Competição e Desafios
Na época do vestibular, resta aquela dúvida primordial: qual será a minha profissão? Resta ao jovem decidir qual é a mais lucrativa, que dá a ele um melhor retorno financeiro e que permite a ele construir uma bela democracia. É o grande passo para a primeira derrota (ou não), é o momento em que ele percebe que está competindo ferozmente com várias outras pessoas. Não necessariamente precisa escolher, mesmo tão jovem, a profissão que deseja, mas aquela que dá oportunidades e um retorno financeiro. Às vezes, é até mais interessante o jovem escolher um vestibular competitivo (com vários candidatos por vaga em cursos populares) para que ele tenha um determinado status quando for aprovado. É um grande desafio para esse jovem, que não quer nada além de ganhar dinheiro e ser reconhecido pelos amigos e principalmente pela família que fez um grande investimento financeiro na sua educação e, agora, exige um retorno. Além disso, os pais adorariam dizer aos amigos adultos dos grupos adultos sociais que o filho passou em um grande curso em uma faculdade de nome.
O jovem vê aquela menina e fica maravilhado. Que menina linda! Como ela é linda! Depois ele se toca que somente ele acha ela linda quando conversa com seus amigos de colegial. Fica até com vergonha por causa disso. Os seus amigos acham aquela outra. Praticamente todos acham aquela outra. A opinião dos seus amigos é tão importante e convincente que ele acaba cedendo e partindo para essa “outra” menina, digamos, a “menina popular” do colegial. Ela tem algumas características externas que chamam a atenção dos meninos e foge da doçura, simplicidade, carinho e amizade da que acha linda. Mas por que isso? A linda, depois da conversa com os amigos, ficou feia. Ele deseja, neste momento, é aquela que todos desejam e ponto final. É esse agora o seu objetivo, conquistar essa garota chata que, no entanto, tem uma beleza externa inquestionável. E faz de tudo pra vencer e dizer para os seus amigos que ficou com ela. É a mais verdadeira sentença da vitória.
Ela agora está se formando e precisa decidir o que pretende fazer. “Ou trabalho pra ganhar milhares de reais em uma cidade pequena ou faço a minha residência?” Ela decide fazer a sua residência no lugar mais competitivo. Ela, na verdade, queria uma determinada área mas, neste momento, optou por outra pelo fato de ser a mais competitiva e, sobretudo, a que mais dá dinheiro. Ainda, na melhor residência do país. Ela quer, evidentemente, ouvir a longo prazo os seus colegas de faculdade parabenizando-a (“poxa, você é inteligente, meus parabéns!”), dizendo-a que passou em uma residência difícil. E, é claro, gostaria de chegar na reunião dos dez anos de formatura com um belo carro com seus filhos e um maridão à altura (intelectualmente e financeiramente falando). Para ela isso é tudo, dizer aos outros que está bem, que venceu. A vida é cheia de desafios e para ela essa seria uma vitória e tanto: a do reconhecimento dos amigos e colegas de faculdade.
O irmão dela também se forma em uma profissão diferente e mais direcionada a empresas. Ele deseja trabalhar em uma multinacional, evidentemente. Além de ser a que dá mais dinheiro, oferece uma melhor carreira, além da possibilidade de trabalhar no exterior. Quem dos seus colegas não deseja passar um mês na Coréia ou viver dois anos na Inglaterra? Além disso, os processos seletivos são corporativos e longos e, para ele, não tem nada melhor do que superar esse desafio. Ele pode passar e, além disso, vai mandar um e-mail para os colegas do yahoo! grupos dizendo que conseguiu tal feito. Todos irão parabenizá-lo e dizer que ele teve grande capacidade e esforço para conseguir o que queria. Mas era isso realmente que ele queria? Era seu sonho fazer essa faculdade? Ou simplesmente a fuga de um sonho e a busca de competitividade para se superar perante os outros e, a posteriori, um reconhecimento desses mesmos? Onde entra o sonho? O seu desejo pessoal? Para ele não existe isso. O que interessa a ele é competir e superar grandes desafios além, é claro, de ter uma boa condição financeira aliada a um status social pelo seu cargo na empresa. Deseja, como sua irmã, chegar na festa dos dez anos de formatura e ostentar aos outros o seu cargo e a sua posição hierárquica na empresa. Nada mais do que isso. A sua felicidade é ver os outros dizendo a ele que está bem e de parabéns.
