Consultei-me com um Psicólogo

13 novembro, 2009 at 9:47 pm (Peterson Espaçoporto) (, , )

Não, é brincadeira, não foi bem isso. O psicólogo lá do colégio, o Valmir, nos acompanha desde há muitos e muitos anos, então pra nós é uma figura que vemos mais como um amigo, alguém com quem podemos contar do que necessariamente um psicólogo. Mas é verdade que hoje fui conversar com ele, em virtude de certas coisas que andam acontecendo que não andam me fazendo muito bem…

Há alguns meses – mais precisamente durante o vestibular suplementar da UFSC – eu comecei a ler A Crítica da Razão Prática, de Kant, mas acabei parando na metade pra reler o capítulo sobre ele no Mundo de Sofia e ler o maior número possível de textos sobre ele na internet. Infelizmente estes últimos textos não ajudaram muito, já que são escritos da mesma maneira enfadonha e exageradamente complexa. De boa: ler Kant é um saco. Não sei quanto ao alemão, mas em português traduzido é.

Bom, demorando-me todo esse tempo num único livro – mais precisamente em uma única página – e dividindo meu tempo com várias outras coisas importantes, parei no tempo com relação aos livros que ganhei no aniversário do ano passado, e mesmo com os que ganhei ao curso desse ano, e nesse feriadão (esse texto, como você pode ver nesse trecho, começou a ser escrito depois do dia 7 de setembro e foi sendo revisado…) consegui ler um livro: O Carrasco do Amor, do Irvin Yalom.

Eu esperava que ele fosse bom. Ele escreveu Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer, e, embora tanto eu quanto Ibrahim tenhamos achado que o Bigodón estava muito “bundão” no primeiro livro, são leituras MUITO fodas. Não são best-sellers por acaso ou por serem auto-ajuda barata, mas sim porque foram muito bem escritos e são livros riquíssimos. O cara é foda, e isso só se confirmou pra mim nesse livro.

O livro conta com uma introdução que é muito, muito boa. Se eu não gostasse dos contos, eu pensei, pelo menos a introdução valeria à pena. Mas não foi preciso me agarrar às poucas páginas inicias; os contos são incríveis, bons demais. Te deixam pensando numa série de coisas…

Pelas palavras do próprio psicoterapeuta, todos são pacientes em potencial – todos enfrentam, resumidamente, conflitos originados em quatro problemas existenciais (sendo eles a inevitabilidade da morte, a liberdade (oi Sartre, você por aqui!), a solidão inerente à condição de existência e o sentido da vida). Os pacientes que se tornam realmente pacientes, em um consultório e tudo o mais, são apenas aqueles que não conseguem, por vários motivos que vão sendo desconstruídos ali, lidar com esses problemas de maneira razoável. Mas o que é particularmente impressionante de se notar mesmo é o quanto o próprio psicólogo é afetado pela terapia – quantos deles fazem terapia!

Eu tinha uma impressão um pouco negativa de psicoterapia, pra ser bem sincero. Não necessariamente de psicólogos, embora uma coisa puxe a outra. Mas tanto o livro quando essa experiência conversacional com o Valmir me fizeram ter uma visão um tanto diferente das coisas. Essa minha impressão ruim vem, pra começo de conversa, da heterogeneidade da profissão em termos de métodos; ler o blog do Fernando Ganso, por exemplo, me lembra (não por causa do Fernando, mas sobre quem ele escreve às vezes) o quanto psicólogos e psiquiatras podem funcionar como guardiões de certa sanidade mental – aqueles que estão ali pra confirmar que há coisas que você sente e faz que estão erradas e que precisam ser corrigidas por causa de um determinado padrão de normalidade. Depois, há também a questão dos remédios e o quanto essa cultura farmacêutica é verdadeira – o próprio Irvin comenta que um recurso muito usado quando o psicólogo não está “dando jeito” no caso é simplesmente mandar o paciente tomar remédios. O quanto isso é repugnante? Mas também, se pondo no lugar do psicólogo, quão frustrante e cansativo é um caso sem sucesso depois de muito tempo?

Tem também o fato de que a depressão se tornou um tipo de moda. O que exatamente é a depressão? Hoje em dia, é nada. A adolescente briga com o namorado e pimba, depressão. Meu time foi rebaixado e pimba, depressão – tá bom, eu vi exemplos menos passíveis de escárnio, mas vi gente também organizando festas e comentando normalmente sobre seu quadro de depressão. Depressão e festas? Sei lá, alguma coisa não se encaixa nisso… E quando se tem depressão lá se vai, quando há dinheiro sobrando (ou quando não há também) se consultar com o psicólogo. Ah, eu vou fazer uma terapiazinha por umas semanas, sabe? Saber o que eu tenho de errado. Tomar umas m&ms sem gosto pra me sentir melhor.

Aliás, há alguns dias eu venho pensando em certas palavras e em como, depois de um tempo, elas se tornam um pouco… Sei lá, um pouco ridículas de serem usadas. Palavras que eu vou tentar abolir do meu vocabulário. Trauma, por exemplo. Quando eu era criança eu fui picado por uma abelha enquanto eu brincava com um carro de controle remoto na varanda de casa – casa como sendo o meu apartamento antigo. Eu nem tinha visto a abelha. Na minha concepção, eu não tinha feito nada de errado pra ela. Quando começou a arder pra caralho a mãe foi lá e sei lá o que ela fez pra tentar tirar – acho que começou o “procedimento” passando álcool, mas não me lembro direito – mas lembro que o ferrão quebrou e metade continuou lá dentro, enfim, uma merda.

Desde então ao longo do ensino fundamental sempre que me encontrava com uma abelha – no colégio onde estudo isso é particularmente irritante no verão; milhões delas por todo o canto – eu fugia dela, deixava bem claro que tinha medo dela, porque tinha trauma. Trauma, trauma, trauma, não quero ver abelhas na minha frente.

