Sorria, a auto-ajuda chegou!

Sei que você volta e meia tem se sentido sem saída, sem esperança, sem perspectivas de futuro. A vida nos tempos modernos tem sido uma correria na qual as pessoas não conseguem mais reservar momentos para o convívio no lar. Dentro da família, filhos se revoltam e se drogam, brigam na escola; esposas tomam tranqüilizantes e antidepressivos, e com a crescente falta de diálogo, crises no relacionamento fazem surgir uma bola de neve que, com o passar do tempo, se desaba como uma avalanche sobre todos. Casos extraconjugais surgem, vindos de ambas as partes… Você começa a ficar gripado facilmente. Começa a sentir cansado já no início do dia. Deixa escapar lágrimas quando menos as espera, e se assusta.

Sua pele está se desmanchando, sua cara ficando torta, em suas mãos estão surgindo verrugas, feridas e escamas, seu corpo esmilingüido está em putrefação… Você já saiu da Igreja Católica, e foi para a Umbanda, depois para o Espiritismo, para o Budismo, ou até já experimentou tudo isso misturado num coquetel só, ou até mesmo chegou a se filiar à Igreja Quadrangular do Triângulo Redondo do Alvorecer Losangular Paralelepipeidal – mas, até agora, nada funcionou.

E você não agüenta mais. Basta!

Agora me responda, irmão, é isso o que você quer por toda a vida? Ficar indo e vindo de tentativas frustradas para acabar com esse desespero que assola tua alma? É isso o que você merece? Ou será você um bandido? – não, você não é um bandido; é um homem de bem, que paga suas contas e seus impostos, e trabalha para comer o pão de cada dia graças a seu honesto suor. Você não merece todo esse vazio em sua vida.

Certamente, em algum momento de angústia, seja devido àquela vontade de nunca mais voltar ao escritório, ou devido àquela tristeza súbita que surge “do nada”, você, encolhido no canto do box do banheiro, deixando a água cair sobre seu coitadinho corpo, tenha olhado para o alto e perguntado para não-se-sabe-o-quê: “Por quê? Por quê? Whyyyyyy!!! Por que isso está acontecendo comigo? Isso não é justo! Eu não mereço!!!

Bom, é com satisfação que venho trazer a boa-nova que salvará sua vida: o nome dela é Auto-Ajuda. Sorria, seus problemas acabaram!!! Seja feliz em uma semana, e caso a tristeza tente voltar, lembre-se das palavras que estão prestes a ser ditas, e veja como esse método é mesmo muito eficaz. Está pronto? Então vamos lá, amigo! Preste agora bastante atenção!

Primeiramente, se você ainda não misturou uma colher de sopa de alegria, com uma xícara de entusiasmo, e não deu uma pitada de amor em toda essa receita-de-merda, sinto muito, irmão, mas sem otimismo e perseverança, você não chegará a lugar algum. Além disso, não se esqueça de um detalhe importantíssimo para quem quer se curar por esse nosso método: nivele-se por baixo. Não entendeu? Calma, vou explicar:

Se você está nervoso porque o trânsito está caótico e agressivo, cheio de gente má; se você está insatisfeito porque seu bife de domingo disse “miau!” por não ter sido bem passado; se você reclama por causa das goteiras da sua casa; se você sente raiva do seu chefe porque o escarro dele você tem que lamber e ainda faz hora-extra sem receber; se seu salário não cobre todas as despesas da casa; se seu orgulho está profundamente machucado porque você descobriu ser mais um corno no mundo; se sua filha é uma prostituta universitária de luxo que faz programas para comprar bolsas caras e sapatos de grife; se seu filho se droga com cigarros de maconha… Enfim, se qualquer, e digo qualquer problema for detectado pelo seu cérebro tão pirracento, não caia na dele! – aplique a Técnica do Nivelamento Por Baixo. Veja como fazer, é fácil! – :

O trânsito é caótico e agressivo. Portanto, pense nas pessoas que precisam andar a pé sob o escaldante sol. Elas estão numa situação pior que a sua, e isso com certeza fará com que seu ilustre espírito medíocre se sinta um pouco melhor. Se sua casa tem goteiras, há pessoas que moram na ponte (o mesmo vale para quando você não estiver satisfeito com seu salário). Se você tem que lamber o escarro do seu chefe, pense naqueles pobres-coitados que têm que lamber coisas piores, ou naqueles que nem sequer têm essa oportunidade de vender força-de-trabalho pra sobreviver. Se você se descobriu um novo corno, veja isso como benefício, como uma oportunidade rica para aprender a perdoar e dialogar, e lembre-se de que o resto do mundo também é corno, pelo menos uma vez na vida.

Entendeu? É simples, e funciona. Funcionou comigo. Afinal, eu não recomendaria se não desse certo. Hoje sou mais um (otário) leitor de livros de auto-ajuda, que devora tantas palavras imundas como um adolescente carente devora freneticamente Big-Sanduíches dentro de fast-foods.

Bom, raramente a infalível Técnica do Nivelamento Por Baixo falha. Se, mesmo sendo infalível, ela com você falhar, há ainda uma outra técnica, a Técnica Das Cartas Na Manga:

Você está aí, tentando se auto-ajudar, mas ainda não consegue… Bom, vale lembrar que Airton Senna não se tornou campeão na primeira vez que dirigiu um carro de Fórmula 1. Primeiramente, ele precisou aprender a dirigir um carro normal, e para tal feito, teve que fazer aulas na auto-escola. Ele com certeza encontrou aqueles pedais e ficou confuso, e teve vontade de desistir… Mas não desistiu, e teve esperança. Esperança é a palavra, irmão, tenha esperança! Não deixe a peteca cair! Bola pra frente! Afinal, o que falta para aquele que tem abundante esperança?

Ninguém aprende a andar de bicicleta sem cair. Sua vida está um lixo, o que te leva a recorrer a técnicas tão deprimentes de auto-ajuda, e em vez de se sentir envergonhado disso, consegue achar bonito e recomenda aos seus amigos e familiares os livros imbecis que andou lendo na última semana. Portanto, lembre-se que, tendo persistência e, acima de tudo, esperança, você chegará lá. O presente é apenas um meio, o futuro te espera; não desista, irmão!

Nunca se esqueça de pensar positivo. Otimismo sempre! Se alguém chega perto de você de mau-humor, cabisbaixo, com a cara amarrada e com aquele bico, afaste-se. Não é bom para você ficar perto de energias negativas. Lembre-se que O Segredo é pensar positivo. Feche os olhos e concentre suas forças, dizendo dentro de si: “Eu vou conseguir! Isso ou aquilo vai acontecer! Eu sei que vai!” E, se não funcionar, lembre-se que pelo menos você tentou, e isso já é um grande começo. Há pessoas que nem sequer tentam, e isso só atrai mais negativismo. Além disso, é com diz o velho ditado: “O importante é competir!”.

E não se esqueça que, antes de qualquer coisa, você é um filho-de-Deus, e que Ele não quer mal a você. Lembre-se disso. Se algo acontece que te machuca, é por um bom motivo. No final das contas, Ele sabe o que faz, e tudo dará certo, acredite. Se você sofre, significa que está se aperfeiçoando ou pagando por algum erro. Errar é humano, somos imperfeitos e blá, blá, blá, blá, blá… É justo de qualquer forma. E você é uma alma bela, tenha certeza disso. No final das contas, tudo faz parte de um equilíbrio, de uma justiça que nós, insignificantes mortais, não poderíamos ousar compreender ou sequer questionar. Portanto, ande, siga adiante e não olhe para trás. E não só ande… Cante, grite, pule, dance! Sei que já está começando a se sentir melhor. Com esses nossos fantásticos métodos infalíveis de auto-ajuda, por pouco você em poucos dias não andará na água!…

– Pensamento positivo, sempre!!!!!

 

[Sorte de hoje (ao som da bela canção “Deixa a vida me levar”): Deus ajuda quem cedo madruga]

Por que “Sr. Nós” ainda não me queimou na fogueira.

Será que “a xenofobia” pode ser definida facilmente, sem que esteja ocorrendo uma grave arbitrariedade por quem esteja tentando defini-la? Afinal, onde começa e onde termina a xenofobia? Quem é o mocinho, quem é o bandido? – De qual lado está vindo “a xenofobia”? Vejo em noticiários televisivos repórteres almofadinhas dizendo que tal crime de xenofobia ocorreu ali, outro acolá… Xenofobia tem sido um assunto bastante tratado na televisão ultimamente, o que me despertou alquns questionamentos. E, enquanto isso, a feliz, mansa e inocente família brasileira diz, entre si, dentro da aconchegante sala que faz parte de um doce e amável lar: “que coisa feia! o mundo está cheio desses fanáticos violentos!…”

Mas, percebo que muitos desses lustrosos repórteres e a boa e velha família (racista) brasileira não foram muito a fundo no quesito “repudiar a xenofobia”. Pois, se tais espécimes fossem mesmo avessos à xenofobia, não teriam tão veementemente se aderido a tal prática.

