Tempo e Determinismo às avessas

17 Abril, 2009 at 11:16 am (Darto") (, , , , , , , , , , , , , )

Inspirado por um post do Peterson.

Numa fase de sucessão de pensamentos sensitivos acerca do determinismo, livre arbítrio e suas consequências, me deparei com fontes distantes e diferenciadas que abordavam o mesmo assunto.

Uma fonte foi o Orkutcídio.

Outra, bem inesperada, foi um exemplar da revista Galileu de fevereiro de 2000[nº103] jogado ao acaso num dos banheiros da república onde moro, em Ilha Solteira. Dizia o seguinte:

“Há um antiquíssimo debate entre livre-arbítrio e determinismo. Podemos mudar nosso destino ou a vida segue em frente de acordo com um plano pré-formulado?

Imagine que você vá a um desses cinemas com múltiplas salas de exibição simultânea. Você compra um ingresso, passa pela roleta, vai à lanchonete e adquire um saco de pipocas. Entra numa sala e começa a assistir ao filme. Em poucos minutos, percebe que é um filme de que não vai gostar. Sai da sala e entra em outra. Gosta do filme e fica.

Você pode ver claramente que seu único livre-arbítrio em toda essa situação foi escolher a qual filme queria assistir. Seu controle sobre os filmes era nenhum. Todos os filmes na sala de projeção haviam sido previamente escolhidos pela direção do cinema. E mais: todas as histórias dos filmes haviam sido previamente escritas por roteiristas e filmadas por cineastas.

De acordo com a teoria dos universos paralelos, a nossa vida é como a situação que você teria vivenciado no cinema. Versões diferentes da sua vida estão transcorrendo ao mesmo tempo.

Elas existem nos universos paralelos. Assim como no cinema você não pode mudar o filme a que está assistindo, na vida você não pode mudar o filme de que está participando. Mas tem a capacidade de escolher um ou outro filme, um ou outro universo. Desse modo, nossa vida seria um constante escolher e mudar de universos, mesmo a cada pequeno instante.

É evidente que, na vida cotidiana, tudo isso acontece num nível inconsciente e automático, com todos os nossos sofisticados equipamentos mentais e volitivos sendo usados para manter o mundo tridimensional em funcionamento e nos permitir a tomada de decisões.

Esse é o mistério da vida, a maravilhosa complexidade existente por trás de tudo aquilo que nos parece tão simples. Nossa atuação no mundo não depende do conhecimento dessas mecânicas, assim como não precisamos saber como funciona a máquina de projeção para assistirmos a um filme.”

Li também sobre uma teoria que dizia que o tempo pode correr tanto pra frente quanto pra trás, tornando o passado tão dinâmico quanto o futuro [pra quem não acredita no destino imutável]. Se bem me lembro, Stephen Hawking concordou e discordou logo em seguida. É um tópico difícil de se imaginar.

Se no momento ‘c’ a bolinha acerta o chão, pode ser que você só a tenha soltado no momento ‘b’ porque sabia que o chão estava ali.

Que o futuro mude o passado, não é difícil assimilar. Não passamos a vida nos preparando pro amanhã? Não estudamos, trabalhamos e guardamos coisas pressupondo que o futuro será aproximadamente parecido com o passado? Se soubéssemos que nossa morte é semana que vem, não agiríamos de modo completamente diferente do ”normal”?

Mas, se pararmos pra pensar, o futuro é bem fixo. SE tivéssemos todas as variáveis do sistema, poderíamos prever tudo. A questão é saber se é possível ter todas as variáveis. A física quântica sugere que não é possível. A visão de Einstein era a que agora é chamada de “uma teoria da variável escondida”. Trecho de um artigo de Stephen Hawking:

Einstein’s view was what would now be called, a hidden variable theory. Hidden variable theories might seem to be the most obvious way to incorporate the Uncertainty Principle into physics. They form the basis of the mental picture of the universe, held by many scientists, and almost all philosophers of science. But these hidden variable theories are wrong. The British physicist, John Bell, who died recently, devised an experimental test that would distinguish hidden variable theories. When the experiment was carried out carefully, the results were inconsistent with hidden variables. Thus it seems that even God is bound by the Uncertainty Principle, and can not know both the position, and the speed, of a particle. So God does play dice with the universe. All the evidence points to him being an inveterate gambler, who throws the dice on every possible occasion.”

E se o futuro é imprevisível [E o complexo de Édipo? E a estória de Chronos e Zeus? A sina dos Oráculos?], como o passado pode ser fixo? Se é, se pode, então a dimensão temporal me parece toda poderosa, a senhora de todas as outras, aquela que decide, que assenta, que define. E se é fixo, não pode ser um exemplo do determinismo às avessas, uma comprovação? Caramba, tanta coisa! Se tantos gênios discutiram, embasados em intrincadas definições matemáticas, e nenhuma certeza foi encontrada, então com certeza não sairei com nenhuma certeza daqui.