Tirando toda a questão da formação da identidade ao longo do ensino fundamental há muito tempo que comecei a refletir sobre essa atitude. Ela é tosca. É como alguém que vê um copo de água claramente livre (e geladinha ainda por cima), está com sede, mas não vai lá tomar. Sei lá, a analogia parece idiota, mas é essa a imagem que me vem à cabeça pra ilustrar isso. Depois de um tempo eu não sentia mais medo real de abelhas. Eu não me sentia realmente impelido a correr dela. Hoje em dia eu me sinto levemente desconfortável perto de uma – nada de muito diferente de quando eu encontro moscas, besouros ou qualquer outro inseto – acho todos irritantes, mas não tenho medo deles. Ou seja, durante muito tempo eu “fugia” de abelhas e socialmente me declarava como uma pessoa traumatizada porque eu acreditava que eu tinha este problema e que eu tinha que ter esse problema. Ainda hoje é possível que alguém, ao ver uma abelha perto de mim, fale algo como “calma, Pet, ela não vai te fazer nada, etc” – eu não fiz esforços pra contar pra todo mundo que não tinha mais nada a ver, simplesmente ignoro. Acho que talvez isso tenha mostrado através de ações que não tem mais nada a ver…

Trauma, depressão, terapia. Coisas que tantas pessoas têm / fazem (principalmente quando têm todo o potencial pra não ter nada disso) sópor fazer, porque de alguma forma acreditam que precisam disso…

Minha outra ressalva contra psicoterapia se concentrava justamente nos fatores amor-próprio e amizade – ou sei lá como deveria chamar isso. As pessoas, e é um sentimento não só meu, mas de muita gente, deveriam ser mais conscientes, ou, em palavras que resumiriam mais as coisas, que a filosofia e um olhar auto-crítico não deveriam ser tão negligenciados. Não me vejam como alguém que aponta o dedo e diz “oh, vocês fazem tudo errado!”. Não existe auto-crítica, auto-consciência constante – aliás, Éris nos livre disso, pois seria uma merda! Existe um certo balanço pessoal, que deveria assumir certos valores pra um lado ou pra outro dependendo do julgamento da própria pessoa em relação à sua situação. Mas, em geral, quase nem há julgamento pessoal… Muita gente está perdida, e eu me recuso a acreditar que nós somos perdidos por definição – as pessoas estão perdidas e, mais importante que isso, foram perdidas – a cultura, a educação formal, o sistema social, tudo isso é uma bagagem que atrofia cruelmente e intencionalmente essa nossa sensibilidade.

Outra coisa, dentro desse meu último argumento, é a questão dos amigos. Pensava “hey, se a pessoa não alcança ainda essa capacidade de auto-examinação, ou não tem a coragem para tal e etc, será possível que ela não tem amigos? Ninguém com quem possa conversar e ninguém que queira ajudar que não seja por dinheiro, que não seja por obrigação profissional?”. Essas ideias negativas a respeito da psicoterapia foram diminuindo bastante através das experiências contadas no livro.

As pessoas que realmente precisam de terapia estão mergulhadas em um problema – problema para elas, de forma que não se trata nem mesmo de um julgamento sobre quem tem problemas e quem não tem – de forma tão profunda, empregando neles de alguma forma tanta energia (expressão que é usada com frequência no livro) que perdem a vida social, digamos assim, não fazendo contato com significado suficiente com pessoas para que tenham amizades. O psicólogo, esquecendo da parte da profissão e do fato de que são pagos pra isso, seria aquele que está lá, disponível, pronto para ser alguém em quem confiar quando não há mais ninguém. Será o último retorno em uma longa e solitária avenida destinada a um buraco do qual não vão mais conseguir sair.

Além disso, embora eu acredite com certo grau de determinação que um “verdadeiro amigo” não negaria ouvir e compreender um problema da pessoa, existe sempre o medo de o que pode surgir na outra pessoa ao se abrir totalmente pra ela. Se o psicanalista já é influenciado pela relação que tem com o paciente, imagine um amigo, uma pessoa comum. O psicólogo está lá não só como aquele que quer te ouvir e fazer o melhor por você, mas também como aquele que não tem uma relação prévia pra estragar e aquele que não pode, por ética profissional, contar o que ouve sobre você pra ninguém. Se os amigos jurassem segredo estariam presos por ética pessoal. Talvez porque os psicólogos sejam pagos haja uma sensação geral de que a ética profissional é mais segura do que a pessoal… Vai saber… Mas, além disso, há algo de muito bom em poder contar pra alguém totalmente fora da sua realidade do dia-a-dia um problema. É interessante, é, digamos assim, libertador, até.

Duas coisas interessantes de falar sobre o livro, por fim, são as suas observações sobre o isolamento e a liberdade existenciais. Ele fala sobre a “fusão”, o desejo de se tornar um ‘nós’ ao invés de ‘eu’ para perder a auto-consciência. Isso é muito interessante de se dizer. É interessante perceber essa coisa que temos de, quando menos percebemos, estamos trocando os nossos pensamentos e nossas ações pelos de um grupo, de uma ideologia.

Veja, não há nada de intrinsecamente errado com isso. Trabalhos em grupo, cooperação, é disso que se trata: pessoas que têm um desejo em comum e que se unem pra ficar mais fortes, produzir mais em prol dessa meta. Todos os problemas com trabalhos em grupo acontecem, se você analisar bem, porque as pessoas começam a colocar os próprios interesses no meio da jogada – ou seja, contrariando a lógica do trabalho em grupo. No entanto, é uma iniciativa que pode dar errado por vários motivos: se valer da parte que ocupa no grupo para essa “fusão” da qual o psicólogo tanto fala, negando a individualidade – com o intuito de chegar à negação da própria responsabilidade, fazendo com que suas ações sejam cada vez mais resultados da força externa que é a influência dessa função que ela exerce em relação ao todo. Falando em fusão, e a paixão romantic-old-school-i-need-you-so-much? Duas pessoas que precisam uma da outra. Eu não sou o primeiro e não serei o último a acreditar que isso não é exatamente a melhor coisa do mundo…

E então chegamos à questão social: estamos inseridos em um grupo social, inevitavelmente. Só penso, assim por cima, só conjecturas, que o impulso maior para a qual a sociedade deveria ser estruturada é a independência, o individualismo – não pra que isso inviabilize um modus operandi em grupo, mas que isso aconteça de forma espontânea, e não a priori.

