A reafirmação

15 Novembro, 2008 at 6:39 pm (Darto") (, , , , , , , , , , , )

Existem infinitas possibilidades, ou quase isso. Por que a sociedade se apega tanto à rotina? Por que, em meio a tantas variações, insistimos em recriar a mesma realidade? Baseado nessa questão levantada no enviesado filme-documentário “Quem Somos Nós?”["What the Bleep Do We Know?"], comecei a desenvolver uma sucessão de questionamentos para ver se chegava a uma conclusão. O resultado foi o esperado.

Pseudo-prólogo: O cérebro humano é capaz de ver um padrão quando uma situação experimental tende a se repetir, dentro de um limite de variações. Se a tendência é mudança, porém, ele começa a deparar-se com dificuldades. Se um número razoável de possibilidades se torna “realidade”, não há escapatória: o cérebro determina que o ‘padrão’ é o caos, o impadronizável. Isso quer dizer: se somos incapazes de analisar todas as relações, não assumimos que somos limitados; declaramos que é impossível para todo e qualquer ser existente completar as brechas que deixamos. Declaramos o caos e a aleatoriedade como intrínsecos à situação, e nos isentamos de culpa, para o bem do nosso ego.

Historicamente, vejo alguns acontecimentos como o resultado de uma tentativa de manter as coisas sobre controle. Nunca sei, porém, de quem foi a tentativa, mas isso não vem ao caso. E como se controla algo imprevisível? Muito arriscado, difícil…..enfim, olhando por um certo prisma, pode parecer que alguns poderosos chefões queiram manter a situação repetitiva. Para controlar alguns, basta criar evangelhos e isso será base suficiente para manter o rebanho sem questionamentos inconvenientes. Outros, porém, devem ser desfocados, o que não deve ser difícil, tendo em vista que ninguém nos diz qual é o foco real quando nascemos. Ninguém conhece, realmente, o objetivo. Cada qual com o seu, e que cada um escolha sua rotina para atingi-lo.

Talvez seja por isso que a sociedade diga que mentir é feio. Quando a pessoa é sincera, sabe-se cada passo que vai tomar. Fica mais fácil subjugá-la. Talvez a maioria minta porque percebeu isso. Se ser sincero é ser controlado, então me controlaram. Eu não sei mentir, fico sem jeito, não treinei para isso. Claro que uma pessoa sincera e forte “ganha” do mesmo jeito. Mas já me convenci de que não preciso e nem vou ganhar em todas as vezes. Não sei por que obedeço a uma moral, uma honra, uma coisa tão etérea. Só sei que não consigo mudar. Não importa quanta razão eu tente usar para seguir caminho diferente; não consigo. Completamente dominado, e consciente disso.

Não, só isso não explica. Pode até ser muito[olhando por um lado], mas não chega nem perto do terço da terça parte. Há muita insegurança. O eterno medo de não existir mais guia, mesmo que inconscientemente, a ação e reação de todos. Se você fez alguma coisa e ainda está por aqui[não morreu não se tornou "nada"], então fez “certo”. Se fizer de novo, não haverá, possivelmente, nenhuma consequência sobrepujadora. Você ainda está no controle. Se agiu de um modo que, além disso, permitisse seu bem-estar, então aí está a resolução de todos os problemas passados, presentes e futuros[principalmente]. Você já sabe a ação que tomará amanhã, e melhor ainda: sabe o resultado que esta trará.

A insegurança também carrega a necessidade de reafirmar sua suposta posição em todas as oportunidades. Se foi o melhor aluno semestre passado, faz tudo para continuar no posto. Se foi o mais malandro dos pivetes, então, nem se fala. Vai chorar copiosamente se algo mudar. Se é o chefe da empresa, tentará manter a figura inabalável para inspirar colaboradores. Se é o sem graça mediano, conformou-se com isso e qualquer tentativa de mudança requerirá muito esforço. Além de tudo, a culpa não é sua. É o destino que não dá oportunidades, hã?

Mas nem tudo é assim. Pessoas têm saudade de seu passado. Da época em que eram livres, espontâneas, diferentes, felizes sem saber. Estranho. Na verdade, os jovens de antigamente não eram mais obedientes, os políticos não eram mais confiáveis e os produtos não eram mais baratos[como está no vídeo "Sun Screen"]. No máximo a pessoa ainda era inocente. No máximo. A nostalgia é saudade da rotina que foi fixa até o ‘final’, seguida de um breve período de transição[duvidoso e incômodo] até ser substituída por outra rotina. Se a pessoa pudesse, teria continuado na primeira rotina. Acontece que a rotina “maior”, do planeta, é mais importante que a particular. Se o chefe morreu, outro deverá tomar seu lugar. As possibilidades de rotina também são infinitas, e vemos algumas pequenas variações acontecendo, de vez em quando. Nada muito fora do costume. 

