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Homossexuais são normais!

Por Rev. Peterson Cekemp

Eu estava discutindo com uma certa pessoa nos últimos dias acerca da normalidade dos homossexuais. Ela insistia em dizer que eles não eram normais; ficou indignada comigo, a pessoa. E eu dizendo que sim, eles são normais.

O modo como é defendido o ponto de vista contrário ao meu é um só: na natureza, os machos copulam com as fêmeas. Ponto. Isso é normal.

Mas é daí que eu parto. Em primeiro lugar, vamos definir a normalidade: enquanto ela não for aquele assunto estudado na química de segundo ano (a normalidade de uma solução), ele é subjetivo e portanto é totalmente flexível. Por exemplo: minha casa é branca – fato. Minha casa é normal – interpretação. Ponto. Esta cadeira é feita de madeira – fato. Esta cadeira é normal. Interpretação. É o velho (nem tão velho assim) preceito do discordianismo: se você olha para a realidade com uma grade cultural, você vê ordem em certos lugares e desordem em outros. Se você olha com outra, você vê coisas diferentes. Garanto que os gregos (muito melhores que nós, diz o bigode) não achavam o homossexualismo “anormal” - ha, gotcha.

No reino biológico animalia também existe homossexualismo. Há, inclusive, uma excelente matéria da Superinteressante sobre o assunto. Portanto, se você considera os animais de forma geral, o homossexualismo é a exceção, não a regra. Mas veja, há vários outros seres que não realizam reprodução sexuada. E eles vieram muito antes de nós, por que esses motivos não fariam da reprodução assexuada algo mais normal que a sexuada? As minhocas são hermafroditas. Anormais, né? Essa classificação é ridícula. Ou melhor, é normal. Mas não enxergar que ela é só uma classificação qualquer, tolinha como outra qualquer, isso não é legal.

Se você não acredita em algo porque acredita que essa é uma verdade absoluta, que independe da observação humana (o que pressupõe um Deus, note), você a adota por suas conseqüências. Quais são as conseqüências de classificar os homossexuais como anormais? Digo, essa pessoa com a qual eu debati o tema diz que, tudo bem, os homossexuais são normais porque você os aceita – mas não são normais. Ora, muito bem; devemos tratá-los com respeito, mas eles não são normais.

Mas pense bem no que você está fazendo. Eu me surpreendo com a nossa capacidade inata e cega de considerar esses idealismos, e não o indivíduo. Falamos de pessoas sem rosto, é muito fácil falar delas. Mas devemos falar é das pessoas que existem, que sentem, que se importam, e que têm tanto direito de ser felizes quanto nós.

Ora, se você nasce sem uma perna. Todo mundo te trata direito, mas você é anormal. Se você debate o assunto você vê a opinião de todo mundo dessa forma: você é legal cara. Mas você é anormal. Isso é exclusivo, não inclusivo. Isso destrói a pessoa, sinceramente.

Não podemos simplesmente partir do pressuposto de que um homossexual é homossexual porque quer. Não podemos raciocinar nada se não temos uma mínima base pra apoiarmos nossos raciocínios; isso é mau-caratismo intelectual – em outras palavras, não dá pra “achar” alguma coisa e sair pensando sobre isso. Isso é bem típico dos pensadores médios brasileiros, aqueles que não são tão alienados quanto a maioria, mas ainda assim não são tão “profundos”. Eles simplesmente pegam um “achismo” e trabalham com ele. Não é assim que as coisas funcionam.

Se a ciência ainda não “sabe” porque alguém é homossexual, é necessário dar a nossa razão o benefício da dúvida. Pode ser por isto, mas pode ser por aquilo. Eu, pessoalmente, acredito que é por uma miríade de fatores – não em conjunto; apenas digo que são vários e pode ser qualquer um. Violência sexual por parte dos pais. Desilusões amorosas. Vontade de experimentar. Pré-disposição genética. Prazer. Sei lá. Realmente não me interessa o motivo, interessa é: o que eu tenho a ver com isso? Por que eu deveria me importar com gays casando? Desde que não casem comigo, eu não tenho nada a ver com a vida deles. Se eles são felizes assim, casem-se, fiquem juntos, whatever. Se a vida é curta demais pra aprender alemão, por que ela seria longa pra se preocupar em impedir que pessoas supostamente anormais casem? Isso é uma coisa pequena de se fazer, eu acho.