Se xenofobia é intolerância às diferenças, se é radicalismo, apresentando muitas vezes fundamentalismo e fanatismo, se é exclusão do respeito aos valores diferentes do “outro”, por que não poderíamos dizer que a nossa cultura ocidental, que tem a moral cristã como parte de sua base, é um grande pomar no qual as árvores, os galhos, a grama, as folhas e os frutos são nada mais que xenofobia? Considero nossa cultura como algo análogo ao nazismo (ou melhor, o nazismo como algo análogo à nossa cultura). O nazismo foi apenas um fruto podre do nosso solo podre. O pensamento ocidental (e, talvez, não só o ocidental) apresenta fórmulas análogas ao nazismo, é nutrido pelos mesmos ingredientes característicos – o que diferencia uma versão de outra são apenas as “entrelinhas”. Mas, no fundo do rótulo colorido e cheio de logomarcas bonitinhas, lá dentro da embalagem vemos que é farinha do mesmo saco… O espírito que paira no ar é o mesmo. O que muda são os símbolos, mas a “essência” é a mesma. E, felizmente, me incluo no lado dos excluídos. Prefiro a câmara de gás ao ar puro dos imundos.

Bem, certamente, alguma boa-velha-senhora, com um terço na mão e uma camisa estampada com algum emblema que evoque família e fraternidade, responderia que “não, a cultura ocidental não é xenófoba (os “outros” é que estão contra ela, e portanto estão errados e merecem ser corrigidos; é nosso dever salvá-los!)”. – Mas eu não sou uma velha senhora, e muito menos sou “bom” ou tenho o costume de pegar em rosários e, por isso, talvez, tenha pouca dificuldade em perceber que nossa cultura não passa de um grande Awschwitz legitimado e aprovado pela maioria, no qual dentro, no centro desse picadeiro, estão os “pecadores”, “loucos”, “desviados”, “errados”, “bruxos”, “maus”, “imaturos”, “doentes”, “não-civilizados”. E, ao redor, batendo palmas com entusiasmo, está a platéia, uma massa formada por “escolhidos” e “povos eleitos”.

Li, há uns anos, em algum trecho da bíblia, um jargão que me marcou, e que até hoje me causa calafrios: “Quem não é por nós, é contra nós”. Pense bem nisso que você acabou de ouvir, meu caro amigo leitor… O que você acha de uma sentença desse tipo? O que você sente? Seria exagero meu continuar insistindo na alusão ao nazismo? Ou será que isso é mesmo Amor? Bondade? Virtude? – Bom, se for, talvez seja mais decente ser cheio de ódio, maldade e imundície. Palavras…

Esta sentença “Quem não é por nós, é contra nós” pode ser vista como um grande “tema” para definir o espetáculo de bizarrices que é nossa sociedade. Tal concepção está arraigada no espírito do povo – como já bem sabemos, rebanho é a palavra… –

Bom, então sinto muito, caro “Sr. Nós”, mas pelo visto nunca poderemos ser amigos… Prefiro continuar fazendo parte dos excluídos no campo de concentração. Não quero “ser por você”. Quero continuar contra você, e quero continuar sendo odiado por você. [Non Serviam!] Suas ardilosas artimanhas verbais não me seduzem; seus argumentos chantagistas e mesquinhos não servem para mim como ratoeiras e não me compram. Seu calor humano não é para mim aconchego, e muito menos paz – é apenas veneno. Caro “Sr. Nós”, fique aí em cima, babando e pulando envolto ao confortável calor humano da união enquanto me debato aqui, neste recanto mofado e escuro, neste submundo reservado por você para pessoas como eu que não fizeram por merecer seu límpido lugar guardado para a obediência, o servilismo, “o bem”. Essa luz que você mostra aí do alto apenas serve para agredir as vistas e cegar. –

Conseguem me compreender, meus amigos leitores druggies? Comecei questionando sobre a xenofobia, se não trata de um conceito vago, impreciso e que muitas vezes depende do contexto histórico social em questão, e de por quem esteja sendo tratado o tema… O que para mim é xenofobia, para certos “homens-de-bem” não é… Penso que os tempos são outros, mas nem por isso muita gente perderia a chance de me queimar na fogueira. Por quê? – porque, embora este simpático autor que vos escreve seja um indivíduo pacífico e cortês, pensa diferente, e não tem interesse em fazer parte de rebanhos ou partidos. Ele apenas passa por eles, sem ceder cumprimentos a símbolos e estátuas que não façam parte do seu mundo interior. Ele não é pelo mundo, não é por “Nós”, não é do mundo – está no mundo, apenas. E tal postura parece incomodar o tal “Sr. Nós”…

Suponhamos, por exemplo, que a prática de queimar hereges virasse modinha novamente… Será que as pessoas “boas” teriam, dessa vez, o discernimento que não tiveram há alguns séculos? Será que demorariam, dessa vez, alguns minutos a mais para que algum iluminado atirasse em mim a primeira tocha?

Bem, pensando melhor, pode até ser que grande parte do povo considerasse isso uma barbárie (afinal, morrer queimado é chocante demais, e assusta as crianças…). Além disso, já foram inventadas muitas opções mais criativas e emocionantes para punir. Queimar é muito primitivo… Hoje, percebo que o êxtase de um povo carrasco está mais requintado, concentrando-se na manipulação, na privação, na destruição espiritual, na queima interna, longa e agonizante do indivíduo. É mais prazeroso para seres perversos dar alfinetadas incessantes do que cortar logo a cabeça… (Afinal, para que serve mesmo o inferno no imaginário das pessoas? – Foi graças à invenção do inferno que o povo encontrou sua felicidade). É dessa tortura que falo, da violência psíquica. Eles não precisam mais querer ver pessoas como eu queimando sobre uma pilha de troncos em chamas – as “fogueiras” de hoje já são bem mais sutis, bem mais criativas, bem mais empolgantes.

Nossa sociedade considera o holocausto de Hitler uma monstruosidade, uma vergonha para a humanidade, mas ao mesmo tempo é uma sociedade dominada por um povo tirano, que pratica várias outras formas de holocausto. No final das contas, a questão diz respeito apenas ao tipo de violência que é ou não é legítimo em determinada época e lugar.

A Era de Aquário vem aí. Mas…

Há pouco, vi na internet uma notícia de um recém desempregado nos Estados Unidos que matou a esposa, mais cinco filhos e depois a si mesmo. Mais um herói num mundo cruel… Pensei: “isso é apenas a ponta do iceberg, ainda não é nada em relação ao que poderemos testemunhar (ou até mesmo experimentar de agora em diante)”. E, ao mesmo tempo, todos os dias vejo notícias novas e medonhas sobre a crise econômica, tudo repleto de falta de esperança em meio a quebras de recordes de demissões em massa em São Paulo, nos Estados Unidos e em vários pontos do planeta.

Podemos ver que há pesados conflitos no Oriente Médio, países falindo, grandes marcas da indústria se sentindo obrigadas a tirar os pezinhos do pedestal, americanos conhecendo o sabor de um “terceiro-mundo-way-of-life”, miséria e frustração se espalhando e tomando conta do cotidiano das pessoas por todo o globo… Há hoje uma série de fatores que contribuem para que o estado alarmante pelo qual temos passado já há um bom tempo mostre-se cada vez mais evidente.

Em alguns corredores já tem sido falado, e esperado, que com a posse de Barack Obama estejamos entrando num novo paradigma. Os Estados Unidos estão dominados pelo medo, insegurança e instabilidade, assim como várias outras potências. Os calcanhares de muitos Aquiles começaram a doer, e isso assusta um bocado quem sempre se imaginou invencível.

Sinto que conseguimos chegar a um contexto geral tão lamentável que, finalmente, muitos dos bons e velhos gritos de protesto passarão a ser ouvidos. Aqueles avisos de ambientalistas e estudiosos, antes ignorados, sobre aquecimento global, profecias sobre fim do mundo, aqueles alarmes, reivindicações e sugestões dadas às potências sobre os danos que a desenfreada exploração capitalista podem acarretar, e todo o habitual grupo de argumentos proferidos pelos pensadores “subversivos” e “contra o sistema”, têm, agora, uma grande chance de serem ouvidos e até mesmo levados a sério a ponto de que sejam colocados em prática, uma vez que uma nova realidade faz-se necessária como nunca.

Sinto um cheiro diferente ao meu redor. Um cheiro de algo novo. Devo confessar que não suporto profecias, mas este cheiro não quer me deixar em paz e, francamente, não estou conseguindo ignorá-lo. Um novo espectro ronda o mundo inteiro; uma faminta serpente fareja sua presa, prestes a dar o bote.