O sentimento de dúvida pura é aterrorizante. Não, não aquela dúvida que você sabe que poderá sanar: é aquele pensamento de “E agora, o que faço? Não tenho idéia! O que acontecerá? Qual o sentido disso? Por que estou aqui?”. Escrevi isso pensando numa situação cotidiana mas, para minha surpresa, esses questionamentos se encaixam bem, também, se aplicados às dúvidas puramente existenciais, aquelas que ninguém sabe responder[o LHC ainda não respondeu até esse momento, tampouco fez surgir um buraco negro que acabaria com todas as dúvidas. Não por esclarecimento, no último caso, mas por erradicação dos humanos]. Ninguém sabe responder, e a mitologia[antiga e atual] fantasia nas brechas, criando quadros que desviam a atenção do foco real[desconhecido].

Ao mesmo tempo que as pessoas querem o conhecido, nunca estão satisfeitas com ele. Ninguém permanece se sentindo realizado por muito tempo. Se conseguiu o que quis, logo vê outro quesito para continuar na busca. Ninguém está feliz: já foi ou se esforça para ser. Nos conformamos com o esforço cotidiano, então por estarmos em busca de algo melhor. Assim como a religião justifica o sofrimento pela busca do paraíso, ateus justificam suas repetições com a busca por um conforto um pouco maior. Conhecimento pode confortar alguns, assim como o dinheiro serve para outros, e para aquele basta sexo, ou comida, respeito, status, amizades, paz espiritual, etc.

Escolhemos o caminho pelas chances de chegar no final dele: uma pessoa pode achar que ganhar na loteria seria o jeito de ficar rico; a outra opta por cursar medicina, mesmo não gostando do curso. No final das contas, o que justifica a rotina[que é o caminho teoricamente mais seguro para um fim] é o desejo da mudança. Eis a ironia motriz do universo, dando as caras mais uma vez.

Acho, então, que o desejo de repetição dos controladores das marionetes não explica, por si só, a acomodação, mas contribui para ela. Acho, também, que o desejo da rotina pelas marionetes não justifica, isoladamente, a repetição, mas também faz sua parte na equação. Vale lembrar que quem controla as marionetes vive em função delas, e também é controlado em algum momento[ou em todos]. Todos estão no mesmo barco[aquele que abrange tudo], e cada um tem sua parcela de responsabilidade pelo caminho escolhido. A responsabilidade é maior ainda quando o assunto é a linha de chegada: qualquer alteração de 1″ no início do caminho altera bruscamente o final dele. Butterflies and Hurricanes would explain better.

Pseudo-resumo: Se você é engenheiro hoje, trabalhará com engenharia amanhã porque, seguramente, saberá desenvolver seu trabalho sem maiores impecilhos. Isso, seguramente, te trará dinheiro que, por sua vez, te trará conforto[seguramente]. [Algumas vezes você não se importa com a segurança dos outros, e faz armas porque isso dá dinheiro. Se não é você que puxa o gatilho, tudo bem. Convenceu-se de que matar indiretamente não é matar. Muitas variáveis, muita aleatoriedade, não dá pra te culpar. É culpa da "máquina".] Trabalhar com medicina traria dinheiro, mas você não superaria os empecilhos. Não foi treinado["rotineirizado"] para isso. E se você matar alguém? Certamente não conseguiria viver com a culpa.

Seguramente=mais de 50% de probabilidade

PS de integral definida de 0 a mais infinito de e(^^x)dx: esse post ficou muito desmontado. Digo isso porque poderia mudar a ordem dos blocos e o texto não ficaria mais sem sentido do que já está. É o resultado do sono e de não ter uma linha fixa. Tudo parece dizer respeito ao assunto, e não hesito em digitar o que aparece. Claro que não consigo digitar todas as pontes que fiz entre os assuntos. Não perdi muito, já que minhas pontes não costumam fazer muito sentido. É difícil chegar a uma conclusão quando as perguntas mudam no meio do caminho; de qualquer modo, o resultado foi o esperado: para mim, não existe uma única conclusão, como também não parece existir uma única conclusão correta.

