O Prestígio

16 Dezembro, 2008 at 1:37 am (Peterson Espaçoporto) (, , )

Todo mundo gosta de elogios. Por quê? Porque eles são a identificação que outros fazem de algo bom que há em você. É muito fácil nos deixar levar pela impressão de que no fim somos legais e agimos bem. A falta de elogios significaria justamente uma possibilidade de que não, as pessoas não acham a mesma coisa que você. E aí você começa a desconfiar que não, você não é tão legal. Pelo menos não para as pessoas que estão à sua volta, já que elas não parecem ver isso em você.

Por isso elogios não são apenas “valorizados” – eles são de certa forma necessários. Necessários pra que tenhamos uma noção, ainda que não 100% certa mas já muita coisa, de que a visão dos outros concorda com a nossa quando o assunto somos nós mesmos. Ou, quando você se critica demais, os elogios servem justamente como uma salvadora opinião do lado de fora…

Agora, tomemos por exemplo as vitórias. Não há nada de errado em valorizar as vitórias. Mas por que roubar nos jogos é “errado”? Há um problema axiológico com quem rouba pra vencer – quando não há dinheiro envolvido, que seja dito – porque o que essa pessoa valoriza não é a competição, o calor da batalha, a diversão inerente das rivalidades. Não, ela valoriza a vitória e as conseqüências dela – os louros da vitória, a admiração que conseguirá. De forma semelhante, quando uma pessoa faz algo porque quer os elogios dos outros é porque quer elogios que serão direcionados para uma pessoa que ele não é de verdade, que ele interpreta ser.

Ou seja, a sociedade não preza os elogios. Elogios são bons, todo mundo gosta. Mas infelizmente uma pessoa insegura pode acabar fazendo coisas para se adaptar aos gostos dos outros, tentando se encaixar no modelo de pessoa que as pessoas elogiariam – para receber os elogios. Ou seja, o único modo de ser “você mesmo” é compreender que, ao não ser, você vai receber elogios… Pela pessoa que não é. Ao ser você mesmo você vai ouvir elogios de gente que valoriza o que você é. Talvez o ponto a se destacar sobre o papel da cultura é que hoje até que há um ambiente propício pra isso: há muitas pessoas dispostas a sinceramente aceitar até que uma quantidade razoável de diferenças. Além disso, se existe pra cada local um modelo de pessoa merecedor de elogios, o dia em que esse modelo for “pessoa que é ela mesma” haverá ainda muitas crises porque as pessoas não saberão se são elas mesmas – verifica-se então que o bem e o mal se conservam em quantidade, apenas mudam de lugar…

A solução, pois, continua simples: se você deixa de pensar em um modelo e pensa em preferências pessoais, você vê que tudo não passao do dilema de tentar se adaptar às preferências dos outros. Ou não. É impossível não relacionar com a idéia de amor/amizade verdadeiro: quem te ama de verdade vai gostar de você pelo que você é. Quem não sabe se te ama de verdade vai acabar descobrindo quando se deparar com o dilema inconsciente de gostar de você ou não…

Acima de tudo também é preciso notar que parece um raciocínio simples, mas é um exercício de auto-conhecimento bem confuso esse negócio de “sou eu”, “recebo elogios por uma pessoa que não sou”, etc. É complexo, mas há uma divisão.

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Acabei de Ouvir…

13 Dezembro, 2008 at 12:13 am (Santaum)

Com agradecimentos ao Ceticismo.net

“Tem uma história interessante… Bem quando estava querendo terminar um relacionamento com uma namorada, fui a uma igreja e a pastora disse “Tem alguém aqui querendo terminar um relacionamento…”… E… De repente senti que aquilo era pra mim…”

Ou seja, se você pega um público relativamente grande e diz que há alguém querendo terminar um relacionamento (ainda mais posto nesses termos, afinal “relacionamento” significa muitas coisas), você tem uma chance gigantesca de, wow, alguém ali querer terminar um relacionamento. Que curioso.

E mesmo que não haja ninguém, ninguém vai sair perguntando, o que ainda assim confere a quem não quer terminar um relacionmento uma impressão de sapiência – a mim não chegaria essa impressão, mas a alguns outros headless…

Como é incrível e tristemente difundida essa teoriazinha de que “Deus não dá nada de bandeija, dá as oportunidades”. A primeira coisa que se tem a dizer é que, apesar do que se ver por aí apontar nas duas direções – provérbios centenares dizendo que não, você tem que fazer as coisas que Deus lhe dará as oportunidades e pessoas não fazendo nada, esperando por soluções divinas – não é o que a Bíblia diz. Segundo ela, se você pedir, Deus tem que atender. Ou seja, teoricamente, pedir é o que mais dá certo, hum?

Ask, and it shall be given you; seek, and ye shall find; knock, and it shall be opened unto you:

Mateus 7:7

Além disso, que tipo de oportunidades deus dá a bebês recém-nascidos nascidos com doenças terminais? Ou então a oportunidade a pessoas que vivem nas ruas, em países que os sujeitam a extrema pobreza ou mesmo à seca nordestina?

O argumento “Deus dá oportunidades” costuma significar duas coisas. Significa que ele proporciona a oportunidade às pessoas de conseguir o que querem – o que não é verdade como se verifica nos casos acima e similares – ou que justamente todos os infortúnios pelos quais as pessoas passam são apenas desafios, e não desestímulos, para que as pessoas melhorem.

Mas esse, entretanto, é simplesmente um simples caso de “ver o que quer, onde quer”. Os desastres naturais são desastres naturais. Aliás, desastres são desastres. Pessoas morrem, pessoas ficam tristes, a dor é distribuída aleatoriamente numa cadeia imprevisível de conseqüências diretas e indiretas. Isso é por si só ruim. Isso não carrega, em si, nada de bom. Nós aplicamos a essas experiências coisas boas. Nós é que, mesmo em tempos difíceis, arranjamos coragem e determinação pra seguir em frente, pra nos reconstruir, pra tentar aprender uma lição que seja disso tudo. Mas essa lição não nos é dada, e nem a reconstrução podia ter sido o objetivo de uma catástrofe não pré-determinada. A catástrofe por si só vem para causar dano, ponto. Parte de nós a iniciativa de algo melhor.

Aí podemos evidenciar claramente a ingratidão típica, ainda que não necessariamente nociva a alguém em particular que não o puro e simples acaso. Ah, nossa casa foi destruída! Deus fez isso para que possamos reconstruí-la. Não, a reconstrução é idéia, necessidade, ação, sua. Você podia mudar de casa, de cidade. Podia se suicidar. Podia viver na rua. Mas não, você decide reconstruir a casa. Coisa sua.

Ah, deus não me deu emprego. Não, não, ele me deu a oportunidade de conseguir emprego. Ora, o que é exatamente uma oportunidade? É um termo extremamente subjetivo pra ser considerado assim. Milhares de fatores contribuíram para que houvesse uma “oportunidade” e aí atribui-se isso a uma entidade mitológica…

Além do que, sempre existe o incômodo fato de que, fosse deus mesmo perfeito, não haveria necessidade de passar por coisas ruins para que boas acontecessem – ele criaria uma realidade desse modo, e não do modo presente. Mais sobre isso aqui.

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Por último, o cara ainda falou do homem que achava que conhecia a Bíblia por lê-la, mas não por abri-la em cima da mesa na hora de jantar e discuti-la com a família ou coisa assim.

Pra mim era sapientíssimo por não fazê-lo. Escolheu se contaminar sozinho com tanta sujeira, poupando a família. Que nobre escolha…

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