O “cheiro” que estou sentindo é um cheiro que traz consigo as mais belas e radiantes cores, tonalidades de uma inocente pintura numa tela pintada com música dançante e leve, cheia de espontaneidade e harmonia. É um cheiro de pessoas risonhas que removeram de si as impurezas do espírito acumuladas por séculos de mentalidades doentias. É o cheiro de um mundo novo, há muito sonhado, que chega para trazer aquele sentido tão procurado e tão pouco encontrado para a vida. Já posso ver, nos olhos dos transeuntes com os quais cruzo pela rua, que uma luz diferente brilha dentro de todos. Vejo que um grande contingente de pessoas está começando a se tornar consciente de que o insalubre status quo já se tornou obsoleto há muitas décadas, e que um mundo diferente é necessário.

Estão compreendendo, irmãos? Conseguem também sentir esse cheiro de novidade? Respirem um pouco mais fundo, e prestem atenção… Não é mais aquele odor pútrido e amargo de um mundo que, já morto há séculos, largado à mercê das moscas apenas se decompunha no escuro cada vez mais. As massas estão ficando cada vez mais espertas com tanta informação, e hoje um simples noticiário superficial de alguma emissora de televisão já pode às vezes despertar, aqui e acolá, algum distraído Hommer Simpson para o fato de que sua vida insignificante tem sido controlada por mecanismos externos a ele, como muitos devem ter desconfiado no caso da quebra da bolsa. Esses Hommer Simpsons devem estar finalmente começando a notar que os reflexos da crise pela qual passa a humanidade, em suas várias dimensões, vieram das mãos do próprio homem, e a partir daí talvez eles comecem a perceber que muita coisa é bem mais humana, demasiado humana, do que parece.

E perceber isso já é chegar até a metade da ponte que nos leva ao “novo mundo” que estou anunciando aqui. Após percebermos que podemos moldar nossa realidade, e juntos nos salvar numa atmosfera repleta de solidariedade, tolerância e compromisso com o objetivo comum (afinal, “yes, we can!”), o “espírito do criador” começa a ganhar espaço no interior do homem, e o escravo, já tão obsoleto, débil e desgastado, finalmente sai de cena.

O cheiro que passou a nos circundar tem nome. Já me cochicharam há uns anos, e agora pude lê-lo em sua própria fragrância. Está escrito “Era de Aquário”.

Finalmente, o mundo inteiro percebeu que tem custado muito caro sacrificar a própria vida em nome de valores materialistas e vazios de substância, concepções e hábitos que nos separam do sentido da vida, especializações e competições num mercado cheio de homens que na verdade não passam de meras engrenagens de uma despersonalizada e fria máquina. O sorriso foi roubado, e os comerciais de pasta de dente já não estão mais conseguindo devolvê-lo aos consumidores (ou melhor, vendê-lo).

A nossa carne, esverdeada e podre, escondida debaixo de uma alva cútis lustrosa e perfumada por cosméticos de grife, já conseguiu exalar podridão demais para não ser notada a urgência de uma radical e profunda reciclagem interior.

Pois entramos agora numa contagem regressiva! A cada volta que a Terra dá em si mesma, a cada movimento de Saturno e de cada astro no céu, a profecia da Era de Aquário se aproxima mais da realidade. E, em breve, acordaremos numa nova cultura, num novo conceito de “homem”, numa nova definição de riqueza e de sucesso pessoal. Aprenderemos a tratar “o outro” como um irmão, e conseguiremos finalmente trazer o utópico reino-dos-céus, tão desejado, para a realidade, “no aqui e no agora”.

A alegria e a dança tomarão conta, e não mais nos sentiremos escravos de um gigante monstro sem vida que foi criado por nós mesmos, mas que, depois, abandonou as rédeas e depôs a imaginação humana do trono. Não precisaremos mais rezar de joelhos e suplicar ao testemunharmos algum amigo próximo que, antes mesmo dos 30 anos, se mata, ou toma remédios para conseguir se levantar da cama e continuar vendendo sua força-de-trabalho todos os dias, ou outro amigo que também antes dos 30 já tem labirintite, problemas cardíacos, ou outro que possui um organismo já enfraquecido e gasto como o de um velho do ocidente. Tudo isso já feriu demais os nossos corações, já não dá mais para suportar. A nova era que se anuncia está trazendo a luz do repouso. – (Repouso… Repouso!?!?).

Ouviram-me bem? Eu disse repouso. Talvez faça mais sentido a fragrância à qual me refiro se chamar “Era dos Cansados”. Pois essa nova era está mesmo prestes a iniciar, mas vejamos bem… Será mesmo que será uma “era de paz e amor”? Será que o “amor”, a “igualdade”, a “tolerância”, a “solidariedade” e toda a coisa bonita que está para desabrochar é mesmo algo honesto, sincero? Será que essa “nova era” fluirá espontânea e pura dos corações dos homens? Quem nasce primeiro, a ética ou o medo?

Não tenho motivos para duvidar de que, quando passarmos a caminhar juntos de mãos dadas, estaremos numa “Era de Aquário” anêmica, superficial, frágil como uma bela divisória de isopor. O cheiro dessa era até que não dói a cabeça. É levemente adocicado, não chegando a ser enjoativo; é realmente sedutor, mas algo aí tem um quê de forçado, como a dança de um exausto bobo da corte prestes a desabar no chão, mas que com as últimas forças insiste em parecer natural. É um cheiro que se aparenta equilibrado, mas que foi exalado por gerações esgotadas, que há muitos séculos gritam de dor. É o DNA empalhado de inúmeras vísceras mortificadas e carcomidas, entrelaçadas por incontáveis surtos de desespero e ataques de pânico. E tudo isso tendo como trilha sonora uma música que possui como refrão um “por favor, vamos parar por aqui! Já não mais suportamos nosso próprio fedor!”. Não será uma era de paz e amor – (no, we can’t!!!!!). Será um pacto, um contrato, um pedido de trégua para a própria natureza perversa e imunda que está dentro de cada um de nós, e nada mais.

A nova era que se aproxima fará com que todos nós aprendamos a viver como irmãos, a sermos solidários e a nos preocuparmos mais com o meio ambiente e a defendermos algum bem comum em nome de alguma definição que será dada para a nova humanidade. Mas não será uma era de epifanias e redenções. Será apenas um teatro diferente, com papéis e figurinos diferentes – uma internação coletiva de doentes, um recinto de pessoas frustradas e vencidas, um leito para bobos da corte desajeitados e exaustos. Nenhuma “era de amor” pode nascer de corpos ainda tão imaturos e pobres de amor para nutrir algo tão nobre.

Que bom! Finalmente estamos prontos para viver em paz uns com os outros como nunca antes! O meio ambiente será menos agredido! Continuaremos amando aos filhos de Deus, mas aprenderemos também a amar aos filhos dos deuses ilegítimos! A “Era de Aquário” deixou de ser apenas uma promessa de “hippies malucões”! Está cada vez mais próxima de ser uma idéia que facilmente cativará pais da família burguesa e magnatas frustrados prestes a pular da janela do escritório! Finalmente, conseguimos (yes, we can!) chegar a uma miséria grande o suficiente para permitirmos que, dessa vez, a luz entre!…

A riqueza está na contradição. Ou não. Logo, está sim.

Conforme muitos já saibam, enquanto alguns apenas desconfiem, e muitos infelizes sequer já tenham pensado a respeito, a civilização na qual vivemos é marcada por uma primazia dada à ordem, à coerência, à harmonia, às verdades absolutas, à “linha reta” que crê poder estacionar-se num ponto derradeiro e perfeito, como se fosse possível encontrar a última palavra sobre algum assunto. A crença na possibilidade de serem encontradas verdades absolutas sobre diversos problemas e questões é uma grande marca do nosso mundo contemporâneo.

Como se fosse possível descobrir “a verdade absoluta”, nossa cultura nos propõe a confrontar várias idéias com a esperança de que, no final, toda a diversidade de interpretações consideradas falsas sejam derrotadas pelas poucas verdadeiras. E isso, conforme me parece, é visto como um benefício…

O grande problema é que uma cultura desenvolvida nessa direção acarreta na mente das pessoas a atrofia. Pois, uma pessoa que não ousa experimentar vários pontos-de-vista, é uma pessoa atrofiada. É alguém que nasceu num determinado contexto social e não se deu ao trabalho de questionar a tradição e a educação que recebeu e que se transformaram em hábitos. Sem o questionamento, torna-se bem difícil propor a si mesmo um enriquecimento interior. É necessário que experiências múltiplas com o sentir e o pensar sejam praticadas, pois é assim que se consegue ampliar o campo de visão e desenvolver a capacidade de refletir de forma mais rica, profunda e complexa. E, para isso, é necessário constantemente se contradizer.

