A Era de Aquário vem aí. Mas…
28 janeiro, 2009 at 7:24 pm (Crownedvic) (Barack Obama, Contrato Social, Crise, Era de Aquário, Niilismo, Paradigma, Perda de Sentido da Vida)
Há pouco, vi na internet uma notícia de um recém desempregado nos Estados Unidos que matou a esposa, mais cinco filhos e depois a si mesmo. Mais um herói num mundo cruel… Pensei: “isso é apenas a ponta do iceberg, ainda não é nada em relação ao que poderemos testemunhar (ou até mesmo experimentar de agora em diante)”. E, ao mesmo tempo, todos os dias vejo notícias novas e medonhas sobre a crise econômica, tudo repleto de falta de esperança em meio a quebras de recordes de demissões em massa em São Paulo, nos Estados Unidos e em vários pontos do planeta.
Podemos ver que há pesados conflitos no Oriente Médio, países falindo, grandes marcas da indústria se sentindo obrigadas a tirar os pezinhos do pedestal, americanos conhecendo o sabor de um “terceiro-mundo-way-of-life”, miséria e frustração se espalhando e tomando conta do cotidiano das pessoas por todo o globo… Há hoje uma série de fatores que contribuem para que o estado alarmante pelo qual temos passado já há um bom tempo mostre-se cada vez mais evidente.
Em alguns corredores já tem sido falado, e esperado, que com a posse de Barack Obama estejamos entrando num novo paradigma. Os Estados Unidos estão dominados pelo medo, insegurança e instabilidade, assim como várias outras potências. Os calcanhares de muitos Aquiles começaram a doer, e isso assusta um bocado quem sempre se imaginou invencível.
Sinto que conseguimos chegar a um contexto geral tão lamentável que, finalmente, muitos dos bons e velhos gritos de protesto passarão a ser ouvidos. Aqueles avisos de ambientalistas e estudiosos, antes ignorados, sobre aquecimento global, profecias sobre fim do mundo, aqueles alarmes, reivindicações e sugestões dadas às potências sobre os danos que a desenfreada exploração capitalista podem acarretar, e todo o habitual grupo de argumentos proferidos pelos pensadores “subversivos” e “contra o sistema”, têm, agora, uma grande chance de serem ouvidos e até mesmo levados a sério a ponto de que sejam colocados em prática, uma vez que uma nova realidade faz-se necessária como nunca.
Sinto um cheiro diferente ao meu redor. Um cheiro de algo novo. Devo confessar que não suporto profecias, mas este cheiro não quer me deixar em paz e, francamente, não estou conseguindo ignorá-lo. Um novo espectro ronda o mundo inteiro; uma faminta serpente fareja sua presa, prestes a dar o bote.
O “cheiro” que estou sentindo é um cheiro que traz consigo as mais belas e radiantes cores, tonalidades de uma inocente pintura numa tela pintada com música dançante e leve, cheia de espontaneidade e harmonia. É um cheiro de pessoas risonhas que removeram de si as impurezas do espírito acumuladas por séculos de mentalidades doentias. É o cheiro de um mundo novo, há muito sonhado, que chega para trazer aquele sentido tão procurado e tão pouco encontrado para a vida. Já posso ver, nos olhos dos transeuntes com os quais cruzo pela rua, que uma luz diferente brilha dentro de todos. Vejo que um grande contingente de pessoas está começando a se tornar consciente de que o insalubre status quo já se tornou obsoleto há muitas décadas, e que um mundo diferente é necessário.
Estão compreendendo, irmãos? Conseguem também sentir esse cheiro de novidade? Respirem um pouco mais fundo, e prestem atenção… Não é mais aquele odor pútrido e amargo de um mundo que, já morto há séculos, largado à mercê das moscas apenas se decompunha no escuro cada vez mais. As massas estão ficando cada vez mais espertas com tanta informação, e hoje um simples noticiário superficial de alguma emissora de televisão já pode às vezes despertar, aqui e acolá, algum distraído Hommer Simpson para o fato de que sua vida insignificante tem sido controlada por mecanismos externos a ele, como muitos devem ter desconfiado no caso da quebra da bolsa. Esses Hommer Simpsons devem estar finalmente começando a notar que os reflexos da crise pela qual passa a humanidade, em suas várias dimensões, vieram das mãos do próprio homem, e a partir daí talvez eles comecem a perceber que muita coisa é bem mais humana, demasiado humana, do que parece.