Se um homossexual nasceu assim, e você o classifica como anormal, você está envenenando a vida dele, sinceramente. Destruindo. Você aí, que de repente me lê com aquela cara de “eles são anormais sim”, ponha a mão na consciência. A sua vida toda você fez alguns amigos aqui e ali, seus pais têm um carinho “normal” por você, mas a todo lugar onde vai você sabe o que as outras pessoas estão pensando: anormal. E não precisa nem dizer; na verdade, depois de um certo ponto o fator “os outros” não é mais necessário. Se todo mundo fala pralguém que ela é anormal, ela acredita. E ela passa a se agredir por dentro com isso, se machuca intelectualmente ao classificar a si própria como anormal. Isso destrói a auto-estima, e se você parte, novamente, do pressuposto de que a vida é curta – e que não volta – você desperdiça uma existência que poderia ser tão boa com… Merda. É isso, desculpem a palavra, mas esse pensamentozinho de “respeito tudo bem, mas é anormal” é um pensamento de merda.

E que a pessoa que debateu comigo não leia isto. Afinal, ignotum per ignotius. Não dá pra ensinar uma coisa a alguém que acha que já sabe.

Contra a punição

Por Rev. Peterson Cekemp.

Há algum tempo, no post “Responsabilidade natural e artificial”, esbocei, mesmo sem saber, aquilo que agora se transforma na minha crítica à punição.

Tomei consciência de que sou contra a punição pouco antes de ler o livro “Aurora”, de Nietzsche. Depois que li fiquei um pouco frustrado, é verdade, porque descobri que ele mesmo já possuía essa idéia. Mas tudo bem. Vou procurar expor meus argumentos nesse post.

Se uma pessoa faz mal a você, o que você faz? Você faz um mal a ela, porque isso é justo. Você pode ser um bom cristão e dizer “eu ofereço a outra face!”, mas meu amigo, se você acredita que o Inferno é um lugar onde as pessoas más são punidas, então o que você apóia é a idéia de que se deve causar um mal a quem faz mal, invariavelmente. Ou nem precisa ir tão longe, se você é desses cristãos que adora montar a religião como se fosse um sanduíche da Subway, eu posso te perguntar se você concorda com o sistema penal. Posso te perguntar se você acha justo prender alguém se esse alguém comete assassinato, ou roubo, ou outro crime qualquer. Acha? Então tá, continuemos.

No livro “A Genealogia da Moral”, Nietzsche se pergunta: quando, onde, por que diabos existe a noção de que um dano sofrido deve corresponder a um dano causado? Nos jornais, principalmente no jornal regional que assisto no meio-dia com certa “regularidade”, há muitos casos de roubos, seqüestros, assassinatos. Os parentes das vítimas clamam por justiça! Os discursos deles geralmente estão aos moldes de “tem que haver justiça, esse cara tem que ser preso!”. Humm… Vejamos:

Se eu mato um parente ou um amigo seu, você pode a) querer me matar imediatamente com as próprias mãos, ou b) ligar pra polícia pra que eu seja preso. Um as pessoas costumam chamar de vingança; o outro, de justiça.

Mas qual é a diferença entre vingança e justiça? Nenhuma – essa é a resposta. As duas partem do mesmo pressuposto: se você sofre um dano, o que se tem a fazer é causar um dano àquele que fez o primeiro dano. O mecanismo básico é esse, sem exceções.

Há pessoas que poderiam argumentar diversas diferenças, mas elas não eliminam o fato de que o mecanismo é o mesmo e os dois funcionam por causa desse mecanismo, mesmo com as sutis particularidades. Alguns argumentam que a justiça está do lado da lei. Argumentação fraca, a lei é apenas um consenso; não existe ciência que determina que prender alguém é “mais justo” do que matar em determinada situações, ou experimento que defina como “mais justo” 5 ao invés de 4 anos de cadeira pra determinado delito. Outros argumentam que a vingança é cega e subjetiva; a justiça procura julgar o dolo daquele que comete um crime. Sim, é verdade, mas a partir do momento em que o dolo é comprovado, a vingança e a justiça perdem as diferenças mais uma vez. A justiça acaba sendo justamente como Nietzsche a definiu: uma troca. Dano causado por dano sofrido.