A contradição, tão abominada pelo modelo estabelecido e por importantes mitos da nossa história, traz a insegurança e o medo, pois deixa o indivíduo que se contradiz perdido num labirinto escuro. A vida se transforma numa guerra contra tudo e contra si mesmo. E isso é horrível e injustificável, pois ser humano nenhum consegue viver sem padrões. Vivemos em culturas porque não vivemos no caos. O homem é essencialmente um ser cultural. Sem que demos forma ao caos do qual fazemos parte, ficamos sem definição e sem sentido para existir.

Ou seja, estamos precisando de contradições. Precisamos de mais caos em nossas vidas. E que se dane a tradição! Contradições são a chave para o aperfeiçoamento espiritual e para aprendermos a não levar a vida toda centrada numa ou em outras convicções. A vida é dinâmica, o tempo passa, o mundo gira; conservar interpretações que podem até ter sido necessárias dias atrás, mas que agora não são, é se aprisionar. E é aí que entram os benefícios de se dar ao direito de contradizer freqüentemente. Afinal, se não há verdades absolutas, que importa se o que pensamos hoje não seja mais necessário amanhã? E qual o problema em jogarmos fora todas as velhas “verdades”, às quais nos simpatizávamos, a partir do momento em que notamos que já nos amadurecemos e algo novo deve vir tomar o lugar delas?

E é exatamente nesse exercício de confrontar experiências múltiplas e, muitas vezes, divergentes ao extremo, que aprendemos a olhar para tudo com uma certa desconfiança, com um certo ar de “bem, isso poderia muito bem ser interpretado de outras formas além da qual estou interpretando”. O mundo passa a ser visto como possibilidades de perspectivas múltiplas. E aprender a não se agarrar, como religiosos fanáticos se agarram a dogmas, a tal ou qual perspectiva, é um exercício que pode e deve ser aperfeiçoado.

Ou seja, como uma das possíveis conseqüências dessa prática da contradição, talvez a mais deplorável seja o niilismo. Sinto pena de quem não seja capaz de perceber que, em pleno século XXI, no qual várias teorias de grandes pensadores consagrados já foram provadas, há inúmeras verdades já reconhecidas como absolutas e que dispensam qualquer questionamento. E, se o indivíduo adquire o hábito de se contradizer constantemente, ele na verdade se torna um camaleão, um ser sem forma própria ou definição, como um rio que apenas se molda à forma da superfície na qual passa. E nisso podemos incluir a perda de sentido da vida, pois esta se reduziu a uma desconfiança perpétua em relação a tudo, de forma que nenhum prazer alcançado pareça mais consistente. Toda a vida parece vazia e impalpável como um nevoeiro que a cada instante se dissipa mais. O indivíduo que se contradiz demais corre o risco de acabar se desembocando nesse niilismo, o que significa que sua “forma” se desmanchou e tudo o que restou, após tão desastroso processo, foi falta de definição, de personalidade, em detrimento da “metamorfose ambulante”, do “estar em todos os lugares e em nenhum”. Ou seja, em troca de nada.

Só podemos concluir que a contradição é algo perigosíssimo e deplorável, pois acaba com a graça e o sentido de viver. Pelo fato de pôr por água abaixo qualquer convicção ou verdade absoluta (inclusive aquelas que já foram provadas pela ciência e pela bíblia), o descrente joga no lixo aquilo que garantiria a ele uma razão para existir. Sem fé em mais nada, sem acreditar em algo, como sobreviver? – Bem, sobreviver é até possível, mas em condições de miséria existencial que pessoas boas não desejariam nem ao pior inimigo. Conforme já sabemos, o homem precisa de forma, de padrões rígidos para seguir, de segurança, pois sua constituição orgânica não suporta a ausência de tanto lixo internalizado e transformado em automatismos reproduzidos habitualmente.

E é aí que entra a importância de nos despirmos por completo e darmos um belo mergulho na contradição. E, acima de tudo, de percebermos que o niilismo é lindo. Pois o niilismo nos liberta. Contradição é a chave. Niilismo é a ponte. Sorriso completo e livre é o ponto de chegada (que também sempre será um ponto de partida). É dessa forma que sepultamos a cada dia o cadáver que fomos e varremos o horizonte abrindo alas aos “novos eus” necessários.

O bombardeio de informações diversas no mundo atual, como conseqüência da globalização e do fato de a internet estar cada vez mais acessível, contribui para que o perfil do homem contemporâneo seja o de um homem desenraizado. Com tanta informação indo e vindo, o homem atual se familiariza com tamanha diversidade cultural que seu pequeno mundinho perde força. Inúmeras outras possibilidades passam a ser conhecidas, e isso contribui para que a contradição tome lugar destacável em sua turbulenta vida. E isso me preocupa muito, inclusive em relação às pessoas mais jovens, pois o que será das nossas verdades, nossas tão queridas verdades, num mundo que deixa claro, cada vez mais, que não há verdade alguma?

A contradição não pode continuar. Ou seja, pode sim! Logo…

Superficial, mas por ser profundo.

Iniciarei este post dando a dica de um filme que marcou minha vida há uns 6 anos.

Alguém aí já assistiu “O Sétimo Selo”? É um filme do sueco Ingmar Bergman, que infelizmente faleceu há alguns meses, e que para mim é um dos grandes gênios da nossa época. Quem ainda não viu, que veja logo! Há em DVD nacional por aí, restaurado magnificamente, com uma qualidade de áudio ótima (principalmente se formos comparar com a barulhenta versão pré-histórica em VHS).

A narrativa passa-se na época das cruzadas, na qual o principal protagonista, um cavaleiro angustiado, se depara com a morte, que vem para buscá-lo. Ainda nesta primeira cena, ele consegue convencer a morte a disputar uma partida de xadrez, de forma que, se a morte perder, ele ganhará como prêmio um pouco mais de tempo para que possa tentar encontrar o sentido da própria existência. E daí todo o filme se desenrola, com o surgimento de interessantes personagens, discussões e reflexões que, no mínimo, deixam o expectador bem desconcertado por um tempo. Afinal, refletir sobre a morte não é moleza…

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Interrompendo o fluxo do texto, venho informar-lhes que, embora até agora estivesse eu tratando sobre um filme que possui uma cena e uma mensagem muito bonita, não irei revelar nada sobre o filme, pois não sou estraga-prazeres. Muito menos direi qual é a cena e a mensagem bonita às quais me refiro. Quem quiser descobrir qual é a cena e qual é a mensagem bonita, procure pelo filme e o assista com atenção. [E, se você desconfiar que não conseguirá saber qual é a mensagem e a cena às quais me refiro (pois eu não lhe disse quais são), então, o que isso importa? hehehehe]. Bem, conforme meus planos, agora terei que alterar sutilmente a rota deste post, sem, contudo, alterar o conteúdo pertinente ao título que dei. E, após assistirem o filme indicado, entenderão porque me lembrei dele e estou o indicando aqui.

Ah, e um lembrete importante: não se esqueçam de assistir o filme com uma tigela cheia de morangos silvestres! (Dêem preferência aos sem agrotóxicos). Bom apetite!

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Voltando ao desenvolvimento do post, tenho ultimamente esboçado várias pequenas reflexões sobre o niilismo e quais os benefícios ele nos pode oferecer. A definição de niilismo à qual estou me referindo é no sentido de interpretação filosófica da existência, caracterizada por descrença absoluta de tudo. Explicando superficialmente, só para o leitor se situar em qual definição de niilismo estou falando: A realidade vista como uma ausência de propósitos, uma pulsão irracional de forças ou como quer que possamos chamar isso, ausência de fatos, de causas e conseqüências, de Deus, de livre-arbítrio, e por aí vai…

E tenho chegado à conclusão de que o niilismo é uma boa chave para a liberdade de espírito, para a vida plena e saudável. Sabemos que quase o mundo inteiro já teria me chamado de “doido-varrido” neste ponto onde o post se encontra, mas tudo bem, isso não vem ao caso, como sabemos.

“Mas por que o niilismo seria uma chave para a felicidade?” – Porque ele destrói os obstáculos, remove as impurezas, elimina os entraves que foram inventados por vidas decadentes e débeis. O niilismo joga no lixo todos os séculos de crenças absurdas e mortificadoras do corpo, todo o idealismo que diz “não” à vida aqui e agora em prol de um delírio, a moral, todos os porquês, todas as perguntas e todos os dados que costumavam ser usados como parâmetros para argumentações e raciocínios. Vai além do ceticismo, pois nem sequer ousa comparar pesos e medidas. Joga no lixo a dúvida, o erro, o acerto, a resposta. Ou seja, reduz o “niilista” à apreensão do vazio.