Tem ainda a questão da liberdade incondicional, de que somos responsáveis por o que quer que façamos – e sim, isso é verdade, e ainda mais se considerarmos uma verdade útil. Como diz Yalom, não há cura possível se a pessoa acha que o problema de ela ser como é vem de fora, e não de dentro. O que ela pode fazer sobre as coisas que vem de fora? Contudo, acho algo muito simplista: você é responsável por ter feito X, mas se não tivesse feito X haveria uma consequência pra isso. Mas seria essa uma consequência artificial ou natural?

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Sem Data

30 junho, 2009 at 5:23 am (Peterson Espaçoporto) (, , )

<conto>

Ele colocou as malas no chão e respirou profundamente. É um novo dia; o começo de uma nova era, praticamente uma revolução em sua vida. Não fosse ali, naquele, diga-se, solo propício, onde mais seria? Um tempo novo. Mas nada de festas pra isso; novo sim, mas comum, como os outros, como um qualquer.

O jovem, lá pela metade dos seus vinte, ficou a inspecionar o apartamento. Era tudo muito bem limpo e cuidado; nada ali cheirava a lembranças, nada ali podia fazer com que sentisse saudades de alguém. E era justamente por isso que tinha se mudado para ali, um lugar onde as memórias não lhe fariam mal.

Apesar de ser vista como soturna e pacata demais, ele achava a vila dos sem-data simpática e aconchegante. A vila era uma ilha de paz e tranquilidade, numa visão geral, em relação ao resto da grande cidade.

Era composta por duas ruas, pequenas, em que as pessoas não se espremiam apenas pela falta de multidão. Os prédios eram de tons claros, e, apesar de bem construídos, pareciam não ser lá muito retos, o que dava um toque todo fantástico ao lugar. Havia algumas barraquinhas aqui e acolá; uma cafeteria, uma loja de cds, um mercadinho. O que aquela vila tinha de tão especial? Ali as datas não são comemoradas. Data alguma.

Muitos órfãos eram mandados para lá. Não havia dia das mães, nem dos pais, a comemorar. Filhos que morriam cedo deixavam pais sem vontade alguma de comemorar o dia das crianças – e ali moravam tais pais.

Quem conhecia a vila, seja porque alugava lugares lá ou por carinho que tinha com os moradores, poderia sempre enumerar casos e casos específicos. Gente que tinha raiva do natal, da páscoa. Parentes de pessoas torturadas e mortas por militares durante a ditadura que não suportavam o dia da bandeira; a lista era extensa, e muito variável.

O novo morador da vila não tinha um caso tão complexo ou trágico. Ele só queria distância do dia dos namorados; logo que pensou nisso seus pensamentos voaram, suaves, silenciosos, tortuosos em direção a ela; linda. Linda, linda e tão, tão falsa. Tão insensível. Seria a vila dos sem-data a vila da tortura? Uma maldição disfarçada, que faz, por vontade de esquecer, lembrar? Seria lembrar, lembrar até se acabar – lembrar até se cansar – o caminho pra nunca mais querer ver pela frente o próprio passado?

Ele chorou ao pensar assim, em espiral, cada vez mais negativamente… Chorar é quase sempre explodir. A construção da bomba se dá pouco a pouco, numa progressão – de constatações ou calúnias que vêm de pouco autoestima – que culminam numa grande explosão, que dá pra sentir naquele ápice de miséria, tão característico do começo teatral de um bom choro.

Ela não deveria ter feito isso, não poderia ter feito isso, pensava ele. “A quem eu queria enganar, vindo pra cá”?

Mas não havia ninguém pra enganar. Com intenção, sem intenção – ali não havia dissimulações. Estava estampado no rosto de todo mundo. Estava no rosto do padeiro. Estava naquela mulher de cabelo curto que “olha o movimento” pela janela todas as tardes, como estátua. Está na simpática senhora do mercadinho. Todos ali sabiam da verdade:

Se você está aqui, é porque você sofreu.

Ele enxugou o rosto do melhor jeito que pôde com as mãos, e nenhuma outra lágrima caiu. Ele olhou em volta. Foi até o banheiro, abriu a torneira, viu que havia uma garrafa de água na geladeira. Ele ia viver ali. Seria bom. Quem sabe, quem sabe; ele poderia até ser feliz.

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Acerca da Solidão

8 março, 2009 at 11:11 pm (Peterson Espaçoporto) (, , , )

Vou colocar aqui um trecho muito interessante da obra “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley. Neste ensaio, Huxley conta como foram suas experiências com a mescalina, o princípio ativo do peiote, planta usada pelos nativos norte-americanos para ter verdadeiras “viagens” espirituais.

O trecho em questão é genial. O vocabulário, a estrutura, o modo como explica, enfim; ainda que se trate de uma tradução, creio que ele descreveu de maneira belíssima esse conceito. Uma vez eu disse a meu pai “estamos sozinhos, existencialmente” e ele retrucou “não se você buscar os outros e etc” – há uma resistência, não só por parte dele mas por parte de várias pessoas, a entender esse conceito fundamental de solitude existencial. E Huxley escreveu isso de uma maneira particularmente genial nesse primeiro parágrafo:

Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência, debalde. Por sua própria naturez, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.

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O Vento

1 março, 2009 at 2:55 pm (Peterson Espaçoporto) (, , )

As pessoas são como plantas. Plantas que crescem no meio do vento que é o resto do mundo.

O vento das oportunidades, o vento das restrições, o vento da cultura, o vento dos fracassos e dos fracassados.

É um vendaval que nunca para. E a planta cresce. Ela resiste. Cresce também de acordo com sua informação genética, é claro, mas tem que se conformar com o vento e planejar sua adaptação a ele.

Ela pensa em um dia ser frondosa árvore.

Mas o vento é o vento. O vento pode quebrar uma planta. Tamanha força pode afastar polinizadores. No mínimo, a árvore acaba torta depois de tanto contato com essa força implacável. E torta ela cresce. Pra um lado ou pro outro, torta.

