Acerca da Solidão
Vou colocar aqui um trecho muito interessante da obra “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley. Neste ensaio, Huxley conta como foram suas experiências com a mescalina, o princípio ativo do peiote, planta usada pelos nativos norte-americanos para ter verdadeiras “viagens” espirituais.
O trecho em questão é genial. O vocabulário, a estrutura, o modo como explica, enfim; ainda que se trate de uma tradução, creio que ele descreveu de maneira belíssima esse conceito. Uma vez eu disse a meu pai “estamos sozinhos, existencialmente” e ele retrucou “não se você buscar os outros e etc” – há uma resistência, não só por parte dele mas por parte de várias pessoas, a entender esse conceito fundamental de solitude existencial. E Huxley escreveu isso de uma maneira particularmente genial nesse primeiro parágrafo:
Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência, debalde. Por sua própria naturez, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.


Santaum disse,
9 Março, 2009 às 4:56 pm
Sensacional o comentário. Eu penso sobre isso de vez em quando mas, obviamente, não tive a capacidade que ele teve de “comentar” sobre o assunto.
As Portas da Percepção, Parte I - O Cérebro @ Orkutcídio em Massa para Adoradores de Lasagna disse,
15 Março, 2009 às 1:55 am
[...] que tomar mescalina? Ele fala sobre como nós, seres humanos, vivemos em uma realidade exclusivamente solitária. Entretanto, [...]
Darto" disse,
22 Março, 2009 às 8:22 pm
Nossa…
crownedvic disse,
23 Março, 2009 às 4:55 pm
Cara, faz um tempo que estive querendo comentar seus últimos textos aqui do Pensitivo, mas não tive tempo para isso. Até porque quando pude saí comentando foi textos seus no Orkutcídio… hehehe
Isso que você escreveu sobre a solidão é algo muito importante para que um ser humano consiga encontrar a felicidade. Somente quando alguém se encara solitário num deserto é que é possível ir de encontro a si mesmo. O autoconhecimento necessita de solidão, e exatamente nessa consciência da solidão que está dentro de cada um de nós mas que muita gente evita admitir.
Um livro nunca é o mesmo quando lido por outra pessoa. Estamos sempre nos comunicando e ao mesmo tempo não estamos nos comunicando (ou talvez estejamos sempre nos comunicando “mais ou menos”). É incrível isso, e às vezes dá uma sensação de vazio. Mas esse vazio é imediatamente preenchido por fantasmas e demônios, quando o deserto se livra de pessoas. E a vida pode ser muito interessante assim também…
Cara, muito bom seu texto… Abraço.
Peterson Espaçoporto disse,
23 Março, 2009 às 6:08 pm
Valeu gente =)
Victor, o gênio mesmo foi o Huxley. Ele conseguiu dizer isso de uma maneira que eu me enrolaria todo pra dizer e não ficaria nem com a metade da beleza
Emmanuel disse,
5 Agosto, 2009 às 10:43 am
Ola, bacana seus textos, não sei se vc ja assistiu a um filme chamado> Donnie Darko, um filme muito interessante que leva a reflexão de vários aspectos da vida humana.
Uma delas é a solidão.
O mais engraçado da solidão, que por mais certa que ela seja, assim como a morte, grande maioria tenta evita-la, ou admiti-la….
Ainda mais hoje que vivemos na ditadura da felicidade…
Tenho um blog com um amigo, depois de uma passada la e leia os textos que lhe chamarem atenção…
Eu assino la como Emanoloko…
Um abraço