Eu estava discutindo com uma certa pessoa nos últimos dias acerca da normalidade dos homossexuais. Ela insistia em dizer que eles não eram normais; ficou indignada comigo, a pessoa. E eu dizendo que sim, eles são normais.
O modo como é defendido o ponto de vista contrário ao meu é um só: na natureza, os machos copulam com as fêmeas. Ponto. Isso é normal.
Mas é daí que eu parto. Em primeiro lugar, vamos definir a normalidade: enquanto ela não for aquele assunto estudado na química de segundo ano (a normalidade de uma solução), ele é subjetivo e portanto é totalmente flexível. Por exemplo: minha casa é branca – fato. Minha casa é normal – interpretação. Ponto. Esta cadeira é feita de madeira – fato. Esta cadeira é normal. Interpretação. É o velho (nem tão velho assim) preceito do discordianismo: se você olha para a realidade com uma grade cultural, você vê ordem em certos lugares e desordem em outros. Se você olha com outra, você vê coisas diferentes. Garanto que os gregos (muito melhores que nós, diz o bigode) não achavam o homossexualismo “anormal” - ha, gotcha.
No reino biológico animalia também existe homossexualismo. Há, inclusive, uma excelente matéria da Superinteressante sobre o assunto. Portanto, se você considera os animais de forma geral, o homossexualismo é a exceção, não a regra. Mas veja, há vários outros seres que não realizam reprodução sexuada. E eles vieram muito antes de nós, por que esses motivos não fariam da reprodução assexuada algo mais normal que a sexuada? As minhocas são hermafroditas. Anormais, né? Essa classificação é ridícula. Ou melhor, é normal. Mas não enxergar que ela é só uma classificação qualquer, tolinha como outra qualquer, isso não é legal.
Se você não acredita em algo porque acredita que essa é uma verdade absoluta, que independe da observação humana (o que pressupõe um Deus, note), você a adota por suas conseqüências. Quais são as conseqüências de classificar os homossexuais como anormais? Digo, essa pessoa com a qual eu debati o tema diz que, tudo bem, os homossexuais são normais porque você os aceita – mas não são normais. Ora, muito bem; devemos tratá-los com respeito, mas eles não são normais.
Mas pense bem no que você está fazendo. Eu me surpreendo com a nossa capacidade inata e cega de considerar esses idealismos, e não o indivíduo. Falamos de pessoas sem rosto, é muito fácil falar delas. Mas devemos falar é das pessoas que existem, que sentem, que se importam, e que têm tanto direito de ser felizes quanto nós.
Ora, se você nasce sem uma perna. Todo mundo te trata direito, mas você é anormal. Se você debate o assunto você vê a opinião de todo mundo dessa forma: você é legal cara. Mas você é anormal. Isso é exclusivo, não inclusivo. Isso destrói a pessoa, sinceramente.
Não podemos simplesmente partir do pressuposto de que um homossexual é homossexual porque quer. Não podemos raciocinar nada se não temos uma mínima base pra apoiarmos nossos raciocínios; isso é mau-caratismo intelectual – em outras palavras, não dá pra “achar” alguma coisa e sair pensando sobre isso. Isso é bem típico dos pensadores médios brasileiros, aqueles que não são tão alienados quanto a maioria, mas ainda assim não são tão “profundos”. Eles simplesmente pegam um “achismo” e trabalham com ele. Não é assim que as coisas funcionam.
Se a ciência ainda não “sabe” porque alguém é homossexual, é necessário dar a nossa razão o benefício da dúvida. Pode ser por isto, mas pode ser por aquilo. Eu, pessoalmente, acredito que é por uma miríade de fatores – não em conjunto; apenas digo que são vários e pode ser qualquer um. Violência sexual por parte dos pais. Desilusões amorosas. Vontade de experimentar. Pré-disposição genética. Prazer. Sei lá. Realmente não me interessa o motivo, interessa é: o que eu tenho a ver com isso? Por que eu deveria me importar com gays casando? Desde que não casem comigo, eu não tenho nada a ver com a vida deles. Se eles são felizes assim, casem-se, fiquem juntos, whatever. Se a vida é curta demais pra aprender alemão, por que ela seria longa pra se preocupar em impedir que pessoas supostamente anormais casem? Isso é uma coisa pequena de se fazer, eu acho.
Se um homossexual nasceu assim, e você o classifica como anormal, você está envenenando a vida dele, sinceramente. Destruindo. Você aí, que de repente me lê com aquela cara de “eles são anormais sim”, ponha a mão na consciência. A sua vida toda você fez alguns amigos aqui e ali, seus pais têm um carinho “normal” por você, mas a todo lugar onde vai você sabe o que as outras pessoas estão pensando: anormal. E não precisa nem dizer; na verdade, depois de um certo ponto o fator “os outros” não é mais necessário. Se todo mundo fala pralguém que ela é anormal, ela acredita. E ela passa a se agredir por dentro com isso, se machuca intelectualmente ao classificar a si própria como anormal. Isso destrói a auto-estima, e se você parte, novamente, do pressuposto de que a vida é curta – e que não volta – você desperdiça uma existência que poderia ser tão boa com… Merda. É isso, desculpem a palavra, mas esse pensamentozinho de “respeito tudo bem, mas é anormal” é um pensamento de merda.
E que a pessoa que debateu comigo não leia isto. Afinal, ignotum per ignotius. Não dá pra ensinar uma coisa a alguém que acha que já sabe.