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Competição e Desafios

12 Novembro, 2008 at 9:54 am (Santaum) (, , , , , , , , )

Na época do vestibular, resta aquela dúvida primordial: qual será a minha profissão? Resta ao jovem decidir qual é a mais lucrativa, que dá a ele um melhor retorno financeiro e que permite a ele construir uma bela democracia. É o grande passo para a primeira derrota (ou não), é o momento em que ele percebe que está competindo ferozmente com várias outras pessoas. Não necessariamente precisa escolher, mesmo tão jovem, a profissão que deseja, mas aquela que dá oportunidades e um retorno financeiro. Às vezes, é até mais interessante o jovem escolher um vestibular competitivo (com vários candidatos por vaga em cursos populares) para que ele tenha um determinado status quando for aprovado. É um grande desafio para esse jovem, que não quer nada além de ganhar dinheiro e ser reconhecido pelos amigos e principalmente pela família que fez um grande investimento financeiro na sua educação e, agora, exige um retorno. Além disso, os pais adorariam dizer aos amigos adultos dos grupos adultos sociais que o filho passou em um grande curso em uma faculdade de nome.

O jovem vê aquela menina e fica maravilhado. Que menina linda! Como ela é linda! Depois ele se toca que somente ele acha ela linda quando conversa com seus amigos de colegial. Fica até com vergonha por causa disso. Os seus amigos acham aquela outra. Praticamente todos acham aquela outra. A opinião dos seus amigos é tão importante e convincente que ele acaba cedendo e partindo para essa “outra” menina, digamos, a “menina popular” do colegial. Ela tem algumas características externas que chamam a atenção dos meninos e foge da doçura, simplicidade, carinho e amizade da que acha linda. Mas por que isso? A linda, depois da conversa com os amigos, ficou feia. Ele deseja, neste momento, é aquela que todos desejam e ponto final. É esse agora o seu objetivo, conquistar essa garota chata que, no entanto, tem uma beleza externa inquestionável. E faz de tudo pra vencer e dizer para os seus amigos que ficou com ela. É a mais verdadeira sentença da vitória.

Ela agora está se formando e precisa decidir o que pretende fazer. “Ou trabalho pra ganhar milhares de reais em uma cidade pequena ou faço a minha residência?” Ela decide fazer a sua residência no lugar mais competitivo. Ela, na verdade, queria uma determinada área mas, neste momento, optou por outra pelo fato de ser a mais competitiva e, sobretudo, a que mais dá dinheiro. Ainda, na melhor residência do país. Ela quer, evidentemente, ouvir a longo prazo os seus colegas de faculdade parabenizando-a (“poxa, você é inteligente, meus parabéns!”), dizendo-a que passou em uma residência difícil. E, é claro, gostaria de chegar na reunião dos dez anos de formatura com um belo carro com seus filhos e um maridão à altura (intelectualmente e financeiramente falando). Para ela isso é tudo, dizer aos outros que está bem, que venceu. A vida é cheia de desafios e para ela essa seria uma vitória e tanto: a do reconhecimento dos amigos e colegas de faculdade.

O irmão dela também se forma em uma profissão diferente e mais direcionada a empresas. Ele deseja trabalhar em uma multinacional, evidentemente. Além de ser a que dá mais dinheiro, oferece uma melhor carreira, além da possibilidade de trabalhar no exterior. Quem dos seus colegas não deseja passar um mês na Coréia ou viver dois anos na Inglaterra? Além disso, os processos seletivos são corporativos e longos e, para ele, não tem nada melhor do que superar esse desafio. Ele pode passar e, além disso, vai mandar um e-mail para os colegas do yahoo! grupos dizendo que conseguiu tal feito. Todos irão parabenizá-lo e dizer que ele teve grande capacidade e esforço para conseguir o que queria. Mas era isso realmente que ele queria? Era seu sonho fazer essa faculdade? Ou simplesmente a fuga de um sonho e a busca de competitividade para se superar perante os outros e, a posteriori, um reconhecimento desses mesmos? Onde entra o sonho? O seu desejo pessoal? Para ele não existe isso. O que interessa a ele é competir e superar grandes desafios além, é claro, de ter uma boa condição financeira aliada a um status social pelo seu cargo na empresa. Deseja, como sua irmã, chegar na festa dos dez anos de formatura e ostentar aos outros o seu cargo e a sua posição hierárquica na empresa. Nada mais do que isso. A sua felicidade é ver os outros dizendo a ele que está bem e de parabéns.

E assim pendemos e tendemos, recentemente, a perpetuar: para uma vida a partir da opinião dos outros.