É ridículo dizer que a planta cresce sem o vento. Que, não, imagina, o vento não a afeta. Pode o vento transformar pitangueiras em jabuticabeiras? Mas como apontar para uma planta e dizer que ela é torta porque quer?

Mas… Talvez…

Talvez os homens não sejam plantas. Talvez não sejam como plantas. Talvez sejam simplesmente humanos. Humanos ao vento, tentando resistir. Às vezes colocando a mão à frente do rosto; às vezes desistindo e resolvendo sentir de vez o vento ao invés de brigar com ele. Por vezes caindo e ficando lá no chão, imóvel, parado. Estatelado.

Às vezes ele consegue dar um passo à frente. Ele se desequilibra, é complicado, mas ele vai. Ele tem determinação pra tanto.

Eventualmente ele pode descobrir que não gosta do caminho para o qual está indo. Às vezes é contra o vento, às vezes não. O importante é que ele tente. Importante é que ele não é uma planta, mas um humano. A explicação acaba aí; humanos possuem consciência – de alguma forma somos quem somos e, mesmo que por alguma mínima e ridícula diferença, não somos animais tanto quanto os animais o são.

Nós podemos tomar o controle da nossa vida? “Fazer valer à pena” tem como requisito assumir certas responsabilidades para com liberdades que queremos ter e com liberdades que vamos, querendo ou não, ter. Se jogar no vento de cabeça, não com galhos e folhagem, contando com uma incerta raiz, esperando o destino atuar.

Talvez ser planta ou homem é uma questão de escolha. Talvez a escolha não seja fácil de realizar – mas, indeed, talvez seja uma escolha…

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Sobre a Fé

21 janeiro, 2009 at 1:54 am (Peterson Espaçoporto) (, , , )

Obs.: Este post tem um corpo antigo e eu ainda mantenho um pé atrás com ele. Comentários serão muito bem vindos, como usual; Estou pouco seguro quanto ao conteúdo dele e seria bom ouvir opiniões divergentes. =)

Na aula de filosofia era a grande hora: depois de tanto falarmos sobre a história da filosofia e sobre os pré-socráticos, o professor veio com um tema interessante. Não sejamos injustos; outros temas levantados por ele foram bons também, mas, digo, temas “oficiais” – as aulas dele são legais porque ele traz sempre notícias interessantes e algumas matérias da superinteressante.

O “tema oficial”, i.e cai em prova de uma aula recente foi razão e fé. Não aticei muito as discussões. Depois de tanto tempo aprendi que isso não ia adiantar muito. E, bem, o foco do professor não deu exatamente margem para discussões. Uma oportunidade surgiu com alguns comentários interessantes sobre o caso dos supostos ETs em Ipuaçu, mas tudo bem, deixa pra lá.

A questão que me irritou na aula e continua a me irritar é que hoje em dia o problema com a tolerância para com a fé. Tolerar a fé é algo necessário, não há dúvidas. Mas como funciona essa tolerância? Que tipo de tolerância é essa? É uma tolerância de pisar em ovos, uma tolerância no maior estilo “com coisa sagrada não se brinca” – quando na verdade tá mais pra “com crentes não se brinca”, já que se você aponta uma idiotice de seus mitos eles viram umas feras e isso pode acarretar algumas reprimendas sociais (sérias até, dependendo de seu meio social).

A tolerância que se tem hoje é: cada um acredita no que quiser, fé é fé. Sim, fé é fé, não há dúvida… Mas essa frase dá uma idéia de que se deve desistir completamente da reflexão sobre as crenças, já que são as crenças dos outros.

No blog uma vez já tentei expressar um resumo sobre o cristianismo. Falhei miseravelmente (resumos são uma dificuldade pra mim) e creio que talvez esse post possa elucidar um pouco mais a questão. Também já falei sobre intolerância e acho que é um texto que complementa um pouco este.

Os problemas com a fé são 3: o primeiro deles, a justificativa externa, é o fato de que a fé serve como um “argumento” (ponha várias aspas, não vá me entender errado) para fazer algumas coisas. Os exemplos são inúmeros. A fé que levou à perseguição às bruxas, por exemplo. Todos os dias vemos pessoas fazendo coisas estúpidas umas com as outras porque “acreditam” em determinadas coisas. E não estou nem falando de religião necessariamente; estou me focando na fé mesmo (o que acaba levando à religião uma hora ou outra, but still…).

É claro que argumentos dito racionais podem justificar coisas ruins. Na verdade, quando alguém está determinado qualquer coisa serve; acontece que razões podem ser combatidas com… Razão. Hitler achava que os judeus eram de uma raça inferior e por isso mereciam ser exterminados. A “justificativa” dele tentava ser racional; o problema é que ele ganhou o poder cedo o suficiente pra repetir uma mentira 1000 vezes até ela se tornar verdade; ou seja, hoje sabemos que não existe essa de “raça superior” ou “raça inferior” – uma justificação que poderia ser combatida. Mas contra Fé, às vezes nem necessariamente a cega, não há argumentos. A fé que leva a pessoa a acreditar em algo de forma absoluta a faz negar a dúvida, o questionamento – a faz sumariamente desacreditar qualquer coisa contrária a sua crença. Pegue um exemplo bem próximo: tente dizer à sua mãe que não, aquele sorvete no inverno não foi a causa da gripe. Argumente, tente dizer algo; não interessa, ela não dará ouvidos. Bom, é claro que estou assumindo uma mãe oldschool, tipo a minha. Espero, pelo bem da humanidade, que uma nova geração um pouquinho mais crítica vai ser mais aberta a questionamentos contra verdades estabelecidas – servindo tanto para o caso do sorvete quanto para qualquer outra coisa.

A fé por requerer justamente essa negação das razões acaba tendo conseqüências “internas” – não serve só como perigosa justificativa para atitudes em relação a outras pessoas mas também em relação a si mesmo. Atitudes e idéias que a pessoa tem, às vezes provenientes da fé, que podem ser nocivas para si própria.

