, e quem é louco vê. Fica difícil perceber se interpretarmos “razão” como o dicionário faz. Lembrando que a razão de cada um é diferente, e se fosse possível apresentar duas situações semelhantes em todas as suas variáveis para duas pessoas diferentes, então elas reagiriam de modo lógico, mas diferente; se fosse possível apresentar duas situações semelhantes a duas pessoas semelhantes[que passaram pelas mesmas experiências e que têm a mesma disposição biológica(ou seja, a mesma pessoa, o mesmo instante reelaborado){impossível}] então ela reagiria logicamente, de modo igual.

Nos humanos: toda reação racional carrega sua emoção, como toda reação emocional carrega sua razão. Somos resultado do universo em que vivemos: somos múltiplas incógnitas no mesmo momento, e qualquer abordagem que leve em conta menos do que infinitas variáveis será incorreta. Como nossa comunicação não levou infinitas variáveis em conta quando foi elaborada, então ela é imprecisa; não podemos nos ater a ela, somente. Qualquer abordagem que leve um número maior de incógnitas em conta do que foram levadas na elaboração da linguagem causará uma dificuldade de expressão. É como tentar colocar 3 dimensões em 2: você perde dados. Logo, meu texto saiu confuso, mais uma vez[tentando me justificar, mas não sou isento de culpa, claro. não sei utilizar nosso idioma em toda a sua plenitude]. Creio que você, leitor, completará as lacunas com seu raciocínio[diferente do meu], e isso resultará em novos sentidos a cada leitura. Aí estão as variáveis mudando tudo, mais uma vez.

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