Prossigamos. No aforismo 15 do livro Aurora, Nietzsche escreve que em cada mal-estar e infortúnio que acontece a uma pessoa, ela vê dois consolos: o primeiro é causar mal a alguém, já que isso a lembra do poder que ainda tem, e isso a consola; o segundo é pensar que o mal que ela sofre é na verdade um castigo; que ela merece isso, que é culpada. Essa é uma boa psicologia, inclusive, para explicar a presença de pessoas castigadas por uma vida miserável / pobre em igrejas: durante muito tempo sofreram e tiveram a sensação de poder reprimida, e então se tornaram inofensivos, desistindo de tentar exercer seu poder sobre as pessoas, porque agora se encontraram no cristianismo, religião que diz que as pessoas já nascem pecadoras.

Há ainda outro lado da justiça das prisões e da segregação da sociedade (na forma de execução, até), a ser considerado: o de que as pessoas são presas porque são perigosas para a sociedade.

Em geral, grande número dos presos e executados “perigosos” foram politicamente perigosos, pessoas que se importavam com a verdade e ergueram a voz contra os poderosos – o que torna a punição algo detestável – mas ainda há mais um lado: os assassinos. As pessoas têm medo de que, soltos, eles possam cometer mais assassinatos.

Entretanto, Nietzsche também combate essa falácia da cognição moral em outro aforismo; nele, ele comenta que baseados em uma experiência ou em uma ação da pessoa, deduzimos que tal pessoa possua uma essência que é própria daquela atitude. Pior do que isso, tornamos essa pessoa alguém de caráter imutável e absoluto, de forma que ela é só aquilo que ela mostrou quando cometeu o crime e não, ela não pode ser diferente… Ora, é um terrível engano tirarmos tantas conclusões de apenas um ato!

A idéia das prisões é a de que elas devem separar o perigoso das pessoas comuns, mas temos uma noção errada do que é “perigoso”, ou então temos uma noção preconceituosa do que é “perigoso”; a idéia iluminista da recuperação do preso foi abandonada e subvertida no sistema punitivo que ela é hoje.

Nietzsche, no extenso aforismo 202 de Aurora, dá uma idéia sobre como deveríamos tratar os criminosos, aqueles que causam um dano a alguém: como um doente… Nessa analogia, não devemos nos vingar dele, mas sim tratá-lo. Devemos dar oportunidade e liberdade a ele, pra que ele possa reconstruir sua vida, devemos mostrar a ele o mal que causou e oferecer a ele uma nova chance. Dessa forma construímos um novo homem, fazemos com que ele supere seu passado e assim contribuímos para com ele. Um dano sofrido pago com um bem causado… Se fosse pago com uma dor causada, isso só multiplicaria a dor no mundo, não faria dele um lugar melhor, nem do criminoso uma pessoa melhor, e nem faria alguém feliz.

Voltando à questão da punição como consolo: hoje vivemos em uma sociedade de aparências e sintomas, onde o externo é valorizado muito mais do que o essencial, de forma que todo e qualquer essencial acaba se transformando em aparência pelo sistema, porque aparência pode ser comercializada – na verdade, pode ser contabilizada… Vivemos com uma cultura que privilegia o remédio e as medidas paliativas, não a cura – aprendemos a lidar com os sintomas, não com o problema da questão.

As escolas nos passam conhecimento, mas a grande maioria deles é inútil. Nenhuma escola nos ensina o que, agora, considero o principal: nenhuma ensina a lidar com a dor. Nenhuma ensina a lidar com a frustração. Ou você acha que coisas como “o importante é competir” colabora para fazer com que alguém lide com a própria frustração?

Somos ensinados subliminarmente, através de toda a nossa convivência prática e de toda a cultura que ingerimos e fazemos as crianças ingerirem, a lidar com nossos sentimentos ruins de maneira a remediá-los; uma fuga do real problema, uma fuga da realidade e uma vontade de esquecer os problemas, jogá-los no fundo de um baú e esquecê-los lá. Desse jeito, frente à tristezas e dores, ficamos com as dores aos outros, com a idéia do castigo e do martírio pessoal, que destrói o amor próprio no meio de uma teia de culpas imaginárias, ou então ficamos com a resignação e aceitação passiva e vitimal da dor, uma desistência que nos leva quase à depressão.

E Nietzsche surgiu com uma idéia trágica de vida, e eu com a minha idéia completa de vida no Seminovosofia (que dá no mesmo), onde a dor e a tristeza fazem parte da vida e é preciso saber conviver com elas, gostar delas, porque elas inevitavelmente vão acontecer, mas o modo como lidamos com ela piora o homem ao invés de melhorá-lo. Não se trata de dar a outra face, trata-se de batalhar contra elas quando elas surgirem. O que se faz hoje é criar leis pra impedir que elas aconteçam ou apagar seus sintomas.