Além dessas duas, há o fato de que justamente por tirar suas conclusões de mitos, a religião (bem, fé em geral, reitero) foi e continua sendo uma das principais barreiras ao avanço científico.

Agora, voltando lá pra cima: Why should I care? Cada um acredita no que quiser e pronto, e daí? Isso é muito interessante, mas esse tipo de tolerância miss the point. Quando Voltaire soltou “Não concordo com o que dizes mas defendo o direito de dizeres” ou coisa parecida ele queria dizer que sim, a pessoa tem todo o direito de dizer – mas ele não concorda e também tem o direito de dizer. O que fazemos com religiões, superstições e misticismos afins não é tolerância de Voltaire. O que fazemos é alterar a frase pra “Você tem o direito de dizer e se eu falar que não concordo sou intolerante”.

Se a fé provoca naturalmente alguns males, é sim necessário revelá-los e discuti-los. “Ah, mas a ciência também provoca naturalmente alguns males”- NÃO TENHA DÚVIDA!!! Claro que provocam, e devemos sim discutí-las também. As pessoas falam de fé como se fosse possível desenhar uma linha e dizer “essa é minha fé e o que acontece aqui não afeta mais ninguém”. Não, não é verdade em muitos casos. Não acho que as pessoas TENHAM que agir sempre pensando favoravelmente no lado das outras pessoas ao fazerem qualquer coisa – só que pra decidir conscientemente entre fazer algo que me faça (mais) bem ou faça (mais) bem aos outros é preciso ver os dois lados. Dizer que a fé não afeta nada, que fé e fé e cada um pode pensar qualquer coisa que os outros têm que respeitar é querer fechar os olhos, não pensar nas conseqüências dos atos para poder agir apenas pensando no próprio lado e nas próprias justificativas internas. Sim, fé e fé e cada um tem o direito de pensar qualquer coisa. Mas se isso não for bom pra própria pessoa ou pros outros, qual é o problema de discutir? Ninguém vai obrigar ninguém a nada. Se trata de discutir idéias.

É como duas pessoas falando de seus gostos culinários. A outra pessoa gosta de fast-food; se eu alertá-la de que comer muito fast-food pode prejudicar sua saúde estou sendo prestativo ou estou sendo intolerante? Se houver uma discussão saudável acerca das propriedades nutricionais do fast-food estaremos travando uma guerra santa ou amigavelmente discutindo dois pontos de vista? Qual é… Religiões e fé provocam reações animalescas demais. O que penso? Que talvez um dia possamos discutir religião como quem debate se um filme foi merecedor do Oscar.

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O Prestígio

16 dezembro, 2008 at 1:37 am (Peterson Espaçoporto) (, , )

Todo mundo gosta de elogios. Por quê? Porque eles são a identificação que outros fazem de algo bom que há em você. É muito fácil nos deixar levar pela impressão de que no fim somos legais e agimos bem. A falta de elogios significaria justamente uma possibilidade de que não, as pessoas não acham a mesma coisa que você. E aí você começa a desconfiar que não, você não é tão legal. Pelo menos não para as pessoas que estão à sua volta, já que elas não parecem ver isso em você.

Por isso elogios não são apenas “valorizados” – eles são de certa forma necessários. Necessários pra que tenhamos uma noção, ainda que não 100% certa mas já muita coisa, de que a visão dos outros concorda com a nossa quando o assunto somos nós mesmos. Ou, quando você se critica demais, os elogios servem justamente como uma salvadora opinião do lado de fora…

Agora, tomemos por exemplo as vitórias. Não há nada de errado em valorizar as vitórias. Mas por que roubar nos jogos é “errado”? Há um problema axiológico com quem rouba pra vencer – quando não há dinheiro envolvido, que seja dito – porque o que essa pessoa valoriza não é a competição, o calor da batalha, a diversão inerente das rivalidades. Não, ela valoriza a vitória e as conseqüências dela – os louros da vitória, a admiração que conseguirá. De forma semelhante, quando uma pessoa faz algo porque quer os elogios dos outros é porque quer elogios que serão direcionados para uma pessoa que ele não é de verdade, que ele interpreta ser.

Ou seja, a sociedade não preza os elogios. Elogios são bons, todo mundo gosta. Mas infelizmente uma pessoa insegura pode acabar fazendo coisas para se adaptar aos gostos dos outros, tentando se encaixar no modelo de pessoa que as pessoas elogiariam – para receber os elogios. Ou seja, o único modo de ser “você mesmo” é compreender que, ao não ser, você vai receber elogios… Pela pessoa que não é. Ao ser você mesmo você vai ouvir elogios de gente que valoriza o que você é. Talvez o ponto a se destacar sobre o papel da cultura é que hoje até que há um ambiente propício pra isso: há muitas pessoas dispostas a sinceramente aceitar até que uma quantidade razoável de diferenças. Além disso, se existe pra cada local um modelo de pessoa merecedor de elogios, o dia em que esse modelo for “pessoa que é ela mesma” haverá ainda muitas crises porque as pessoas não saberão se são elas mesmas – verifica-se então que o bem e o mal se conservam em quantidade, apenas mudam de lugar…

A solução, pois, continua simples: se você deixa de pensar em um modelo e pensa em preferências pessoais, você vê que tudo não passao do dilema de tentar se adaptar às preferências dos outros. Ou não. É impossível não relacionar com a idéia de amor/amizade verdadeiro: quem te ama de verdade vai gostar de você pelo que você é. Quem não sabe se te ama de verdade vai acabar descobrindo quando se deparar com o dilema inconsciente de gostar de você ou não…

Acima de tudo também é preciso notar que parece um raciocínio simples, mas é um exercício de auto-conhecimento bem confuso esse negócio de “sou eu”, “recebo elogios por uma pessoa que não sou”, etc. É complexo, mas há uma divisão.