E perceber isso já é chegar até a metade da ponte que nos leva ao “novo mundo” que estou anunciando aqui. Após percebermos que podemos moldar nossa realidade, e juntos nos salvar numa atmosfera repleta de solidariedade, tolerância e compromisso com o objetivo comum (afinal, “yes, we can!”), o “espírito do criador” começa a ganhar espaço no interior do homem, e o escravo, já tão obsoleto, débil e desgastado, finalmente sai de cena.
O cheiro que passou a nos circundar tem nome. Já me cochicharam há uns anos, e agora pude lê-lo em sua própria fragrância. Está escrito “Era de Aquário”.
Finalmente, o mundo inteiro percebeu que tem custado muito caro sacrificar a própria vida em nome de valores materialistas e vazios de substância, concepções e hábitos que nos separam do sentido da vida, especializações e competições num mercado cheio de homens que na verdade não passam de meras engrenagens de uma despersonalizada e fria máquina. O sorriso foi roubado, e os comerciais de pasta de dente já não estão mais conseguindo devolvê-lo aos consumidores (ou melhor, vendê-lo).
A nossa carne, esverdeada e podre, escondida debaixo de uma alva cútis lustrosa e perfumada por cosméticos de grife, já conseguiu exalar podridão demais para não ser notada a urgência de uma radical e profunda reciclagem interior.
Pois entramos agora numa contagem regressiva! A cada volta que a Terra dá em si mesma, a cada movimento de Saturno e de cada astro no céu, a profecia da Era de Aquário se aproxima mais da realidade. E, em breve, acordaremos numa nova cultura, num novo conceito de “homem”, numa nova definição de riqueza e de sucesso pessoal. Aprenderemos a tratar “o outro” como um irmão, e conseguiremos finalmente trazer o utópico reino-dos-céus, tão desejado, para a realidade, “no aqui e no agora”.
A alegria e a dança tomarão conta, e não mais nos sentiremos escravos de um gigante monstro sem vida que foi criado por nós mesmos, mas que, depois, abandonou as rédeas e depôs a imaginação humana do trono. Não precisaremos mais rezar de joelhos e suplicar ao testemunharmos algum amigo próximo que, antes mesmo dos 30 anos, se mata, ou toma remédios para conseguir se levantar da cama e continuar vendendo sua força-de-trabalho todos os dias, ou outro amigo que também antes dos 30 já tem labirintite, problemas cardíacos, ou outro que possui um organismo já enfraquecido e gasto como o de um velho do ocidente. Tudo isso já feriu demais os nossos corações, já não dá mais para suportar. A nova era que se anuncia está trazendo a luz do repouso. – (Repouso… Repouso!?!?).
Ouviram-me bem? Eu disse repouso. Talvez faça mais sentido a fragrância à qual me refiro se chamar “Era dos Cansados”. Pois essa nova era está mesmo prestes a iniciar, mas vejamos bem… Será mesmo que será uma “era de paz e amor”? Será que o “amor”, a “igualdade”, a “tolerância”, a “solidariedade” e toda a coisa bonita que está para desabrochar é mesmo algo honesto, sincero? Será que essa “nova era” fluirá espontânea e pura dos corações dos homens? Quem nasce primeiro, a ética ou o medo?