“E, após alguém destruir tanta coisa, como sobreviver?” – O que penso é que grande parte das dificuldades de viver sem o niilismo são, para as pessoas que têm um potencial para se tornar felizes niilistas, apenas dificuldades inventadas. Como sabemos, vivemos num mundo com morais e concepções filosóficas e científicas que foram estabelecidas em nossa cultura, tornando-se hábitos, e que simplesmente são reproduzidas sem questionamentos ou avaliações, regra geral. Mas, aquele tipo de pessoa que tem um “potencial para se tornar um niilista feliz” pode, vez ou outra na vida, ouvir de dentro de si algo dizendo a seguinte sentença: “Nada do que me ensinaram é necessário para mim; nem sequer soa coerente”. E, se ele realmente for um “niilista feliz em potencial”, ele removerá toda a porcaria que herdou das gerações passadas e se iniciará do zero.

E com isso a vida e toda a existência passam a ser vistas de uma forma bem mais leve e simples. Defino-me como um niilista, e hoje, seguramente, como um “niilista-feliz”. [E me perdoem por este termo ridículo que usei, mas faz bem pegar mal de vez em quando, ok?]. E, quando digo que ser niilista dessa forma é ver a vida de uma forma bem mais simples, significa que me sinto bem mais próximo de qualquer outro ser vivo que não seja o homem. Pois ser niilista é jogar fora o “humano” e resgatar a vida. É assumir o corpo, a carne, as vísceras, a fome, a dor, o instinto. Somos animais, como já vimos nas aulas de ciências da pré-escola…

Mas, para se tornar um “niilista-feliz”, que vê a vida de uma forma tão simples, é necessário atravessar um caminho árduo e extremamente complexo. Pois não é da noite para o dia que alguém consegue remover de si hábitos consolidados há anos ou décadas no próprio corpo. Para isso, faz-se necessário o distanciamento do familiar, ou seja, o estranhamento. É preciso experimentar novidades, desenvolver a capacidade de perceber (e compreender) o diferente, o esquisito, o errado, o bizarro, o louco. E isso não é uma tarefa fácil. Mas é assim que aquele pequeno mundinho perde sua significância. Cada um de nós é um “mundo”, e um mundo que pode se expandir à medida que experiências com o sentir e o pensar se acrescentam, entrelaçam, ramificam como uma árvore. E o niilismo faz com que esta árvore se enriqueça e expanda como uma explosão varrendo a atmosfera.

Quando se tem ímpeto suficiente para cruzar esse caminho, chega uma hora em que não há mais volta. As promessas se foram, não há mais Deus protegendo ou vigiando, nem paraíso para nos confortar em momentos de aflição. Apenas há “eu”, “o mundo”, “o aqui” e “o agora”. O tempo segue seu curso cru, duro, seco e indiferente. E a única coisa que resta, neste ponto, é terminar de atravessar essa ponte. Ou então, se o medo for grande demais, rejeitar a própria existência, quer seja voltando a acreditar naquilo que garantia uma sensação de segurança, ou perdendo a lucidez, suicidando, entre outras medidas alternativas que não recomendo…

Mas, para aquele que consegue “atravessar o nada”, tudo fica claro, limpo e simples após a travessia. Toda a cruzada foi válida, e até mesmo prazerosa, para esse tipo de pessoa. E se chegou à conclusão de que a vida é simples demais (principalmente se compararmos com a monstruosa espelunca cheia de bugingangas que foi erguida pela nossa civilização e que nos afasta do nosso sentido de viver). —

Deixo este post por aqui. Somente quis compartilhar algumas reflexões que têm persistido em minha cabeça. Talvez ele tenha ficado incompleto, sem um “tradicional desfecho”, mas a proposta aqui não é escrever redação para a tia da escola.

Para finalizar de uma forma musical, deixo trechos de uma letra, “The Speed Of Darkness”, da banda “The Crown” – uma extinta banda maravilhosa de heavy-metal, também da Suécia:

[Fiz uma tradução logo abaixo. Se preferir, desça para lá].

“From Darkness all is born – And to Darkness all return

You try so hard to follow – I know no path

You pray and kneel and worship – I do not care

With no way to follow – I can’t be lost

When free of all illusion – There is just force

The way of no roads

The freedom here at the peak of time (…)

Before the beginning – After the end

Like cattle who in panic flee – From the fire

You will run in fear until you fall – All burning

(But) those who stand and turn

Towards the flames – Through the inferno

Shall survive on the other side

Where the ground is cleansed

For those who turn to Darkness

Are in endlessness”.

 

[tradução livre – me perdoem por algum pequeno deslize que possa ter ocorrido]:

 

“Das trevas tudo nasce – E às trevas tudo retorna

Você tenta tão duramente seguir – Eu não conheço caminho

Você reza, ajoelha e venera – Eu não dou importância

Sem caminho para seguir – Não há como me perder

Quando livre de toda ilusão – Há apenas força

O caminho sem estradas

A liberdade aqui na batida do tempo (…)

Antes do começo – Após o fim

Como gado que em pânico foge – Do fogo

Você correrá amedrontado até que caia – Tudo queimando

(Mas) aqueles que permanecem e se voltam

Rumo às chamas – Através do inferno

Sobreviverão no outro lado

Onde o chão é limpo

Para aqueles que voltam-se para as trevas

Está o infinito”.

 

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Flamejantes abraços a todos…

Sobre a sutil arte de destruir.

Certamente você, descontraído leitor, lembra-se bem de quando, em seus primeiros anos de vida no jardim-de-infância ou no ensino fundamental, de repente ouviu ecoar, durante uma daquelas longas tardes, uma grave voz que exclamava dentro do seu tenro corpo a seguinte curiosidade: “Mas, afinal, por que estou todos os dias aqui, se não gosto? E quando isso irá acabar?”.

E, conforme foram esclarecidas as dúvidas pelos seus familiares e educadores, ficou claro que é necessário que cresçamos freqüentando escolas, pois é assim que poderemos ter uma vida suportável financeiramente. “Quando se chega à vida adulta, é necessário trabalhar, escolher uma profissão e formar uma família. Quem não estuda, não ganha dinheiro, fica igual ao pedreiro sei lá de onde”… Além disso, “as coisas são como são porque são”.

Ainda bem novos, temos como uma das primeiras experiências de “quebra da inocência” essa triste sentença. E, pelo resto das nossas vidas, teremos que dormir e acordar com ela chiando em nossas cabeças como um grilo, ao mesmo tempo em que faremos de tudo para aprender a conviver com isso.

Trata-se de uma algema colocada em nossos punhos. É a assinatura de um contrato de venda da própria alma ao diabo – de forma que não tenhamos outra opção. E não me refiro apenas àquelas obrigatórias tardes passadas nos jardins-de-infância ou na primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, sexta, sétima ou oitava série, no ensino médio, no ensino superior, no mestrado, no trabalho ou onde quer que esteja se desembocando tão pesada avalanche. O âmbito da vida escolar/profissional é apenas um exemplo para o que quero trazer aqui à reflexão. Também podemos muito bem incluir algumas aulas de catecismo, e as respostas pouco criativas que nos foram dadas por nossos familiares adultos, ao longo dos anos, quando perguntávamos a eles “o porquê das coisas” e não podíamos notar que eles, apesar de terem respondido com tanta desenvoltura, não faziam idéia (e talvez até hoje não façam) de quais são as respostas mais decentes para a maioria das perguntas.

E crescemos imersos nesse conjunto imponente de perniciosos valores, crenças, regras, leis – tudo isso nos integrando a uma fedorenta gosma homogênea feita de hábitos meramente automáticos que nos são passados e sem muita resistência começamos a adotar e a reproduzir. Somos invadidos, influenciados, condicionados. E à medida que os anos passam, nossos diplomas acumulam, nossa infância se substitui por um cotidiano cada vez mais cheio de responsabilidades e deveres, e algo tão precioso que tínhamos enquanto crianças simplesmente se evapora. O corpo, antes leve, entusiasmado e cheio de criatividade, é agora um saco flácido de pele sustentando gordura e cansaço, que se confunde, vez ou outra, com uma barata já no início da manhã. Não mais há brincadeiras, nem sorrisos leves que não tenham custado caro, ou sido comprados. Não mais se distingue claramente onde começa a mercadoria e onde termina nossa identidade e vontade pessoal. Como os bons técnicos que tornamos, tiramos a espontaneidade de tudo, e passamos a ver este mundo tão mecânico, frio e fúnebre com novos olhos de máquina. Herdamos, dos nossos mestres, uma vida sem razão para ser ensinada, mas aprendemos muitas vezes a ensiná-la também. Porque vamos deixando, aos poucos, de ser gente.

