Por que “Sr. Nós” ainda não me queimou na fogueira.
Será que “a xenofobia” pode ser definida facilmente, sem que esteja ocorrendo uma grave arbitrariedade por quem esteja tentando defini-la? Afinal, onde começa e onde termina a xenofobia? Quem é o mocinho, quem é o bandido? – De qual lado está vindo “a xenofobia”? Vejo em noticiários televisivos repórteres almofadinhas dizendo que tal crime de xenofobia ocorreu ali, outro acolá… Xenofobia tem sido um assunto bastante tratado na televisão ultimamente, o que me despertou alquns questionamentos. E, enquanto isso, a feliz, mansa e inocente família brasileira diz, entre si, dentro da aconchegante sala que faz parte de um doce e amável lar: “que coisa feia! o mundo está cheio desses fanáticos violentos!…”
Mas, percebo que muitos desses lustrosos repórteres e a boa e velha família (racista) brasileira não foram muito a fundo no quesito “repudiar a xenofobia”. Pois, se tais espécimes fossem mesmo avessos à xenofobia, não teriam tão veementemente se aderido a tal prática.
Se xenofobia é intolerância às diferenças, se é radicalismo, apresentando muitas vezes fundamentalismo e fanatismo, se é exclusão do respeito aos valores diferentes do “outro”, por que não poderíamos dizer que a nossa cultura ocidental, que tem a moral cristã como parte de sua base, é um grande pomar no qual as árvores, os galhos, a grama, as folhas e os frutos são nada mais que xenofobia? Considero nossa cultura como algo análogo ao nazismo (ou melhor, o nazismo como algo análogo à nossa cultura). O nazismo foi apenas um fruto podre do nosso solo podre. O pensamento ocidental (e, talvez, não só o ocidental) apresenta fórmulas análogas ao nazismo, é nutrido pelos mesmos ingredientes característicos – o que diferencia uma versão de outra são apenas as “entrelinhas”. Mas, no fundo do rótulo colorido e cheio de logomarcas bonitinhas, lá dentro da embalagem vemos que é farinha do mesmo saco… O espírito que paira no ar é o mesmo. O que muda são os símbolos, mas a “essência” é a mesma. E, felizmente, me incluo no lado dos excluídos. Prefiro a câmara de gás ao ar puro dos imundos.
Bem, certamente, alguma boa-velha-senhora, com um terço na mão e uma camisa estampada com algum emblema que evoque família e fraternidade, responderia que “não, a cultura ocidental não é xenófoba (os “outros” é que estão contra ela, e portanto estão errados e merecem ser corrigidos; é nosso dever salvá-los!)”. – Mas eu não sou uma velha senhora, e muito menos sou “bom” ou tenho o costume de pegar em rosários e, por isso, talvez, tenha pouca dificuldade em perceber que nossa cultura não passa de um grande Awschwitz legitimado e aprovado pela maioria, no qual dentro, no centro desse picadeiro, estão os “pecadores”, “loucos”, “desviados”, “errados”, “bruxos”, “maus”, “imaturos”, “doentes”, “não-civilizados”. E, ao redor, batendo palmas com entusiasmo, está a platéia, uma massa formada por “escolhidos” e “povos eleitos”.