Não tenho motivos para duvidar de que, quando passarmos a caminhar juntos de mãos dadas, estaremos numa “Era de Aquário” anêmica, superficial, frágil como uma bela divisória de isopor. O cheiro dessa era até que não dói a cabeça. É levemente adocicado, não chegando a ser enjoativo; é realmente sedutor, mas algo aí tem um quê de forçado, como a dança de um exausto bobo da corte prestes a desabar no chão, mas que com as últimas forças insiste em parecer natural. É um cheiro que se aparenta equilibrado, mas que foi exalado por gerações esgotadas, que há muitos séculos gritam de dor. É o DNA empalhado de inúmeras vísceras mortificadas e carcomidas, entrelaçadas por incontáveis surtos de desespero e ataques de pânico. E tudo isso tendo como trilha sonora uma música que possui como refrão um “por favor, vamos parar por aqui! Já não mais suportamos nosso próprio fedor!”. Não será uma era de paz e amor – (no, we can’t!!!!!). Será um pacto, um contrato, um pedido de trégua para a própria natureza perversa e imunda que está dentro de cada um de nós, e nada mais.
A nova era que se aproxima fará com que todos nós aprendamos a viver como irmãos, a sermos solidários e a nos preocuparmos mais com o meio ambiente e a defendermos algum bem comum em nome de alguma definição que será dada para a nova humanidade. Mas não será uma era de epifanias e redenções. Será apenas um teatro diferente, com papéis e figurinos diferentes – uma internação coletiva de doentes, um recinto de pessoas frustradas e vencidas, um leito para bobos da corte desajeitados e exaustos. Nenhuma “era de amor” pode nascer de corpos ainda tão imaturos e pobres de amor para nutrir algo tão nobre.
Que bom! Finalmente estamos prontos para viver em paz uns com os outros como nunca antes! O meio ambiente será menos agredido! Continuaremos amando aos filhos de Deus, mas aprenderemos também a amar aos filhos dos deuses ilegítimos! A “Era de Aquário” deixou de ser apenas uma promessa de “hippies malucões”! Está cada vez mais próxima de ser uma idéia que facilmente cativará pais da família burguesa e magnatas frustrados prestes a pular da janela do escritório! Finalmente, conseguimos (yes, we can!) chegar a uma miséria grande o suficiente para permitirmos que, dessa vez, a luz entre!…


Peterson Espaçoporto disse,
1 fevereiro, 2009 às 11:47 am
Um texto muito bom. Comecei achando que talvez fosse só ver o que quer ver… Mas depois entendi o que quer dizer. Agora acho que concordo sim =D Só resta saber se isso, a [um pouco mais] longo, prazo, será bom.
Crownedvic disse,
1 fevereiro, 2009 às 8:37 pm
Pois é, é uma pergunta que também faço…
Se esse “novo paradigma” acontecer, a única forma de podermos começar a dizer se estará sendo bom ou ruim é perguntar: “Que tipo de vontade quer isso?” (Bom, roubei essa pergunta do nosso amiguinho Bigode, mas é aquela história, não teve jeito, novamente… hehehehe)
Bom, mas, pessoalmente, penso que realmente será um paradigma brotado da perdição, da necessidade de salvação, do cansaço mesmo… Não será amor nenhum, apenas desespero e vazio.
Santaum disse,
3 fevereiro, 2009 às 9:15 pm
O texto foi muito bom, mas vou precisar ler de novo para comentar, hehehehehe!!!!! (5 exclamações)
Darto" disse,
10 janeiro, 2011 às 12:55 pm
Caramba Crownedvic, excelente texto!
Enquanto lia já comecei a pensar no que responderia, mas antes do final você já tinha concluído o que eu começava a pensar…
Creio que essa mudança será boa, sim. Na mudança, me parece que uma maior número de pessoas pensa sobra o que acontece. Melhor que na constância.
E mesmo de manifestações mentirosas e egoístas, disfarçadas por conceitos puros, ditos motrizes, nascem situações ligeiramente mais puras…quero dizer (e já devo ter dito), quando a mão de obra feminina começou a ser desejada e aceita, o motivo real era o baixo custo que viria atrelado, e nada de nobre, como queriam fazer acreditar. Mas as coisas melhoram vagarosamente, não é? Mesmo quando o que se deseja é um novo modo de se prender…
Grande abraço!