Resumindo, vingança e justiça são a mesma coisa, e essa é uma maneira superficial de lidar com nossas dores e tristezas – fugindo delas, e, de quebra, piorando a humanidade. Devemos sim é dar uma chance pra que as pessoas melhorem, pois a desconfiança gera desconfiança e a dor causa a dor.

Pra finalizar, o filósofo alemão que me apóia nessa:

Durante milênios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: inesperadamente qualquer coisa correu mal, e não eu não devia ter feito isto… Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do ato, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos… Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna melhor… Mais razões haveria para afirmar o contrário (aprende-se com os erros, diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior…, mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).

Nietzsche, em Para a Genealogia da Moral

Pra complementar.

Aquele ali é opcional. Este aqui é pra com-ple-men-tar. MESMO.

Impérios vão e vem: esse é o Brasil que queremos?

Por Rev. Peterson Cekemp.

Uma vez eu cheguei muito perto de abordar esse assunto; talvez eu o tenha abordado, mas não por essa denominação, no caso… Mas vamos lá:

Já repararam como diversas interações nossas com alguns elementos da vida contemporânea nos faz ter um comportamento esquisito em relação ao nosso presente? Nós somos tão conscientes e acerca do nosso momento, analisamos tanto o nosso instante e, por vezes, planejamos tanto o nosso futuro, que não conseguimos viver nossa vida de uma forma mais intensa ou até mesmo da forma como a desejamos.

O homem deslumbra-se com a história, talvez tenha uma ponta de orgulho de seu progresso; o ser humano talvez tenha orgulho por poder ser orgulhoso do caminho que trilhou, apesar dos tropeços. Mas repare: os homens que faziam a revolução francesa não pensaram em fazer a “revolução francesa”. Isso é apenas uma denominação histórica posterior, muito posterior à época. Mas o que acontece conosco, nós que recebemos uma impressão tão organizada e segmentada da história, da história de qualquer coisa, aliás, não só a do mundo - e a estudamos tanto? O que acontece conosco? Acontece que sempre que fazemos alguma coisa, pensamos historicamente, e sentimos o peso da história, um peso desnecessário e ridículo à sua maneira; como alguém acima do peso que consegue resistir à tentação de comer um chocolate; logo imagina-se a grande heroína da revolução que fará em sua vida… Logo ela come outro chocolate, e ilude-se por seus planos despedaçados.

De qualquer forma, presto atenção ao nosso instante na TV brasileira: estamos no meio de uma revolução, a digital; sim, é verdade, e todos anunciam isso, mas você sentiu qualquer diferença? Todo o burburinho sobre a TV digital se resumiu a explicar para o leigo o que ele tem que fazer pra ter acesso a ela… Uma cerimônia de abertura, alguns programinhas aqui e ali, e pronto, acabou. Não sinto revolução alguma.

Mas há mais: a disputa da Globo contra a Record. 2008 vai ser um ano importante: desde o fim do ano passado, pelo que ouvi falar, a Globo amarga derrotas. Algumas pessoas são contra a Globo porque tacham-na de “do mal” - coisa que, tenho que concordar, faz um pouco de sentido sim. Aqueles que gostam da Globo pela superior qualidade de seus programas em relação aos adversários começa a mudar de opinião; é verdade que o SBT continua uma porcaria, a BAND sempre foi uma droga, e a Record sempre foi esquisita, mas de qualquer forma a Record tem O Aprendiz… Que conquistou muitos corações globais, não? E as novelas ficam cada vez melhores. Aos poucos o público se acostuma com a nova liderança… Será?

Mas a questão é que, no meio da revolução, ela não parece uma revolução, não é? Pensamos historicamente mas não sentimentos historicamente. Ninguém sente que aos poucos a Record está ganhando espaço. Eu disse sente. Você sente? Eu não. Eu ouço falar aqui e ali, mas a Renata Sorrah na novela das oito (atua mal…), o Pedro Bial, o Video Show, a Xuxa (se aposenta, querida!), tudo isso dá a impressão de que nada mudou e nada está mudando.

Mas é bom ficarmos atentos: a Record é do Bispo, e por mais que agora ela esteja a favor da legalização do aborto, isso é perigoso, mui peligroso. Todos inocentemente começam a ver que talvez não só a Globo produza qualidade; talvez ela não seja mais a mesma, não é? … Mas cuidado. Ninguém para pra pensar nas conseqüências de transmitir essa confiança do Ibope à Record; se em todo o meio de comunicação existe parcialidade, então a Record é um péssimo lugar pra que a fama se hospede. Talvez um dia ela se revele ainda pior do que a Globo.