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Acabei de Ouvir…

13 dezembro, 2008 at 12:13 am (Santaum)

Com agradecimentos ao Ceticismo.net

“Tem uma história interessante… Bem quando estava querendo terminar um relacionamento com uma namorada, fui a uma igreja e a pastora disse “Tem alguém aqui querendo terminar um relacionamento…”… E… De repente senti que aquilo era pra mim…”

Ou seja, se você pega um público relativamente grande e diz que há alguém querendo terminar um relacionamento (ainda mais posto nesses termos, afinal “relacionamento” significa muitas coisas), você tem uma chance gigantesca de, wow, alguém ali querer terminar um relacionamento. Que curioso.

E mesmo que não haja ninguém, ninguém vai sair perguntando, o que ainda assim confere a quem não quer terminar um relacionmento uma impressão de sapiência – a mim não chegaria essa impressão, mas a alguns outros headless…

Como é incrível e tristemente difundida essa teoriazinha de que “Deus não dá nada de bandeija, dá as oportunidades”. A primeira coisa que se tem a dizer é que, apesar do que se ver por aí apontar nas duas direções – provérbios centenares dizendo que não, você tem que fazer as coisas que Deus lhe dará as oportunidades e pessoas não fazendo nada, esperando por soluções divinas – não é o que a Bíblia diz. Segundo ela, se você pedir, Deus tem que atender. Ou seja, teoricamente, pedir é o que mais dá certo, hum?

Ask, and it shall be given you; seek, and ye shall find; knock, and it shall be opened unto you:

Mateus 7:7

Além disso, que tipo de oportunidades deus dá a bebês recém-nascidos nascidos com doenças terminais? Ou então a oportunidade a pessoas que vivem nas ruas, em países que os sujeitam a extrema pobreza ou mesmo à seca nordestina?

O argumento “Deus dá oportunidades” costuma significar duas coisas. Significa que ele proporciona a oportunidade às pessoas de conseguir o que querem – o que não é verdade como se verifica nos casos acima e similares – ou que justamente todos os infortúnios pelos quais as pessoas passam são apenas desafios, e não desestímulos, para que as pessoas melhorem.

Mas esse, entretanto, é simplesmente um simples caso de “ver o que quer, onde quer”. Os desastres naturais são desastres naturais. Aliás, desastres são desastres. Pessoas morrem, pessoas ficam tristes, a dor é distribuída aleatoriamente numa cadeia imprevisível de conseqüências diretas e indiretas. Isso é por si só ruim. Isso não carrega, em si, nada de bom. Nós aplicamos a essas experiências coisas boas. Nós é que, mesmo em tempos difíceis, arranjamos coragem e determinação pra seguir em frente, pra nos reconstruir, pra tentar aprender uma lição que seja disso tudo. Mas essa lição não nos é dada, e nem a reconstrução podia ter sido o objetivo de uma catástrofe não pré-determinada. A catástrofe por si só vem para causar dano, ponto. Parte de nós a iniciativa de algo melhor.

Aí podemos evidenciar claramente a ingratidão típica, ainda que não necessariamente nociva a alguém em particular que não o puro e simples acaso. Ah, nossa casa foi destruída! Deus fez isso para que possamos reconstruí-la. Não, a reconstrução é idéia, necessidade, ação, sua. Você podia mudar de casa, de cidade. Podia se suicidar. Podia viver na rua. Mas não, você decide reconstruir a casa. Coisa sua.

Ah, deus não me deu emprego. Não, não, ele me deu a oportunidade de conseguir emprego. Ora, o que é exatamente uma oportunidade? É um termo extremamente subjetivo pra ser considerado assim. Milhares de fatores contribuíram para que houvesse uma “oportunidade” e aí atribui-se isso a uma entidade mitológica…

Além do que, sempre existe o incômodo fato de que, fosse deus mesmo perfeito, não haveria necessidade de passar por coisas ruins para que boas acontecessem – ele criaria uma realidade desse modo, e não do modo presente. Mais sobre isso aqui.

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Por último, o cara ainda falou do homem que achava que conhecia a Bíblia por lê-la, mas não por abri-la em cima da mesa na hora de jantar e discuti-la com a família ou coisa assim.

Pra mim era sapientíssimo por não fazê-lo. Escolheu se contaminar sozinho com tanta sujeira, poupando a família. Que nobre escolha…

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A Polícia

1 novembro, 2008 at 8:44 am (Peterson Espaçoporto) (, , )

Num post no Tudismocroned lancei uma pergunta que serviu como laboratório, e agora acho que a idéia já pode ser transmitida – pode ser, hum, “oficializada”.

Acho que, depois de um tempo de debate sobre a idéia “Contra a Punição“, o único argumento ao qual uma pessoa costuma agarrar-se é o determinismo de dizer que os homens são maus por natureza e se não houver nada influenciando de forma estrita em seu comportamento eles vão se matar, se destruir, por aí.

Bom, verdades à parte se considerássemos o dinheiro, pretendo com esse texto demonstrar que, na verdade, a falta de lei seria muito mais eficaz para combater o “crime” do que o modelo que temos hoje.

A questão é a seguinte: O Estado detém o monopólio da força, digamos assim. Ele é quem toma para si o poder “militar” para nos proteger. Esse desequiíbrio de forças, entretanto, é intrinsecamente desbalanceado; o mínimo para garantir que isso daria certo seria 50/50 – metade “policiais” e metade cidadãos comuns, mas não é isso que acontece. Da maior parte da população foi tirada a força e a uma minoria (mal paga ainda, mas não é sobre isso que quero falar) ela foi concedida.

Qual é o problema disso? Fragilidade. Você fragiliza, assim, a população. Se você é um “bandido”, você sabe quem pode ser um “alvo” e você sabe quem é que vai te impedir de roubar (por exemplo) o alvo. Portanto você pode contornar a força de proteção. Porque você a conhece, você sabe como ela é, como funciona. Você pode esperar por um momento em que essas forças não estejam presentes. Você pode suborná-los (tá bom, usando outro exemplo porque subornar pra roubar é foda). Enfim, se você conhece esse sistema defensivo então você pode descobrir uma forma de se livrar dele.

Mas imagine então um lugar sem policiais… “Que terrível”, diriam alguns. O homem faria tudo que quer, blablabla. ERRADO. Muito pelo contrário.