Li, há uns anos, em algum trecho da bíblia, um jargão que me marcou, e que até hoje me causa calafrios: “Quem não é por nós, é contra nós”. Pense bem nisso que você acabou de ouvir, meu caro amigo leitor… O que você acha de uma sentença desse tipo? O que você sente? Seria exagero meu continuar insistindo na alusão ao nazismo? Ou será que isso é mesmo Amor? Bondade? Virtude? – Bom, se for, talvez seja mais decente ser cheio de ódio, maldade e imundície. Palavras…
Esta sentença “Quem não é por nós, é contra nós” pode ser vista como um grande “tema” para definir o espetáculo de bizarrices que é nossa sociedade. Tal concepção está arraigada no espírito do povo – como já bem sabemos, rebanho é a palavra… –
Bom, então sinto muito, caro “Sr. Nós”, mas pelo visto nunca poderemos ser amigos… Prefiro continuar fazendo parte dos excluídos no campo de concentração. Não quero “ser por você”. Quero continuar contra você, e quero continuar sendo odiado por você. [Non Serviam!] Suas ardilosas artimanhas verbais não me seduzem; seus argumentos chantagistas e mesquinhos não servem para mim como ratoeiras e não me compram. Seu calor humano não é para mim aconchego, e muito menos paz – é apenas veneno. Caro “Sr. Nós”, fique aí em cima, babando e pulando envolto ao confortável calor humano da união enquanto me debato aqui, neste recanto mofado e escuro, neste submundo reservado por você para pessoas como eu que não fizeram por merecer seu límpido lugar guardado para a obediência, o servilismo, “o bem”. Essa luz que você mostra aí do alto apenas serve para agredir as vistas e cegar. –
Conseguem me compreender, meus amigos leitores druggies? Comecei questionando sobre a xenofobia, se não trata de um conceito vago, impreciso e que muitas vezes depende do contexto histórico social em questão, e de por quem esteja sendo tratado o tema… O que para mim é xenofobia, para certos “homens-de-bem” não é… Penso que os tempos são outros, mas nem por isso muita gente perderia a chance de me queimar na fogueira. Por quê? – porque, embora este simpático autor que vos escreve seja um indivíduo pacífico e cortês, pensa diferente, e não tem interesse em fazer parte de rebanhos ou partidos. Ele apenas passa por eles, sem ceder cumprimentos a símbolos e estátuas que não façam parte do seu mundo interior. Ele não é pelo mundo, não é por “Nós”, não é do mundo – está no mundo, apenas. E tal postura parece incomodar o tal “Sr. Nós”…
Suponhamos, por exemplo, que a prática de queimar hereges virasse modinha novamente… Será que as pessoas “boas” teriam, dessa vez, o discernimento que não tiveram há alguns séculos? Será que demorariam, dessa vez, alguns minutos a mais para que algum iluminado atirasse em mim a primeira tocha?
Bem, pensando melhor, pode até ser que grande parte do povo considerasse isso uma barbárie (afinal, morrer queimado é chocante demais, e assusta as crianças…). Além disso, já foram inventadas muitas opções mais criativas e emocionantes para punir. Queimar é muito primitivo… Hoje, percebo que o êxtase de um povo carrasco está mais requintado, concentrando-se na manipulação, na privação, na destruição espiritual, na queima interna, longa e agonizante do indivíduo. É mais prazeroso para seres perversos dar alfinetadas incessantes do que cortar logo a cabeça… (Afinal, para que serve mesmo o inferno no imaginário das pessoas? – Foi graças à invenção do inferno que o povo encontrou sua felicidade). É dessa tortura que falo, da violência psíquica. Eles não precisam mais querer ver pessoas como eu queimando sobre uma pilha de troncos em chamas – as “fogueiras” de hoje já são bem mais sutis, bem mais criativas, bem mais empolgantes.
Nossa sociedade considera o holocausto de Hitler uma monstruosidade, uma vergonha para a humanidade, mas ao mesmo tempo é uma sociedade dominada por um povo tirano, que pratica várias outras formas de holocausto. No final das contas, a questão diz respeito apenas ao tipo de violência que é ou não é legítimo em determinada época e lugar.


Peterson Espaçoporto disse,
24 Fevereiro, 2009 às 10:46 am
Apesar de ficar confuso durante os tempos com os termos – afinal, Xenofobia se refere ao que é estrangeiro no sentido de nacionalidade, mas, interpretando o estranho como estrangeiro, dá na mesma – o texto ficou demais =)
Há ainda uma certa insegurança minha quanto ao último parágrafo: a violência de hoje, os ‘holocaustos’ de hoje ocorrem de maneiras diferentes e sutis, mas… Seria mesmo justo compará-los ao holocausto câmara-de-gás? Tipo, milhões de pessoas morrendo a sangue frio? Hummm… Tenho minhas dúvidas, cara.