E não pensemos que nos reduzimos a essa condição de “coisa” apenas quando estamos perto da idade adulta – começamos a “viver mortos” no primeiro instante em que, sem a capacidade de discernimento, ouvimos a palavra de alguma pessoa morta e a aceitamos. Antes de aprendermos a dizer “eu”, “sim” ou “não”, somos batizados… E mortos há demais à nossa volta, pois não estamos num mundo de homens; estamos num mundo de cadáveres que ainda não deram conta de cair. Nossas crianças cedem seus lugares ao cadáver quando começam a perguntar “mas por quê?” aos pais, às tias da escola, ao padre, e a qualquer outro indivíduo que não tenha adotado para si uma identidade crítica, profundamente contemplativa e, sobretudo, anti-social e amoral contra o mundo inteiro. Pois quem não está agora contra o mundo, está carcomido juntamente a ele.

Pois bem, cá estamos, em pleno fim de 2008, no século XXI. A curta história da humanidade demonstra que, no ponto em que nos encontramos, não há um futuro muito animador para nós mesmos e para as próximas gerações. Tudo foi e parece continuar monstruoso demais. E chegamos agora, neste texto, ao ponto onde eu pretendia chegar depois de toda a doce conversa: todo o erro que há em nossa cultura foi criado por nós mesmos.

Trata-se de uma frase que, num primeiro momento, parece soar simplória. Mas vejamos bem: se estamos presos a uma condição humana miserável em vários sentidos, é porque criamos tal condição. Nossos valores, nossas algemas, todo esse suicídio em massa disfarçado por palavras bonitas como “homem”, “civilização” e “progresso”, são criações humanas. Não foram deuses, e sim nós, com nossa capacidade de comunicação, de produzir cultura, que criamos toda a porcaria na qual padecemos.

Mas, quem for um pouco mais esperto que a grande massa banal que domina o planeta, sabe muito bem que não há verdades, valores ou interpretações absolutas. E isso significa que tudo pode muito bem ser avaliado por um outro ponto de vista, ou outro, ou outro. As respostas que costumamos ouvir poderiam muito bem ser de outra forma. – Por que então não tentarmos algo novo? O que falta? Por que continuarmos arrastando uma bola de aço, uma lembrança de um passado que não é necessária? Sei muito bem que a maioria das pessoas do planeta é manipulada e alienada (e muitas por opção), e que para elas nada do que estou dizendo faz algum sentido. Mas não é para múmias que estou escrevendo aqui.

Estou me comunicando com qualquer pessoa que esteja de saco cheio dessa vida pronta, desse produto enlatado, cheio de conservantes, fabricado em série, que já veio até mesmo mastigado para que o consumidor simplesmente se dê ao cômodo trabalho de apenas engolir. Se você, que está lendo isto agora, já acordou se sentindo um inseto, ou sente que teria sido melhor ouvir outra coisa em vez de toda aquela baboseira que tem ouvido desde seus primeiros meses de vida até agora, é hora de se olhar no espelho e dizer para si o seguinte:

Sou um ser vivo, que irá algum dia morrer. E enquanto estou aqui, respirando, meus instantes de vida se esgotam. Estão eles escorrendo, como a areia de uma ampulheta. Cai um pouco de vida agora, e um pouco mais agora, e agora – assim como já se esgotaram todos os meus anos já vividos (ou melhor, roubados…). E, até este instante, não tive a ousadia e a coragem de encher o peito de ar e dizer “eu”, “sim” e “não” – ainda não sei dizer tais palavras… Mas percebo que, se continuar sendo o que tenho sido, morrerei sem ter vivido; continuarei verme, e morrerei como verme. E, embora o mundo inteiro queira me fazer crer que “o caminho certo” não é aquele que mais me agrada, hoje estou determinado a finalmente declarar que não importa qual seja “o caminho certo”, mas sim o “meu caminho”. E pouco me importa se, para os outros, o “meu caminho” será considerado loucura ou pecado. Não pode haver pecado onde não há santidade… Mas como farei para criar meu próprio caminho? O que é preciso fazer para encontrá-lo? Como saber por onde começar? Sinto frio, medo, falta de segurança e de apoio, não tenho onde me escorar, não tenho muletas… Ah, não sei não, acho que irei continuar vivendo como o homenzinho banal que sempre fui… É isso! sou um fraco, admito! Pelo menos aprendi que ser humilde é bonito!…

Infelizmente, querido leitor, não acredito que você seja capaz de pegar uma marreta e demolir tudo – inclusive a si mesmo – para que depois possa se criar e, finalmente, nascer. Pelo fato de ser a regra, o mais provável é que você tenha optado por continuar de costas para si mesmo, embriagado pelo seu bom e velho auto-engano, esperando ansiosamente pelo fim da própria existência (o que será finalmente um descanso, pois a vida te cansa) sem sequer ter a coragem de admitir.

Mas dei meu recado, e atingi quem e como quis atingir (ou não) com as impressões que passei nesta mensagem. Mas isso pouco importa…

Um grande abraço aos loucos, doentes mentais, pecadores, às bruxas, aos “maus” e a todos os que aprenderam a martelar e a dar O Sorriso.

E um Sorriso para o resto.

Sobre os Soldadinhos da Verdade e da Justiça

Por Crownedvic.

Algo que me chama atenção nas disciplinas acadêmicas ligadas às ciências políticas e aos cursos que têm como principal direcionamento a análise da sociedade, como por exemplo, Ciências Sociais e História, é a predominância de uma defesa ao engajamento, à militância, a favor das minorias sociais, do “povo”, dos proletários e da igualdade a todos.

Juntamente a isso, vê-se facilmente destacar, nos alunos e professores mais entusiasmados com a idéia de “mudar o mundo”, uma histeria que não seria possível deixar de ser notada mesmo de longe.

Aquele discurso nervoso, aflito, inflamado, que em meio a gritos e suores parece até em alguns momentos ser capaz de mover montanhas ou partir o mar ao meio, é algo já bem conhecido como característica intrínseca desses inspirados “militantes”. E como há pessoas que se atraem por uma gritaria!… Nas manifestações barulhentas, parece brotar um sentimento de união, de comunhão, de libertação espiritual que encanta as massas. Todos compartilhando um momento sublime de extravasamento de tensões nervosas, gritando, cerrando os punhos, agitando bandeiras e suando os rostos, imersos numa multidão de manifestantes explodindo emoções.

Mas não é só esse vulgar frenesi (semelhante àquilo que encontramos em estádios de futebol) que une todas essas pessoas, de forma que as faça sentir uma comunidade, uma fraternidade de irmãos. Estão todos abraçando ou defendendo causas, empenhando-se em estender sua bondade e compaixão àqueles que por eles são reconhecidos como fracos e impotentes (e somente quando alguém é reconhecido como fraco e impotente que é possível tolerarem-no).

Algo que me chama muita atenção em meio a tudo isso é a inevitável primazia dada ao “bem-absoluto”, ao “bem comum”, ao “dever sagrado”, ao “imperativo categórico”, “ao valor de todos os valores”. Em outras palavras, a inevitável primazia dada à massificação.

Esses mais inflamados militantes políticos (ou simpatizantes) se justificam por meio de argumentos e princípios cuja maneira como são usados pouco se difere da forma como fanáticos religiosos utilizam seus mandamentos. Prevalece, entre esses “cidadãos conscientes e responsáveis”, a necessidade de submissão a uma consciência coletiva – e essa obediência, essa autonegação em prol de um “bem absoluto” é considerada a virtude suprema e o exemplo a ser seguido.

Isso cheira a pasto. Pessoas desse tipo estão sempre querendo convencer o outro. Por onde quer que passem, transborda de seus poros uma necessidade extrema de argumentar, de debater e justificar as próprias atitudes segundo códigos de conduta, princípios e deveres incondicionais. Segundo uma moral. Vivem presos à consciência política, para agir, escrever, palestrar e sentir, pois sem se submeterem a tal consciência, estariam agindo sob vontade própria e dessa forma estariam deixando o “dever sagrado” de lado.

Não me agrada esse perfil da maioria dos militantes (sejam eles militantes na prática ou apenas “no mundo das idéias”). Está por trás disso uma vontade de homogeneização de personalidades. E, pior do que isso, nota-se neles uma forte hostilidade para com aqueles que não se simpatizam ou convertem à defesa do bem absoluto abraçado por eles. Virar para um fanático desses e dizer: não concordo com o que você diz, pois penso de outra forma”, já é o suficiente para que uma forte intolerância e hostilidade se revelem. Basta alguém não concordar, e imediatamente tais “soldados do bem absoluto” se põem a, nervosos, argumentar e a julgar segundo o moralismo ao qual são atados.