A conclusão de Hawking:

“To sum up, what I have been talking about, is whether the universe evolves in an arbitrary way, or whether it is deterministic. The classical view, put forward by Laplace, was that the future motion of particles was completely determined, if one knew their positions and speeds at one time. This view had to be modified, when Heisenberg put forward his Uncertainty Principle, which said that one could not know both the position, and the speed, accurately. However, it was still possible to predict one combination of position and speed. But even this limited predictability disappeared, when the effects of black holes were taken into account. The loss of particles and information down black holes meant that the particles that came out were random. One could calculate probabilities, but one could not make any definite predictions. Thus, the future of the universe is not completely determined by the laws of science, and its present state, as Laplace thought. God still has a few tricks up his sleeve.

That is all I have to say for the moment. Thank you for listening.”

Grande abraço! 

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Leis da Robótica, Leis da Humânica

5 Abril, 2009 at 11:59 pm (Darto") (, , , , , , , , , , )

Ah, que saudade! Quantas vezes ótimas idéias surgiram nonada, e nonada foram grafadas! Agora, de volta à casa.

Mais um post inspirado pelo grande autor Isaac Asimov.

Qual a essência da vida? O que nos faz ter consciência, o que nos faz ter alma, o que nos faz diferentes, especiais?  Temos vida, consciência e alma, somos diferentes e especiais?

A maioria das religiões não têm dúvidas: temos alma, somos superiores, estamos de passagem.

Eu não tenho tanta certeza. Primeiro, porque tudo me parece muito intrincado e especial. Não somos tão diferentes das plantas, das pedras, do vácuo.

Olho um computador: peças, matéria, programação virtual lógica.

Olho uma pessoa: órgãos, matéria, consciência.

Iguais. Ultraje? Blasfêmia?

Li livros de robótica escritos por Isaac Asimov[I, Robot; The Biccentennial Man; Robot Visions; etc], e achei que os robôs só estavam ali como escada. A análise da psique dos robôs não passava de um jardim de infância para a análise da consciência humana.

Isso dá medo. Queremos negar o determinismo, afirmar que temos livre arbítrio.

Pausa: segundo Isaac Asimov, a única maneira de garantir que os robôs somente beneficiassem os humanos seria gravar regras que não poderiam ser desobedecidas pelos robôs, garantindo eterna servidão. No mundo fantasia de Asimov, os cérebros positrônicos dos robôs seriam construídos de modo que os caminhos que representariam as leis fossem forjados na matéria do cérebro, para que qualquer tentativa de desobedecer as tais resultasse em destruição material irreversível do servo.

Muito legal. Consequências muito legais, bem mais elaboradas que os clichês frankensteinianos vistos até então[o filme Eu, Robô foi uma abordagem infantil do livro, diga-se de passagem].

Não, mas não acreditamos que isso possa, de alguma forma, ser análogo às condições humanas. Na própria fantasia dos livros, o sujeito que sugeriu as Leis da Humânica foi considerado idiota. Por quê?

A consciência, o que é? Não é eletricidade e hormônios? Não é resultado dos processos da massa encefálica? É algo mais, é…..especial?

Se o telefone não existisse e funcionasse, diriam que é impossível. Celular, televisão, energia elétrica. Computador. Recebe informações, processa, responde. Cérebro? O computador só faz o que é mandado, se não fornecermos informações a serem processadas e informação de como processá-las, ele não responde. Cérebro?

Ah, temos a capacidade de criar, inventar. Criamos e inventamos com informações observadas que os outros não viram antes. Não fazemos matéria surgir nonada. E pra quem ainda acha que computadores não inventam, ghosts in the machine.

Não acho impossível a existência de leis inerentes que nunca conseguiremos quebrar. Sempre levei a razão muito a sério em tudo, mas penso que em certas situações, nem toda a razão do mundo poderia me fazer agir racionalmente. E acredite, não é porque a emoção falaria mais forte. Você, nunca sentiu que, em determinada situação, sempre escolheria uma situação, mesmo que não fosse a racional? Nunca se sentiu previsível? Nunca sentiu que os outros são previsíveis?

Não pode surgir uma ciência avançada que conseguirá prever o comportamento humano, baseada em algoritmos desenvolvidos por alguém que tenha conseguido achar um padrão na nossa mente? Não poderemos criar uma máquina superior a nós mesmos em todos os quesitos intelectuais?

A criatividade não é somente um processo mais difícil de padronizar e racionalizar porque existem mais variáveis embutidas nela do que, digamos, num processo que o cérebro aciona para resolver uma conta de 2+3? É impossível colocar a criatividade numa máquina? Não somos uma máquina? Não somos feitos da mesma matéria que está na máquina? Onde é, na máquina, que os metais fazem idéias em símbolos saírem do virtual, virarem matéria grossa, serem transportadas por fios e, mais uma vez, a virtualizam? Can you grasp that?

O que é ser especial? Uma máquina não é especial? Uma pedra não é especial? O vácuo não é especial?

Ah, como eu gostaria de ter certezas!

Merci et au revoir.

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