Crownedvic disse,
24 Fevereiro, 2009 às 1:00 pm
Cara, valeu pelo alerta, eu escrevi o texto sem pensar que Xenofobia fosse um conceito usado apenas no sentido de nacionalidade.
Pesquisei há pouco na internet sobre tal conceito, e vi que é usado de várias formas, e gera várias divergências de interpretação; é muitas vezes usado para “aquilo que é diferente”, ou seja, também para culturas e valores diferentes. Só não sei ainda se usar dessa forma é “legítimo”. Bom, como li pouco e não sei se as fontes são confiáveis, ainda estou inseguro para tentar corrigir o texto com algum outro termo mais apropriado. De qualquer forma, valeu pelo toque!…
Sobre a comparação que fiz entre o “holocausto” de hoje, espalhado pelo mundo e cultivado no espírito do homem, com o holocausto de Hitler, reconheço que devo ter exagerado mesmo… hehehe… Mas a idéia foi “equiparar” a crueldade de hoje com a do Reich Nazista, ou com a do período da Inquisição. Minha idéia foi mostrar minha impressão de que a “vontade de ver os outros queimando” ainda existe – mas tal vontade tem sido expressada por outros meios. Foi como um “eles hoje não precisam ver uma pessoa se intoxicando com uma tonelada de uma vez, já que uma dose todos os dias está garantida”.
Bom, mas realmente era muito mais “bárbaro” aqueles milhões de pessoas morrendo a sangue frio; mas a impressão que quis passar com minha comparação foi de que o extermínio é hoje realizado à prestação, ou algo assim. São pequenas parcelas de extravasamento de ódio e violência, que fazem com que, todos os dias e a cada instante, certas pessoas sintam-se de alguma forma “queimadas”.
Bom, eu saquei o que você pensou, realmente foi meio exagerado da minha parte, mas eu quis foi passar essa idéia que falei… Abraços…
Peterson Espaçoporto disse,
24 Fevereiro, 2009 às 2:26 pm
Humm é, eu concordo com você, entendi o motivo pra comparação =)
E quanto à xenofobia, considerando que de fato o ódio às diferentes culturas também é uma boa definição então acho que a palavra foi usada corretamente
Santaum disse,
26 Fevereiro, 2009 às 8:27 am
A princípio, tive a mesma impressão que o Peterson no primeiro comentário dele mas, depois do seu comentário e justificativa, a comparação ficou mais plausível, apesar de muitos acharem “exagerada”.
Entendi o seu post como um “abre alas”, um “manifesto” àquele e-mail que me mandou. Seria, de certa forma, uma crítica a um conceito bastante aplicado no dia-a-dia, comparada a estranha ambiguidade que esse próprio conceito é difundido, na prática, nesse mesmo “dia-a-dia”.
Crownedvic disse,
26 Fevereiro, 2009 às 12:11 pm
Isso mesmo, Santaum, tem tudo a ver com o conteúdo daquele e-mail.
Quanto ao exagero, se preparem, amiguinhos!… Tenho achado muito interessante exagerar, e principalmente mesclando o exagero com metáforas. Ultimamente estou pensando que um texto contraditório e exagerado seja bastante “rico”, e que não perde muito para um todo “certinho”. A contradição traz vários pontos de vista ao mesmo tempo, e o exagero obriga o leitor a questionar, comparando os pesos.
E como não tenho interesse em convencer pessoas, e não faço questão de deixar claro, na maioria das vezes, qual é a “solução” que encontro para tal ou qual problema abordado, sinto que estou bem apto para pôr em prática a Técnica do Labirinto!… hehehe.. Acho legal isso, e pretendo mergulhar nessa direção. Mas é claro que só de vez em quando, senão ferra tudo… ehhehehe