Isso porque enquanto não há lei que incrimine o “bandido”, o que parece lhe dar liberdade, tampouco existem leis que o protejam. Se não há leis, não há leis. Isso significa que se eu quisesse roubar outra pessoa, eu não teria como adivinhar que essa pessoa não tivesse o mesmo “poder” que um policial – ela poderia usar a força tanto quanto eu. Ou seja, se não há diferenças entre poder, não existem com tanta freqüência esses ataques. Tudo “trava”, entende? Trava é uma palavra que me vem facilmente à mente. Alguém quer fazer algo mas se lembra que o outro também pode, então deixa pra lá…

Mas é claro que a distribuição política do poder não é válida no mesmo sentido com a realidade. Para os olhos de um estuprador, uma mulher magricela passeando realmente tem menos poder que aquela que acabou de sair da academia… Tem menos poder pra reagir a qualquer coisa, e assim pode-se dizer que o equilíbrio real de poderes nunca existirá. Quem então garantiria, não a integridade, como faz hoje a polícia, mas sim o equilíbrio – quem garantiria esse equilíbrio?

É aqui que chego onde quero chegar: por essas diferenças naturais, para aproximá-las das diferenças políticas (0), seria interessante termos um tipo de força policial oculta. Eles são policiais, mas nada os identifica como tal. Eles viajam para uma outra cidade onde ninguém os conheça e fingem ter uma profissão. Na verdade saem pra trabalhar e ficam… Andando por aí. Como mais alguém na multidão. Eles agiriam nos casos em que e vê que há “perturbação” na única lei da sociedade anti-lei: a liberdade. Se alguém estivesse sendo evidentemente forçado a fazer algo, então algo teria que ser feito.

Aí, então, mal-intencionados não apenas não saberiam quem é um policial. Aos olhos de um estuprador: vou atacar aquela mulher, mas… Ela pode ser uma policial.

Além disso, é necessário que haja alguém “armado” de verdade no grupo que se sujeita a essa regra. Isso porque se o senso comum dissesse “qualquer um pode te fazer qualquer coisa, então não seja mal-intencionado”, qual é o sentido disso se ali todo mundo é tão pacífico que, mesmo com a possibilidade, ninguém efetivamente fizesse algo? Então é necessário que o ambiente não seja de “qualquer um tem uma faca” mas sim “alguém tem uma faca, e esse alguém pode ser qualquer um”. Faca no sentido simbólico, ok?

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Das bases do Individualismo

18 setembro, 2008 at 7:15 am (Santaum) (, )

O individualismo, pelo menos a maneira como eu o vejo e o defendo, está longe de significar egoísmo. Pode-se dizer, de maneira geral, que o individualismo é um jeito de priorizar o indivíduo e sua autonomia – o egoísmo caracteriza-se quando o único indivíduo que alguém prioriza é o “si mesmo”.

Pode-se dizer que esse meu individualismo é uma conseqüência natural do discordianismo: se não há uma verdade absoluta, não se pode querer aplicar uma mesma lógica a todos os indivíduos. Isso (que se pode chamar, hum, ‘idealismo’) se revela de formas extremas em regimes ditatoriais e de formas sutis em regimes democráticos, sendo um ponto comum no pensamento moralista que encontramos em quase todas as culturas civilizadas do mundo.

Ou seja, o idealismo acontece quando, baseados em uma ideologia, restringe-se o direito individual. Vemos, por exemplo, grupos religiosos atacando o uso da camisinha, o aborto e o casamento gay. A questão é: eles podem ter a opinião que quiserem sobre o que é moral e o que não é. Mas eles querem mais, querem que isso seja proibido – ou seja, que essa lógica se aplique a todos os indivíduos, baseados na idéia que fazem do que seja “certo” e “errado”.

Outro exemplo que visa restringir o direito individual é quando é invocado o direito do grupo: é uma variação do primeiro, só que ao invés de querer que todos sigam algo porque isso é certo ou errado, esquece-se uma noção metafísica de ética e parte-se para uma noção pragmática e, hum, “humana” de dever / não-dever fazer: porque isso faz ou não bem para o grupo.

Mas… Um grupo é uma classificação humana, é uma idéia, algo vago que existe apenas no modo de perceber as coisas, na mente. Não é um indivíduo de carne e osso, que pensa e sente, não do mesmo jeito que uma pessoa. Quando você beneficia um grupo, você pode acabar, em virtude disto, prejudicando alguém ou a si mesmo. A questão é: ao beneficiar uma entidade que não sente, qual é mesmo o real benefício disso?

Aos poucos você descobre que quando um grupo é beneficiado, apenas uma parte é beneficiada, e nem sempre é a maior parte – às vezes nem mesmo são membros do grupo!!!

Mas aí vem aquela questão: então o mundo ideal é aquele em que ninguém trabalha / age “em grupo” ou de forma “idealista”? Não. Se alguém fosse forçado a fazer isso, tal “sistema” não seria individualista, seria idealista – pois em prol de um ideal força-se alguém a fazer algo. Ao invés disso, apenas a “estrutura”, as leis que regulamentam o funcionamento de um sistema é que deve ser individualista – ou seja, sendo capaz de “suportar” pessoas vivendo dos dois “jeitos”. Quer agir de um jeito? Vai. Quer de outro? Vai, meu filho, vai.

Outros podem pensar ainda “mas isso é um absurdo. Se você se esquece do que é certo acaba machucando as pessoas, só pensando no prazer, no bem-estar…”. Bom, vejam que eu não falei sobre egoísmo; creio que já separei bem uma coisa da outra. O que eu disse foi o seguinte: pensar “no bem” dos “indivíduos” é esquecer que certas ações podem causar mal a outras, o que o idealismo de certo / errado baseado na dor que algo causa em outros.

Em primeiro lugar, o certo e o errado é, inúmeras vezes, flexibilizado para fazer com que alguém não se culpe pelas suas ações. Não que isso esteja errado, apenas mostra que ele é mesmo relativo por demais.