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A Polícia

1 Novembro, 2008 at 8:44 am (Peterson Espaçoporto) (, , )

Num post no Tudismocroned lancei uma pergunta que serviu como laboratório, e agora acho que a idéia já pode ser transmitida – pode ser, hum, “oficializada”.

Acho que, depois de um tempo de debate sobre a idéia “Contra a Punição“, o único argumento ao qual uma pessoa costuma agarrar-se é o determinismo de dizer que os homens são maus por natureza e se não houver nada influenciando de forma estrita em seu comportamento eles vão se matar, se destruir, por aí.

Bom, verdades à parte se considerássemos o dinheiro, pretendo com esse texto demonstrar que, na verdade, a falta de lei seria muito mais eficaz para combater o “crime” do que o modelo que temos hoje.

A questão é a seguinte: O Estado detém o monopólio da força, digamos assim. Ele é quem toma para si o poder “militar” para nos proteger. Esse desequiíbrio de forças, entretanto, é intrinsecamente desbalanceado; o mínimo para garantir que isso daria certo seria 50/50 – metade “policiais” e metade cidadãos comuns, mas não é isso que acontece. Da maior parte da população foi tirada a força e a uma minoria (mal paga ainda, mas não é sobre isso que quero falar) ela foi concedida.

Qual é o problema disso? Fragilidade. Você fragiliza, assim, a população. Se você é um “bandido”, você sabe quem pode ser um “alvo” e você sabe quem é que vai te impedir de roubar (por exemplo) o alvo. Portanto você pode contornar a força de proteção. Porque você a conhece, você sabe como ela é, como funciona. Você pode esperar por um momento em que essas forças não estejam presentes. Você pode suborná-los (tá bom, usando outro exemplo porque subornar pra roubar é foda). Enfim, se você conhece esse sistema defensivo então você pode descobrir uma forma de se livrar dele.

Mas imagine então um lugar sem policiais… “Que terrível”, diriam alguns. O homem faria tudo que quer, blablabla. ERRADO. Muito pelo contrário.

Isso porque enquanto não há lei que incrimine o “bandido”, o que parece lhe dar liberdade, tampouco existem leis que o protejam. Se não há leis, não há leis. Isso significa que se eu quisesse roubar outra pessoa, eu não teria como adivinhar que essa pessoa não tivesse o mesmo “poder” que um policial – ela poderia usar a força tanto quanto eu. Ou seja, se não há diferenças entre poder, não existem com tanta freqüência esses ataques. Tudo “trava”, entende? Trava é uma palavra que me vem facilmente à mente. Alguém quer fazer algo mas se lembra que o outro também pode, então deixa pra lá…

Mas é claro que a distribuição política do poder não é válida no mesmo sentido com a realidade. Para os olhos de um estuprador, uma mulher magricela passeando realmente tem menos poder que aquela que acabou de sair da academia… Tem menos poder pra reagir a qualquer coisa, e assim pode-se dizer que o equilíbrio real de poderes nunca existirá. Quem então garantiria, não a integridade, como faz hoje a polícia, mas sim o equilíbrio – quem garantiria esse equilíbrio?

É aqui que chego onde quero chegar: por essas diferenças naturais, para aproximá-las das diferenças políticas (0), seria interessante termos um tipo de força policial oculta. Eles são policiais, mas nada os identifica como tal. Eles viajam para uma outra cidade onde ninguém os conheça e fingem ter uma profissão. Na verdade saem pra trabalhar e ficam… Andando por aí. Como mais alguém na multidão. Eles agiriam nos casos em que e vê que há “perturbação” na única lei da sociedade anti-lei: a liberdade. Se alguém estivesse sendo evidentemente forçado a fazer algo, então algo teria que ser feito.

Aí, então, mal-intencionados não apenas não saberiam quem é um policial. Aos olhos de um estuprador: vou atacar aquela mulher, mas… Ela pode ser uma policial.

Além disso, é necessário que haja alguém “armado” de verdade no grupo que se sujeita a essa regra. Isso porque se o senso comum dissesse “qualquer um pode te fazer qualquer coisa, então não seja mal-intencionado”, qual é o sentido disso se ali todo mundo é tão pacífico que, mesmo com a possibilidade, ninguém efetivamente fizesse algo? Então é necessário que o ambiente não seja de “qualquer um tem uma faca” mas sim “alguém tem uma faca, e esse alguém pode ser qualquer um”. Faca no sentido simbólico, ok?

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