Escorracemos a Felicidade do nosso paraíso!
Bom, este texto foi inspirado por uma pergunta que, certo dia, um amigo em meio a uma conversa fez a mim:
_ “…Você é feliz?”
_ Não, cara, a felicidade fede. Nunca desejarei ser feliz, e seria bom que muita gente também não desejasse isso.
_ “Mas o que quer dizer com isso?”
_ Rapaz, antes de qualquer coisa, é bom perguntarmos: afinal, que diabos é a felicidade? Sei que trata-se de algo bastante subjetivo. Para um masoquista, felicidade é levar sopapos na cara, para um marido bunda-mole, idem; para uma dona-de-casa puritana, é fazer sexo sentindo culpa e sem sorrir e respirar, e assim por diante… Claro que estou fazendo uma explicação bem rasa, mas é só pra você entender de qual “tipo” de felicidade estou falando.
Para a reflexão que quero trazer aqui, deixo claro que a “felicidade” em questão é aquele “conceito oficial”, adotado pela sociedade estabelecida, almejado por leitores de livros de auto-ajuda, supostamente conhecido pelos autores desses livros, por conformistas, onisatisfeitos, protagonistas de comerciais felizes de creme dental, pela família Flanders, pelos seus vizinhos… Entendo esse tipo de “felicidade” como o “conceito oficial”, assim como o monoteísmo católico considera qualquer divindade, que não seja o próprio deus católico, ilegítima: assim como sou ateu, sou também um baita de um infeliz…
Pois bem, tratando desse “conceito oficial” que nossa cultura tem para felicidade, não consigo vê-lo senão como um sintoma de desespero, aflição, repugnância à própria vida. Nada mais que um grito de dor e tristeza, até mais triste que a própria tristeza. Já percebeu como o mundo inteiro rasteja, até agora, atrás dessa tal “Felicidade”? Todo mundo ama a Felicidade, passa a vida inteira em busca dela, morre, em muitos casos ainda esperando encontrá-la após a morte, mas ninguém sequer a viu senão como um sorrateiro vulto… A Terra já deu inúmeras voltas em torno do sol, templos e civilizações ergueram-se e se extinguiram diante da impassividade da natureza, e até agora o povo não parou de arrastar atrás da Felicidade.
Momentos que poderiam ser inesquecíveis passam, um após o outro, como poeira diante daqueles milhares de olhos que se perderam no sonho, na esperança de que, algum dia, o esperado “momento sagrado” se manifeste e transforme completamente a vida – e enquanto isso, a própria vida aos poucos se despede, se mingua e vai perdendo seus traços, sumindo em forma de uma negra silhueta na linha do horizonte como um navio destinado a ir embora. Será a Felicidade uma cadela ágil demais? – Não, não é uma cadela, e nem é coisa alguma, e é por isso mesmo que até agora não foi alcançada. A Felicidade não é coisa alguma!
Não se pode alcançar idealismos que não se materializam; a Felicidade é nada além de utopia. O “momento sagrado” acontece agora, e agora, e agora, e agora… Mas o povo prefere virar as costas e dizer, a cada “agora”, um “não, obrigado, ainda estou esperando a Felicidade chegar!“…
Vivemos num mundo hostil, podre, que causa náuseas. Embora muita gente consiga camuflar tal visão, algo me diz que notar o aspecto repugnante da existência ao estar vivo é uma condição tão intrínseca à nossa espécie como é a de respirar. E, se sociedades inteiras conseguem moldar máscaras sobre o aspecto desagradável detectado, não é por isso que por baixo dessas máscaras a realidade não esteja podre como sempre foi. Dizer sim à podridão, o que significa dizer sim à vida como ela é, sem subterfúgios em mundos fantasmagóricos e embriagantes é, portanto, dizer não à maldita Felicidade. E é por isso que odeio profundamente essa tal Felicidade…
Escorracemos a Felicidade das nossas casas! Querer ser Feliz é um sintoma de doença, é querer se privar dos próprios sentidos para suportar aquilo que eles já não mais suportam. Em vez de procurar pela Felicidade, devemos aceitar e desejar o caos, a inconstância, a ruptura, a crise, o movimento, a destruição – a criação! É disso que precisamos! De exuberância, de riqueza! É isso que nos liberta e faz de nós os herdeiros da Terra!
Arremessemos brasas aos céus para que os anjos acordem, um a um, nestas labaredas impiedosas e queimem! O paraíso está aqui em baixo, e não em lugar nenhum! Felicidade não passa de morfina, delírio, sonambulismo, coma induzido. Vamos assassinar a Felicidade, essa deusa pálida, raquítica e perversa!…
Não queiramos ser Felizes, queiramos ser vivos, queiramos respirar e transpirar, queiramos sangrar, queiramos cair, – queiramos sentir!
Não sejamos Felizes, sejamos trágicos!


Peterson Espaçoporto disse,
25 agosto, 2009 às 7:13 pm
Crownedvic, um texto com a sua marca =)
Concordo muito e muito com o que vc diz – vc já devia esperar por essa minha opinião, mas enfim… =]
Crownedvic disse,
26 agosto, 2009 às 11:58 am
Fala, grande Peterson!
Cara, eu realmente já esperava por essa sua opinião… Tanto que nem sei o que falar aqui! hehehehe…
Sobre o texto ter a minha marca, você falou sobre algo que até tem me incomodado: eu estou enjoado dessa minha “marca”. Até agora só venho escrevendo textos próximos demais uns dos outros, e muitas vezes uso os mesmos exemplos. Vou começar a ir para outras áreas, só não sei se vai prestar… ehheheheh
Abraços…
Mediador disse,
30 agosto, 2009 às 12:05 pm
Muito bom…. adoro os textos de vcs!
Darto disse,
13 novembro, 2009 às 7:12 pm
Excelente texto, Crownedvic!
Senti algo de muito familiar quando o li. Fiquei com vontade de parafrasear um grande pensador, que certa vez disse que “se adaptar a uma sociedade doentia não é sinal de saúde”. Mais desesperador que acreditar numa sociedade que tenta nos enganar com sua felicidade é não ter certeza se ela está querendo ludibriar ou seela acredita mesmo naquela definição.
Vejo a dualidade(suas duas partes) como sagrada, intrínseca, geradora de tudo. O caos não é ruim, a caminhada ao equilíbrio também não. O equilíbrio, já não sei. Ruim é o fanático, que redobra seu esforço quando esqueceu o alvo.
Grande abraço!