É bom percebermos que, sim, talvez estamos num momento decisivo. É bom termos cuidado. Se a Globo é ruim, a Record pode ser pior. É hora de nos perguntar se, se não queremos um país tão influenciado pelo William Bonder, queremos ou não um influenciado pelo Tom Cavalcanti…

Power Rangers

Por Rev. Peterson Cekemp.

O monstro dos Power Rangers é um péssimo exemplo de “problema” a qualquer um que esteja com o cérebro em desenvolvimento. Enquanto o “Mega Zord” prepara alguma espécie de “ataque final” – que varia entre uma espada, um raio laser, até um míssil – o monstro fica lá, parado, como um perfeito idiota, agitando debilmente as mãos e grunhindo pra lá e pra cá.

Assim, tudo parece tão fácil de resolver…

Sexo e Mar

Por Rev. Peterson Cekemp.

Um teste psicológico que fiz há muito tempo (acho que era de Jung) assaltou a minha mente faz algum tempo. Nesse teste, a pessoa deve dizer o que acha do mar. Deve dizer o que acha de outras coisas também, mas enfim, não importa agora. Depois a pessoa descobre que a opinião dela sobre o mar é a mesma que a opinião sobre sexo.

“Isso é ridículo!”, eu penso, “Não existe nenhuma relação entre sexo e mar!”. Quer dizer, sempre existe uma relação possível entre duas coisas quaisquer, mas nesse caso nenhuma relação é óbvia – pra estabelecer a relação é necessário empenho racional, logo… Então, onde está o truque?

Eu não sei. Eu não li Jung, mas acho que ele não faria uma brincadeira nesse sentido, algo como “Sexo e… Rios… Não, não, lagos… Pia? Não, pia é ridículo… Mar! Sexo e mar, é, é isso aí…”, e colocasse desse jeito num teste psicológico, pescando qualquer coisa comum.

E veja como isso tudo é suspeito: se alguém nunca viu o mar, se baseia apenas no que lhe contaram ou sobre o que ele fantasia sobre o mar. A opinião sobre o mar de alguém que nunca viu o mar, como ela será aplicada ao sexo? E se a pessoa nunca nem transou nem viu o mar, então as duas coisas estão em harmonia, pois predomina a fantasia e experiência alheia. Mas, e se a pessoa fizer sexo antes de ter a oportunidade de ver o mar? A opinião dela sobre o sexo influencia a fantasia sobre o mar? E o contrário? A opinião sobre o mar influencia a fantasia sobre o sexo?

E se, tirando a ética do caminho, criássemos um “humano em cativeiro”, dando-lhe toda a informação e a cultura comum, só que em ambos os casos, sem nem mencionar a idéia ou a palavra “mar”… Se déssemos a oportunidade para que esse humano fizesse sexo… E depois introduzíssemos o conceito de “mar”. Qual seria a fantasia do humano em relação ao mar, antes de experimentá-lo? Com adjetivos iguais às do sexo? Ou iguais às da fantasia pré-sexo (supondo, portanto, que pré-mar = pré-sexo)? E se ele experimentasse o mar e tivesse uma opinião totalmente diferente da do sexo? Ok, estou invertendo a ordem da sentença do Jung. Então… E sobre as crianças? É certo que há, em todo ser humano enquanto máquina de sobrevivência, a noção de sexualidade, não importa a idade (Alô Freud?), e o que dizer sobre essa relação mar-sexo nas crianças? A opinião delas sobre o mar representa a opinião futura (adulta) sobre o sexo, impressa já em seus genes / tipo psicológico, ou representa a opinião atual sobre sexo?

Outro pensamento alavancado: crianças mais expostas ao mar (e gostando de ali estar) gostam mais de sexo – ou da noção de sexualidade, seja ela qual for – ou gostarão mais de sexo quando forem adultas? É possível que alguém faça mais sexo se passar a viver mais próximo do mar, ou a gostar mais dele? A mais importante: se a opinião sobre o mar muda, o que acontece com a opinião sobre o sexo?

