Acerca da Solidão
Vou colocar aqui um trecho muito interessante da obra “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley. Neste ensaio, Huxley conta como foram suas experiências com a mescalina, o princípio ativo do peiote, planta usada pelos nativos norte-americanos para ter verdadeiras “viagens” espirituais.
O trecho em questão é genial. O vocabulário, a estrutura, o modo como explica, enfim; ainda que se trate de uma tradução, creio que ele descreveu de maneira belíssima esse conceito. Uma vez eu disse a meu pai “estamos sozinhos, existencialmente” e ele retrucou “não se você buscar os outros e etc” – há uma resistência, não só por parte dele mas por parte de várias pessoas, a entender esse conceito fundamental de solitude existencial. E Huxley escreveu isso de uma maneira particularmente genial nesse primeiro parágrafo:
Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência, debalde. Por sua própria naturez, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
O Vento
As pessoas são como plantas. Plantas que crescem no meio do vento que é o resto do mundo.
O vento das oportunidades, o vento das restrições, o vento da cultura, o vento dos fracassos e dos fracassados.
É um vendaval que nunca para. E a planta cresce. Ela resiste. Cresce também de acordo com sua informação genética, é claro, mas tem que se conformar com o vento e planejar sua adaptação a ele.
Ela pensa em um dia ser frondosa árvore.
Mas o vento é o vento. O vento pode quebrar uma planta. Tamanha força pode afastar polinizadores. No mínimo, a árvore acaba torta depois de tanto contato com essa força implacável. E torta ela cresce. Pra um lado ou pro outro, torta.
É ridículo dizer que a planta cresce sem o vento. Que, não, imagina, o vento não a afeta. Pode o vento transformar pitangueiras em jabuticabeiras? Mas como apontar para uma planta e dizer que ela é torta porque quer?
Mas… Talvez…
Talvez os homens não sejam plantas. Talvez não sejam como plantas. Talvez sejam simplesmente humanos. Humanos ao vento, tentando resistir. Às vezes colocando a mão à frente do rosto; às vezes desistindo e resolvendo sentir de vez o vento ao invés de brigar com ele. Por vezes caindo e ficando lá no chão, imóvel, parado. Estatelado.
Às vezes ele consegue dar um passo à frente. Ele se desequilibra, é complicado, mas ele vai. Ele tem determinação pra tanto.
Eventualmente ele pode descobrir que não gosta do caminho para o qual está indo. Às vezes é contra o vento, às vezes não. O importante é que ele tente. Importante é que ele não é uma planta, mas um humano. A explicação acaba aí; humanos possuem consciência – de alguma forma somos quem somos e, mesmo que por alguma mínima e ridícula diferença, não somos animais tanto quanto os animais o são.
Nós podemos tomar o controle da nossa vida? “Fazer valer à pena” tem como requisito assumir certas responsabilidades para com liberdades que queremos ter e com liberdades que vamos, querendo ou não, ter. Se jogar no vento de cabeça, não com galhos e folhagem, contando com uma incerta raiz, esperando o destino atuar.
Talvez ser planta ou homem é uma questão de escolha. Talvez a escolha não seja fácil de realizar – mas, indeed, talvez seja uma escolha…