E por que eles se sentem tão à vontade para julgar quem adotou uma perspectiva diferente? Por que, além de se sentirem tão à vontade para isso, se consideram legitimados para julgar aqueles que não são “seus iguais”? – Porque é exatamente assim que age o rebanho. Os homens bovinos, os cordeiros, são aqueles que dissolvem suas singularidades na homogeneidade. Essa perda da individualidade é considerada por eles uma virtude, pois em nome de algo “superior”, “verdadeiro” e “absoluto”, se reduzem com orgulho à condição de meros instrumentos. Pelo fato de se considerarem mensageiros e defensores da verdade, nem sequer sentem vergonha de exporem tal posicionamento servil ao público a qualquer momento – na verdade, isso é para eles um exemplo que deve ser seguido. Desejam que, assim como eles se reduziram a meros instrumentos, “o outro” e o mundo inteiro se reduzam também a servos do “bem comum”. E, quando este “outro” não concorda em se tornar um instrumento, quando este “outro” não tem interesse em “ser útil à comunidade”, o homem bovino põe-se a bufar, a julgar e a vilipendiá-lo, com a crença de que possui todo o direito de sobrepor seus valores (supostamente absolutos) aos de outrem.

Nós somos o bem; logo, se você não é como nós, então você é mau!” – é isso o que está nas entrelinhas do pensamento da maior parte dos “defensores da igualdade e justiça social”. Portanto, caro leitor, cuidado! Há bondade demais em toda esquina e beco deste mundo… Cuidado com os “homens bons”, eles pioram a vida!…

Seja o que você quiser! – Se tiver dinheiro (e estupidez) suficientes.

Por Crownedvic.

Uma bela mulher caminha pela rua de uma grande e limpa cidade, com chiques óculos de sol e roupas caras e modernas. Logo em seguida, sai de um restaurante um homem, igualmente polido e lustroso, pisando sobre um chão também demasiado limpo, respirando um ar puro conhecido por poucos, esbanjando sofisticação ao tirar do bolso a brilhante chave para seu brilhante carro. Ao abrir o carro, ele olha para a bela mulher, que revela na expressão da sua face um sinal de aprovação. Após essa cena, um slogan toma conta de toda a tela, dizendo algo do tipo: “Seja o que você quiser, tal carro faz a diferença”.

É esse tipo de abordagem que predomina nos comerciais. Poderia ficar aqui escrevendo inúmeros exemplos – que, por sinal, já se tornaram grandes clichês – de propagandas eivadas de narrações apoteóticas e forçosamente carismáticas, como aquelas que costumam aparecer em comerciais de bancos e universidades.

Bom, mas o que me chama atenção mesmo é que quase sempre está presente, como tema central, a idéia de que a felicidade e a liberdade (ilimitadas, por sinal) estão mais acessíveis do que nunca, já que o novo produto mágico acabou de ser lançado.

E os inspirados publicitários não se cansam de colocar imagens de família unida e feliz, com crianças felizes e radiantes brincando nos balanços de um paradisíaco jardim. Imagens de amiguinhos correndo com bóias na praia ensolarada, de crianças boazinhas encontrando estrelas-do-mar na areia, de maridos e esposas comemorando datas especiais, com presentes e todos os já conhecidos ícones que representam realização pessoal em nossa sociedade retrógada. E, para variar, ouve-se a familiar voz de “velho-maduro-pedante” narrando textos sentimentalistas que dizem frases do tipo “Corra, brinque, dance! Não adie o agora!”; “Você já pensou em desistir muitas vezes, batalhou, enfrentou medos como o de cair ao andar pela primeira vez de bicicleta, e agora enfrenta medos maiores, mas isso faz com que se amadureça…”; e por aí vai o comercial que anuncia venda de alegria e liberdade, até chegar ao ponto final no qual se diz o nome do cartão de crédito, do carro, do banco, do refrigerante ou da universidade que proporcionará tamanha plenitude espiritual.

O que mais me choca a respeito disso não é o fato de comerciais tão vulgares existirem, graças a mentes criativas igualmente vulgares e lamentáveis. O que me choca realmente é o fato de que esse tipo de propaganda funciona, e que poucas pessoas têm a capacidade de sentirem profundamente insultadas quando expostas a tão vergonhosas experiências com os sentidos.

Pelo que se pode ver, há um elo forte de ligação entre aquele tipo de comercial, com aquele tipo de abordagem, e o público-alvo, que é quase o mundo inteiro: nas televisões, nos outdoors, nas revistas e onde o capital permitir está sendo anunciado algum produto que proporciona felicidade, liberdade e, o que mais me impressiona, identidade.

Mas, afinal, que tipo de gente se identificaria e aprovaria tanto comerciais cujo tema é baseado na compensação da miséria espiritual e existencial de uma pessoa? – O público-alvo é uma massa miserável, ignorante e manipulada, carente de auto-estima, infeliz, que está quase se tornando consciente de que é escrava (aqui pelo menos há um pequeno progresso!), e que depende principalmente da mídia e da publicidade para conseguir adotar algum tipo de identidade social.

O mais interessante é quando perguntamos por que, afinal, as pessoas do mundo inteiro são tão desgraçadas, e quase ninguém sabe responder. Mas, para quem, desse contingente cego, surdo, massificado e homogêneo de zeros em forma de vida, se sente uma exceção, não é difícil compreender o motivo… Já após nascermos, somos colocados numa pequena gaiola e logo após se inicia o adestramento; e, ao aprendermos a dizer “mamãe” e “papai”, damos nosso primeiro passo na roda giratória da qual nunca sairemos. E não tarde aprendemos a correr, no jardim de infância, nas escolas, nos cursos intensivos e extensivos, sempre rodando a pequena roda giratória, dentro de uma pequena e sufocante gaiola, como um louvável Ramster.

Dedicamos por toda a vida em adquirir títulos, certificados e diplomas, pois dependemos de qualificação profissional para nos mantermos vivos de uma forma economicamente decente. A principal meta das nossas vidas (ou uma das principais) gira em torno de qualificação profissional ou busca por uma vida economicamente tolerável. Nossas histórias são determinadas em sua maior parte por imposições externas, que nos forçam a tomar decisões, fazer escolhas e exercer ações cujos fins são impessoais. E, enquanto tais obrigações aumentam com o passar dos anos, o tempo de lazer e prazer diminui.

Então, afinal, onde se pode encontrar a verdadeira decência? Pois ter uma vida apenas economicamente decente não é ter uma vida decente. Falta ainda alguma coisa… – “Ah, já sei: posso comprar um carro, um tênis, abrir uma conta naquele banco que tem aquela propaganda das criancinhas felizes; bom, acho que podemos ser felizes. E, se eu não ficar feliz hoje, posso comprar outro produto, e mais outro, e mais outro. Afinal, sou um homem contemporâneo de mente aleijada, e produtos fazem a diferença, têm que fazer…”

– Mas não para mim.

Um típico bate-boca entre “Do Bem” e “Do Mal”:

Por Crownedvic.

Do Bem: …Mas, como? Então você está querendo dizer que não acredita em livre-arbítrio?

Do Mal: – Não. Por que acreditaria?

Do Bem: Ué, porque não faz sentido pensar assim! Somos pessoas que fazem as nossas próprias escolhas, e guiamos nosso destino.

Do Mal: – Você acredita mesmo que tem esse poder?

Do Bem:Claro! As coisas acontecem conforme minha vontade. Tenho a capacidade de escolher a direção dos meus atos, e de me responsabilizar com as conseqüências. Sou alguém, não estou solto no vazio, e minha vida tem uma razão para existir.

Do Mal: – Como já disse antes, não acredito em nada disso. Não penso que possuímos livre-arbítrio, que somos seres iluminados evoluindo rumo a algum “estágio perfeito”, ou que temos algum propósito transcendental para nossas vidas.

Do Bem: Então no que você acredita?

Do Mal: – Em relação a isso, que não temos livre-arbítrio algum, e que nossas vidas não possuem nenhum sentido além do sentido terreno e mortal que todos os outros tipos de vida possuem. Ah, e que nós é que inventamos interpretações e classificações com nossa imaginação. Podemos inventar interpretações e sistemas dos mais diversos, mas tudo é irracionalidade e ausência de propósito, no final das contas. E, quanto à “ausência de sentido”, podemos suprí-la com o exercício da nossa criatividade.

Do Bem: Então você acha que estamos aqui à mercê do nosso destino, e que não temos o poder de mudar a trajetória do universo simplesmente porque desejamos? Que vivemos como simples mamíferos?… Mas, e quanto à sua criatividade? Você não é um animal racional? Se você cria o que quer, então isso é livre-arbítrio!