E assim pendemos e tendemos, recentemente, a perpetuar: para uma vida a partir da opinião dos outros.


Crownedvic disse,
12 Novembro, 2008 às 8:26 pm
Grande post, Santaum!
Estava eu há alguns dias conversando com um amigo, professor de educação física, sobre os alunos playboys que justificam a ele o uso de anabolizantes por aumentar a auto-estima.
Como no seu texto, é mais um exemplo de estarmos num mundo feito de inúmeros conceitos e definições vazias do que é “sucesso”, “realização pessoal”, “valor disso ou daquilo”, no qual há inúmeras pessoas igualmente vazias e sem valor. Playboys precisam se mostrar para seus amigos, com alto-falantes cromados no porta-malas do carro, e uma namorada de enfeite. Outros precisam tentar medicina na federal não porque é o que realmente querem, mas porque sentem-se pressionados, etc… Isso não passa de escravidão. Um bando de ratos correndo nas esteiras.
Se pegarmos esse tipo de gente e tirarmos todos esses apetrechos, o que resta? NADA.
O mundo dos “homens” não passa de uma soma de zeros.
Rafael disse,
13 Novembro, 2008 às 9:59 am
Já vi muita gente cair da “esteira” e voltar pra lá como se nada tivesse acontecido, a preocupação é “será que alguém me viu cair?”.
Abs
Peterson Espaçoporto disse,
13 Novembro, 2008 às 11:47 am
“será que alguém me viu cair?”
Frase perfeita pra complementar o artigo. Aliás, excelente artigo Santaum, excelente.
Santaum disse,
14 Novembro, 2008 às 12:31 pm
Rafael, sua frase foi excelente e resumiu bem o propósito do texto.
Crownedvic, concordo plenamente contigo, exceto a soma de zeros, hehehehehe. Acho que ficaria melhor assim: O mundo DESSES “homens” não passa de uma soma de zeros.
Darto" disse,
14 Novembro, 2008 às 2:33 pm
Bela exposição de fatos!
Não se esqueça da categoria que se contenta com o status de ser “amigo” do vencedor, e vive bajulando sua fonte de status a torto e a direito. Isso enquanto a fonte não seca.
Abraço!
salix disse,
14 Novembro, 2008 às 3:32 pm
me da uma dooooor no coraçaum transformar 5 em 6, mas eu preciso dizer q esse texto ficou mto romantico.
Santaum disse,
14 Novembro, 2008 às 3:37 pm
Sem dúvida Darto”, isso acontece bastante.
Fatima disse,
26 Novembro, 2008 às 2:51 pm
Algumas pessoas já me disseram que meu boyfriend é calado demais, ‘caipira’ demais, etc. Pouco importa: o que importa é que ele é lindo para mim, já passei da idade de pautar meus atos pelo que os outros pensam.
Fazer isso é como se condenar à nunca estar satisfeito (sempre haverá alguém que tem opinião divergente daquela – também de outro – que vc está seguindo; e aí, como é que fica?).
Qto à profissão, acho que já nasci sabendo o que queria ser quando crescesse
Santaum disse,
26 Novembro, 2008 às 3:36 pm
Sem dúvida Fátima!!!!! Sua frase sobre “condenar a si mesmo” foi ótima, pois expressa justamente a idéia principal do texto. É isso que mais estou pensando nos últimos tempos, em termos de reflexões, hehehehehe…..