Crianças que são criadas junto ao mar, sabem nadar eficientemente e tudo o mais, essas se divertem no mar – elas sentem menos perigo. Quanto mais envelhecem, vão tomando mais cuidado com o mar, aprendendo a levá-lo a sério. Com a sexualidade não acontece exatamente a mesma coisa na revolução criança-adolescente-adulto? Será que é porque a relação com o mar muda? Será que é ao contrário, a relação com o mar muda porque a relação com o sexo muda? Ou será que a relação com o mar muda porque, com o tempo, a pessoa vê os estragos que podem ser causados pelo mar, enquanto que o mesmo ocorre independentemente com a sexualidade, fazendo disso uma coincidência temporal?

E se a pessoa tem trauma do mar, como ela reage ao sexo? Isso não seria apenas uma coincidência, de modo que se a pessoa tiver trauma a qualquer outra coisa o sexo também não seria afetado? E se a pessoa conhece apenas o mar sujo do lugar onde vive, e não gostar do mar por isso? O que isso tem a ver com o sexo?

Talvez seja só uma coincidência muito curiosa. Talvez Jung estivesse brincando. Talvez… Se havia algum motivo pelo qual eu não gostava do mar, vou reavaliá-lo…

Brincadeira.

Mas… Sei lá né…

O Salto de Fé e o mundo injusto

Por Rev. Peterson Cekemp.

“Confie em mim”, diz a voz com a qual todos nós já nos deparamos. “Eu sei que isso não parece real / certo / lógico, mas, por favor, confie em mim”.

Essa é a voz da fé. Acreditar naquilo que contraria o que se tem por certo, por lógico. O problema da fé é que ela, como aponta Kierkegaard, é um tanto quanto necessária. Nossa biologia limita-nos; não temos todas as informações, e escapam a nós todas as relações possíveis entre elas. Logo, além do que se pode saber há a fé. Até certo ponto, há conhecimento. Depois, há apenas escolha.

Mas quais são as conseqüências da fé?

Em primeiro lugar, retire fé do contexto religioso – não é desta fé que eu estou falando. Sobre isso falarei num futuro próximo, um post que se seguirá a esse. Em segundo lugar, eu me recuso, por falta de vontade, espaço num post de blog, estudo e reflexão, a debater o assunto extensamente, como ele merece ser debatido. O que eu quero é mostrar como o mundo é injusto. Ou simplesmente caótico.

Porque, veja bem… Uma amizade. Ou até mesmo uma relação amorosa. As atitudes da outra pessoa para com você demonstram os sentimentos dela, mas o nosso conhecimento é limitado demais. É preciso ter fé nos sentimentos da outra pessoa.

Mas os problemas começam quando as atitudes da outra pessoa contrariam isso. Ela fala e você acredita em seus sentimentos, mas ela toma atitudes que vão à direção contrária! E então, acreditar ou não?

Agora que o problema está apresentado, continuemos.

Na maioria das histórias, dos contos, dos romances, há um momento onde é necessário para algum personagem nadar contra a corrente da lógica, sem nenhum lugar onde se apoiar – ou alguns poucos e frágeis – e o problema é que a realidade é por demais caótica, e há uma chance de que o bizarro e o improvável aconteçam.

Mas a questão é: como a sorte do universo pode premiar uma pessoa por ela ir contra toda a lógica e o conhecimento? É como dar um iPod pro estudante que tirou a pior nota da sala. Em uma cultura recheada de histórias onde a fé e a esperança contam mais do que o conhecimento, estamos criando pessoas ignorantes, que valorizam mais uma intuição boba do que a capacidade de raciocinar.

Mas, ao mesmo tempo, não estariam os burros inflados com coragem? Bem, aí depende. Se a fé é tanta que não há sequer medo de estar errado ao contradizer a mente, então essa coragem não tem valor algum. De que adianta a coragem, se ela não for o fruto da mais intensa das batalhas entre a vontade e o medo?

Nesse caso, quando a pessoa conhece a lógica de uma situação e ainda assim a contradiz, ela está sendo corajosa, não? Idiota, claro, mas talvez sua vontade seja superar, vencer, entortar a lógica para seu desígnio. O teorema de Thomas (em inglês) pode explicar porque esse tipo de fé pode triunfar.

A minha opinião sobre a última frase deste último parágrafo, é bom ressaltar, é a de que a fé pode triunfar e inverter situações conceituais, abstratas, mas não materiais. Falo isso antes que alguém venha dizer que a fé move montanhas, no sentido literal.

É, amigo, o universo é caótico demais… Pense bem antes de aceitar o convite da fé – essa fé do dia-a-dia, nos amigos, nas situações, nas possibilidades… “Confie em mim”, ela diz. Saiba que não há razão pra fazer isso. A escolha é sua.