Do Mal: – Não, não é livre-arbítrio. Não é porque “crio o que quero” que tenho livre-arbítrio. Não quero dizer também que acredito no oposto do livre-arbítrio, pois, como vida, participo de alguma forma do conjunto de forças que é a existência da qual faço parte, como você. Bom, pra começar, também não acredito que sou “um sujeito”, que sou um “eu”, ou que tenho alguma “essência” transcendental e divina passeando dentro do meu corpo (como, por exemplo, alma), ou que…

Do Bem (interrompendo aos berros e batendo na mesa):Ah, você só pode ser louco!!! Então você acredita que não tem alma? E o que você é, então? Uma coisa? Um nada? Se não tem alma, se não tem livre-arbítrio, se vive sem nenhuma garantia de recompensa, então você não é gente! Vai pra onde depois que morrer então? Sua vida deve ser um vazio e uma falta de sentido horrível!!!

Do Mal: – Penso mesmo que a vida é um “vazio” e uma “falta de sentido”, mas não penso que seja horrível para mim como você pensa.

Do Bem:Afffff! Você é louco! Falando sério, não acredito que você pense assim. Ninguém consegue viver assim. No fundo, no fundo, sei que você é igual a todos nós. Você quer dizer então que existimos no mesmo nível dos outros animais? Que estamos no mesmo mundo deles, na mesma realidade na qual a vida acontece? Que não fazemos parte de uma “dimensão superior”? Que nossas vidas são tão tolas e inúteis quanto à de um cachorro? Que vamos apenas morrer no final, e que durante nossa curta passagem pela Terra, não temos nenhum “poder especial” de controlar “as coisas”?

Do Mal: – Isso, isso, isso! Não estamos nem acima nem abaixo “da natureza”. E, se não estivermos no “mesmo nível” dos outros animais, pode apostar que estamos num nível inferior, pois nossa espécie é bem mais corrupta – embora penso que isso faça parte da perfeição… Mas, de uma forma ou de outra, só há uma “dimensão existencial”. Ou você esperava que o Reino-dos-Céus (ou o Inferno) estaria te aguardando?… Acredito que tudo é perfeito, aqui na Terra mesmo, e que acreditar em livre-arbítrio é um dos vários sintomas de quem não aceita essa perfeição.

Do Bem:Você é que não aceita a realidade. Pois eu sei o que é a realidade – eu sinto! Minha vida mudou quando passei a acreditar, melhorou muito! Algum dia você vai me entender! Você vai ver!

Do Mal: – Deixa pra lá, não está rolando… Não estamos conseguindo estabelecer uma comunicação, é melhor mudarmos de assunto…

Do Bem: - Viu? Você sabe que há no fundo algo mais especial para nós! Algum dia você vai ver! Irá acontecer alguma coisa com você e então você descobrirá que a vida não é só isso. Somos mais do que seres vivos mortais: somos semi-deuses, pois caso contrário, eu não suportaria minha própria existência! E você, que dispensa esses poderes mágicos, com certeza sofre muito. Mas, algum dia sei que irá se converter para o nosso lado, e tudo então será paz, repouso e mansidão na sua vida.

Do Mal: – Ok, combinado então. No dia em que “eu” descobrir como fazer “o universo” inteiro apertar, a cada instante, o freio-de-mão e, “lá do alto”, olhar para “mim” e gritar: “E então, meu escolhido, o que devo fazer agora por você? O que quer? Para onde todas as minhas pulsões devem apontar? O tempo e o todo pararam só para que sua preciosa decisão seja tomada; estamos esperando por sua palavra. E então, ó meu centro, qual será o próximo passo de toda a existência?” – aí me converterei para o seu hospício.

Do Bem: - Você é muito sarcástico. Ri de coisas que não faz idéia do que são. Algum dia irá se arrepender e pagar caro!… Leia “O Segredo” por exemplo; como já falei, irá mudar sua vida.

Do Mal: – Não, não vou ler essa porcaria.

Do Bem: - Como sabe que é porcaria se não leu?

Do Mal: – Ah! está bem. Vou ler. Agora tchau, não agüento mais isso aqui.

Do Bem:E você não acabou de tomar uma decisão? Quem escolheu ir embora agora? Ninguém?

Do Mal: – Me desculpe, mas não está rolando. Falou, vou sair daqui…

Do Bem:Viu? Eu venci! Hahahahah!!! Eu sabia! Eu sabia!…

Por que não sou alternativo

Por Crownedvic.

 

 

Tenho visto um crescimento da tal denominada “cena independente” em todos os lugares. O grande problema disso é que, por todos os lados, surgem turminhas de jovens “maneiros” montando suas bandas e tocando suas composições de conteúdo duvidoso e, graças à inclusão digital e mais um monte de outras facilidades atuais, gravando seus discos pelo “meio independente”.

Não que eu seja contra essa história do “faça-você-mesmo”, mas hoje as massas têm abusado desse direito. Tornou-se uma moda banal, e está claro que pouca qualidade se sufoca numa enxurrada de porcaria sem fim.

A porcaria de que falo aqui não é qualidade sonora, técnica musical, virtuosismo ou produção e mixagem. Um bom músico consegue fazer música boa com poucas notas e com poucos recursos (não estou dizendo que este é o meu caso, pois não me considero músico). É claro que aprecio um trabalho de produção e mixagem bem feito, mas o conteúdo que critico aqui é o conteúdo ideológico dessas bandas (ou melhor, das pessoas que formam essas bandas).

Termos como “alternativo” e “independente” têm sido aplicados sem pudor algum. Parece não haver mais uma definição precisa para isso; hoje uma variedade imensa de “tribos” ou de “modas” é classificada como parte da tal “cena alternativa”. Mas eu gostaria de saber uma coisa: alternativa em quê?

Será mesmo que para ser “alternativo”, basta vestir uma “roupinha irada” com desenhos indianos, usar uma bolsinha de crochê, ouvir Los Hermanos e Zeca Baleiro e a “nossa” amada MPB, e ler Paulo Coelho e mais uma infinidade de bobagens exotérico-comerciais? Assistir Efeito-Borboleta e se gabar com aquele ar irritante de cinéfilo cult? Pois é esse tipo de coisa que predomina no “cenário alternativo”. Essas pessoas chegam muitas vezes a se denominar “hippies”. É claro que há muitas outras vestimentas “alternativas” por aí – depende de qual for a “tribo” em questão. Há os que se denominam “grunges”, há os “indies”, os “punks”, os “headbangers” e mais um monte de rótulos, que lêem, ouvem e vêem o que for característico do rótulo do qual façam parte. Isso quando conseguem ler, ouvir ou ver algo.

Mas e o conteúdo? Onde está? Será que ser alternativo é isso? Assistir MTV e pensar como pensa um público típico da MTV? Pois é isso que vejo em minha frente quando freqüento lugares “altenativos” em minha cidade. Aquela já ultrapassada mentalidade burguesa disfarçada com maneirismos e gírias “da hora”. Às vezes até penso ter caído dentro do seriado “Malhação”: cada um tem seu estilo e seu swing engraçadinho, contagiante e jovem – Huguinho tem seu estilo rastafari, Zezinho é um skatista, Luizinha é uma gótica, e por aí vai. Meu amado Deus, uma bazooka, por favor!

Mas, no fundo no fundo, não há muita diferença entre esse tipo de gente e aqueles jovens ridículos que costumam freqüentar lojas de conveniência de postos Ipiranga. A diferença é que, nestes lugares, as patricinhas vestem roupas de patricinhas, e não de Avril Lavigne, Pitty ou Alanis Morissete. E os playboys vestem roupas de playboys, em vez de uniformes de hippies-de-boutique, ou de qualquer outro estereótipo “alternativo” de boutique. No final, é tudo a mesma coisa. Ficam lesados o tempo inteiro – pois a vida deles é uma porcaria – e caminham para a mesma direção. As idéias e os fins de todos são ruins do mesmo jeito, mas por vias (mais ou menos) diferentes.

Acho uma pena essa banalização que tem ocorrido. As poucas pessoas ou bandas que possuem o devido conteúdo que faz juz ao termo aternativo (ou deveria fazer) têm suas identidades dissolvidas por tamanha vulgaridade ao redor. São constantemente agredidas ao terem que toda hora ouvir clichês vazios e sem conteúdo algum – aqueles “alternativos” só sabem repetir e repetir frases prontas sem saber o que de fato querem dizer. Dizem o tempo todo: “Abra sua mente”; “Atitude!!!”; … Mas por que então ainda são tão presos, tão cegos e tão burgueses? Repetir frases prontas de Jim Morrison parece ser o suficiente para provocar neles a sensação de que eles realmente são o que dizem ser, mas a verdade que sabemos é que não passam de papagaios. Só que bem mais coloridos e muito mais idiotas. E por isso não sou alternativo. Nem mainstream. Sou de lugar nenhum, e não pertenço a cena alguma.

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