Sobre discussões
Há algum tempo, conversando com o Santaum, eu disse que, na maioria das discussões que presencio, os dois lados falam a mesma coisa com palavras diferentes. E o post do Marcílio tocou exatamente neste tipo de discussão.
E este tipo de discussão que acaba gravando um sentido ruim à palavra. É quando as partes entram pra “ganhar”. Completamente improdutivo. Esse tipo de aproximação só é tomada por quem ainda acha que existem verdades e mentiras, preto e branco. Beira o infantil.
Depois que comecei a perceber isso, minha vida ficou muito mais ao meu gosto. A pessoa pode ser muito linha dura, mas com a escolha certa de palavras, consegue-se o que se quer. Diriam que eu seria advogado. Minha maior diversão era argumentar com alguém de crença inabalável, levando a pessoa a concordar até a última premissa, e observar a inquietude de seus olhos enquanto ela escolhe entre raciocínio ou submissão cega. Geralmente é a segunda que prevalece. Mas nunca tão plena como antes. Deve ser esse o gosto de um mindfuck falho.
Qualquer um com uma abordagem mais “científica” aproveita muito uma discussão. Teorias são discussões, e até a mais aceita deixa brechas para outras, e/ou então assume sua falhabilidade com considerações.
Um problema que tenho tido após ver o mundo em cinza é que concordo e entendo quase qualquer tipo de postura. Talvez seja nesse ponto que eu escolho entre raciocínio e submissão cega. Qual será que vence? Vence?
Alguns podem interpretar isso como falta de opinião. Não concordo. Acho que minha opinião é forte e flexível. E pra quem acha que estes dois não são compatíveis, mostro os gráficos do comportamento de aço de alta qualidade e ferro fundido quando sofrem tensões. Força e flexibilidade seguram os tijolos dos seus edifícios há anos!
Comecei a ver, também, que muitos déspotas e vilões pensaram muito mais do que eu imaginava. Eles parecem ser os mocinhos que desistiram e escolheram o atalho.
Grande abraço!


Santaum disse,
22 Junho, 2009 às 9:07 pm
Belíssimo texto!
Ou seja, você age como um agnóstico discordiano. Eu também estou me comportando da mesma maneira, embora de vez em quando promovendo discordâncias em algumas discussões por diversão. É como se em uma discussão religiosa eu defendesse o catolicismo se conversasse com alguém que não fosse católico e ao mesmo tempo defendesse o não catolicismo se conversasse com alguém que fosse católico.
O mais importante de tudo é que, mesmo com as discordâncias, prevaleça o alto nível de discussão com o respeito. Essa é a parte difícil: o respeito. O ser humano parece que se sente ofendido ou orgulhoso quando alguém fere o seu ídolo. E não podemos ser assim. Não podemos nos prender a ídolos e túneis de realidade. Por isso gosto de me divertir com as discordâncias, mesmo com algo que eu goste, mas argumentando contra para a satisfacción ser garantizada.
Grande abraço e ótimo texto.
Darto disse,
7 Novembro, 2009 às 10:20 pm
Obrigado!
hehehehehe, isso rende muito, não?
Aí é que entra o jogo de cintura pra ver se a pessoa é interessante ou sempre “deals in absolutes”, como diria o Obi Wan hahahahaha
Abração!
marcilioestefanio disse,
28 Junho, 2009 às 10:08 pm
Quando você concorda com a pessoa ela não se sente ameaçada.As pessoas muitas vezes confundem discordar com ofender.
Imagine uma mulher quando veste uma determinada roupa.Bom o fato dela ter escolhido aquela roupa faz daquela roupa a melhor escolha para ela.Se você discorda da escolha,ela interpreta como uma grande ofensa.
Os homens se matam por times de futebol.Acreditam que pelo fato de ter escolhido determinado time,aquele time é a melhor escolha.
Desse ponto de vista eu acho o embate perigoso.Discussão é sim muito saudável quando nos traz reflexões.Mas o fato é que nunca sabemos até que ponto as pessoas vão para defender as suas “verdades”.Esse é meu medo.
Darto disse,
7 Novembro, 2009 às 10:27 pm
Esse é um ponto complicado. Acho que eu nunca discutiria isso com qualquer mulher, não entendo absolutamente nada de roupas, e isso pode ser uma vantagem hehehehehe
Acredito que a questão dos times tá mais pra status que pra convicção de superioridade. Um homem não troca de time pois quer mostrar que tem opinião forte, embora possa reconhecer, em determinados momentos, que seu time tá “uma merda”.
Um medo bem justificado.
Abraço!
bruna disse,
23 Julho, 2009 às 4:02 pm
o pior é que, em tese, uma “discussão” deveria ser sempre proveitosa
mas quando observo discussões, a depender de quem discute, eu sinto que o maior problema são os conceitos:
a falta de definição deles faz com que os interlocutores ou discutam sobre coisas diferentes, ou façam silogismos falsos, ou atribuam características que não são próprias dos conceitos, e isso dificulta a construção porque não só se tem que prestar atenção no tema em si mas também nas premissas do intelocutor, que tem todo um histórico pessoal de vida e portanto um entendimento diferente do conceito (e são vários interlocutores, sendo que a cada um deve-se dar uma atenção especial)
obs. coloco a conceituação como fundamental porque toda conclusão depende das premissas, ou, em outras palavras, a resolução de qualquer problema só pode ser dada de acordo com o que já é do conhecimento
…
isso me leva a pensar no meio acadêmico. eu diversas vezes me pergunto como é cabível tanta discordância!
ou a construção lógica é simples e precisa, e o problema está todo nos interlocutores, ou é algo tão estupidamente complicado que é preciso várias mentes com insights diversos para a relosução do problema
(e, santa Lógica!, se é assim entre especialistas, como nós, reles leigos, às vezes sem um estudo suficiente, podemos pretender “discutir” algo?!)
Darto disse,
7 Novembro, 2009 às 10:35 pm
Concordo plenamente.
O fato de que existe uma divergência de opinião já diz que há uma diferença nas definições. Quando a discussão “esquece” as semelhanças e toma como foco as diferenças, ela vai longe e tem grandes chances de não levar a nada, pois o tópico principal é facilmente esquecido entre todas as outras discordâncias.
Também acho que a discordância acadêmica deve-se mais ao ego que à idéia. Cada um defende o seu peixe na esperança que alguém o compre. As pessoas se perdem discutindo as ferramentas, e esquecem os objetivos, ou sabidamente os trocam pela fama e fortuna.
Como eu acho que todo mundo está errado[ e isso não é ruim], sempre estou a fim de discutir, hehehehehe. Só fico triste quando tenho que parar pela própria falta de subsídios teóricos.
Obrigado por dividir sua opinião, beijos.