O individualismo não visa o bem-estar. Aliás, ele não visa alguma coisa para as pessoas, ele visa pessoas. O que o individualismo faz é acabar com essas vias automáticas de resolver conflitos (que por vezes só fazem justificar a atitude de alguém que não quer passar muito tempo pensando no assunto) e repor isso com um pensamento direto que envolve uma decisão: se eu fizer tal coisa vai acontecer (provavelmente) isso, isso e isso. Tais pessoas vão ficar bem, outras nem tanto. O que eu faço? Meça suas prioridades e faça uma escolha.

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Homossexuais são normais!

24 abril, 2008 at 5:35 pm (Rev. Peterson Cekemp) (, , )

Por Rev. Peterson Cekemp

Eu estava discutindo com uma certa pessoa nos últimos dias acerca da normalidade dos homossexuais. Ela insistia em dizer que eles não eram normais; ficou indignada comigo, a pessoa. E eu dizendo que sim, eles são normais.

O modo como é defendido o ponto de vista contrário ao meu é um só: na natureza, os machos copulam com as fêmeas. Ponto. Isso é normal.

Mas é daí que eu parto. Em primeiro lugar, vamos definir a normalidade: enquanto ela não for aquele assunto estudado na química de segundo ano (a normalidade de uma solução), ele é subjetivo e portanto é totalmente flexível. Por exemplo: minha casa é branca – fato. Minha casa é normal – interpretação. Ponto. Esta cadeira é feita de madeira – fato. Esta cadeira é normal. Interpretação. É o velho (nem tão velho assim) preceito do discordianismo: se você olha para a realidade com uma grade cultural, você vê ordem em certos lugares e desordem em outros. Se você olha com outra, você vê coisas diferentes. Garanto que os gregos (muito melhores que nós, diz o bigode) não achavam o homossexualismo “anormal” – ha, gotcha.

No reino biológico animalia também existe homossexualismo. Há, inclusive, uma excelente matéria da Superinteressante sobre o assunto. Portanto, se você considera os animais de forma geral, o homossexualismo é a exceção, não a regra. Mas veja, há vários outros seres que não realizam reprodução sexuada. E eles vieram muito antes de nós, por que esses motivos não fariam da reprodução assexuada algo mais normal que a sexuada? As minhocas são hermafroditas. Anormais, né? Essa classificação é ridícula. Ou melhor, é normal. Mas não enxergar que ela é só uma classificação qualquer, tolinha como outra qualquer, isso não é legal.

Se você não acredita em algo porque acredita que essa é uma verdade absoluta, que independe da observação humana (o que pressupõe um Deus, note), você a adota por suas conseqüências. Quais são as conseqüências de classificar os homossexuais como anormais? Digo, essa pessoa com a qual eu debati o tema diz que, tudo bem, os homossexuais são normais porque você os aceita – mas não são normais. Ora, muito bem; devemos tratá-los com respeito, mas eles não são normais.

Mas pense bem no que você está fazendo. Eu me surpreendo com a nossa capacidade inata e cega de considerar esses idealismos, e não o indivíduo. Falamos de pessoas sem rosto, é muito fácil falar delas. Mas devemos falar é das pessoas que existem, que sentem, que se importam, e que têm tanto direito de ser felizes quanto nós.

Ora, se você nasce sem uma perna. Todo mundo te trata direito, mas você é anormal. Se você debate o assunto você vê a opinião de todo mundo dessa forma: você é legal cara. Mas você é anormal. Isso é exclusivo, não inclusivo. Isso destrói a pessoa, sinceramente.

Não podemos simplesmente partir do pressuposto de que um homossexual é homossexual porque quer. Não podemos raciocinar nada se não temos uma mínima base pra apoiarmos nossos raciocínios; isso é mau-caratismo intelectual – em outras palavras, não dá pra “achar” alguma coisa e sair pensando sobre isso. Isso é bem típico dos pensadores médios brasileiros, aqueles que não são tão alienados quanto a maioria, mas ainda assim não são tão “profundos”. Eles simplesmente pegam um “achismo” e trabalham com ele. Não é assim que as coisas funcionam.

Se a ciência ainda não “sabe” porque alguém é homossexual, é necessário dar a nossa razão o benefício da dúvida. Pode ser por isto, mas pode ser por aquilo. Eu, pessoalmente, acredito que é por uma miríade de fatores – não em conjunto; apenas digo que são vários e pode ser qualquer um. Violência sexual por parte dos pais. Desilusões amorosas. Vontade de experimentar. Pré-disposição genética. Prazer. Sei lá. Realmente não me interessa o motivo, interessa é: o que eu tenho a ver com isso? Por que eu deveria me importar com gays casando? Desde que não casem comigo, eu não tenho nada a ver com a vida deles. Se eles são felizes assim, casem-se, fiquem juntos, whatever. Se a vida é curta demais pra aprender alemão, por que ela seria longa pra se preocupar em impedir que pessoas supostamente anormais casem? Isso é uma coisa pequena de se fazer, eu acho.

Se um homossexual nasceu assim, e você o classifica como anormal, você está envenenando a vida dele, sinceramente. Destruindo. Você aí, que de repente me lê com aquela cara de “eles são anormais sim”, ponha a mão na consciência. A sua vida toda você fez alguns amigos aqui e ali, seus pais têm um carinho “normal” por você, mas a todo lugar onde vai você sabe o que as outras pessoas estão pensando: anormal. E não precisa nem dizer; na verdade, depois de um certo ponto o fator “os outros” não é mais necessário. Se todo mundo fala pralguém que ela é anormal, ela acredita. E ela passa a se agredir por dentro com isso, se machuca intelectualmente ao classificar a si própria como anormal. Isso destrói a auto-estima, e se você parte, novamente, do pressuposto de que a vida é curta – e que não volta – você desperdiça uma existência que poderia ser tão boa com… Merda. É isso, desculpem a palavra, mas esse pensamentozinho de “respeito tudo bem, mas é anormal” é um pensamento de merda.

E que a pessoa que debateu comigo não leia isto. Afinal, ignotum per ignotius. Não dá pra ensinar uma coisa a alguém que acha que já sabe.

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