Para os “Superficialistas”

Basta andar nas ruas para que, em algum momento, um “superficialista” te observar. Ele, inclusive, faz questão de te olhar de cima para baixo. Para o “superficialista”, após esse cruzamento espacial tão repentino, a probabilidade de que, impreterivelmente, uma crítica destrutiva saia da sua boca é muito grande.

O “superficialista”, quando chega na sua casa, pode ter duas reações: ou continuar do jeito que ele é ou, num milagre, expor os seus pontos fracos. Se, na sua casa, vocês dois estão sozinhos e, principalmente, se tem uma amizade relativamente íntima a ponto de um se abrir pro outro, o “superficialista” baixa a guarda e, timidamente, aponta as suas fraquezas como qualquer outro ser humano. No entanto, na rua, nos bares, nos restaurantes e nas baladas, o “superficialista” é a pessoa mais confiante do mundo, está sempre ereto com os ombros para trás, o peitoral estufado para a frente e a cabeça erguida, convencido de que o seu eu é poderoso e que está bem consigo mesmo. Afinal, pra que revelar aos outros que tem fraquezas e que em várias situações de sua vida perde e fracassa?

Na hora de almoçar no restaurante, o “superficialista” faz questão de seguir aqueles padrões chatos e antigos de etiqueta. Por hora, e se tiver condições para isso, não abdica de maneira alguma da sua estratégia de sempre ficar por cima dos outros. Nessas situações, ostentar não faz mal. Afinal, pra que perder a oportunidade “social” de deixar a pessoa do lado para baixo?

O “superficialista” sempre é forte e nunca fracassa. Sempre vence. Nunca perde, mesmo que isso esteja somente na cabeça dele. É um ser humano que não acredita, mas praticamente tem certeza de que ele é o melhor e “o resto não é nada”. Essa é a sua grande motivação: ficar sempre pra cima e deixar os outros sempre por baixo, mesmo que isso fique somente no seu pensamento. Não existem as palavras “malogro”, “frustração”, “derrota”, “perda” no vocabulário do “superficialista”, apenas “beleza”, “poder”, “vitória”, “prazer”, “felicidade” e “riqueza”. Costuma dizer frases como “vou fazer isso porque dá dinheiro” e “eu sou mais eu” no dia-a-dia, e é de praxe soltar uma expressão para inferiorizar quem está à sua volta, pelo menos emocionalmente, mesmo que a pessoa que esteja diante dele não perceba.

Seus grandes parceiros são a “vida social” em restaurantes e baladas, o álcool, a elegância material e o dinheiro. Talvez esse último seja o seu grande amigo. As futilidades materiais são o seu grande prazer. Afinal, qual é o problema de pagar pela bebida mais cara do bar ou ter três carros na garagem, mesmo que não tenha necessidade? Em situações mais extremas, o “superficialista” pode até recorrer às drogas, pois é um ser humano e tem fraquezas. “Válvulas de escape” são fundamentais para o “superficialista”, principalmente se ele tiver perto do outro. Então, para manter o ego sempre alto, é necessário recorrer a essas “ferramentas” para pelo menos enganar seu cérebro e dizer a si mesmo que sempre está bem e forte.

Alguns “superficialistas” que têm dinheiro gostam de ostentar, enquanto aqueles que não tem, por sua vez, fazem de tudo para tê-lo. É como se fosse o objetivo maior de vida, mesmo que seja necessário passar por cima de algumas situações inconvenientes. Talvez essa seja a situação mais delicada para o “superficialista” que não tem essa riqueza material que tanto almeja. Por dentro dessa casca chamada de pele, o “superficialista” lamenta profundamente o fato de não ser uma pessoa rica e não ter luxos, mas por fora está sempre forte, principalmente se alguém estiver perto dele. Esse é o grande diferencial do “superficialista”, pois sempre esbanja para os outros pujança e poder, mesmo não apresentando isso dentro de si mesmo. Ele sempre está bem. É como se sozinho vivesse por ele mesmo e diante dos outros criasse um personagem chamado de “superficialista” ou estivesse diante uma máscara de carnaval com um sorriso enorme subentendido como “eu sou forte” e “eu sou o melhor”.

Diante de tais circunstâncias e principalmente pelo fato de testemunhar, a todo momento, suas atitudes, mando essa singela carta aos “superficialistas”.

Competição e Desafios

Na época do vestibular, resta aquela dúvida primordial: qual será a minha profissão? Resta ao jovem decidir qual é a mais lucrativa, que dá a ele um melhor retorno financeiro e que permite a ele construir uma bela democracia. É o grande passo para a primeira derrota (ou não), é o momento em que ele percebe que está competindo ferozmente com várias outras pessoas. Não necessariamente precisa escolher, mesmo tão jovem, a profissão que deseja, mas aquela que dá oportunidades e um retorno financeiro. Às vezes, é até mais interessante o jovem escolher um vestibular competitivo (com vários candidatos por vaga em cursos populares) para que ele tenha um determinado status quando for aprovado. É um grande desafio para esse jovem, que não quer nada além de ganhar dinheiro e ser reconhecido pelos amigos e principalmente pela família que fez um grande investimento financeiro na sua educação e, agora, exige um retorno. Além disso, os pais adorariam dizer aos amigos adultos dos grupos adultos sociais que o filho passou em um grande curso em uma faculdade de nome.

O jovem vê aquela menina e fica maravilhado. Que menina linda! Como ela é linda! Depois ele se toca que somente ele acha ela linda quando conversa com seus amigos de colegial. Fica até com vergonha por causa disso. Os seus amigos acham aquela outra. Praticamente todos acham aquela outra. A opinião dos seus amigos é tão importante e convincente que ele acaba cedendo e partindo para essa “outra” menina, digamos, a “menina popular” do colegial. Ela tem algumas características externas que chamam a atenção dos meninos e foge da doçura, simplicidade, carinho e amizade da que acha linda. Mas por que isso? A linda, depois da conversa com os amigos, ficou feia. Ele deseja, neste momento, é aquela que todos desejam e ponto final. É esse agora o seu objetivo, conquistar essa garota chata que, no entanto, tem uma beleza externa inquestionável. E faz de tudo pra vencer e dizer para os seus amigos que ficou com ela. É a mais verdadeira sentença da vitória.

Ela agora está se formando e precisa decidir o que pretende fazer. “Ou trabalho pra ganhar milhares de reais em uma cidade pequena ou faço a minha residência?” Ela decide fazer a sua residência no lugar mais competitivo. Ela, na verdade, queria uma determinada área mas, neste momento, optou por outra pelo fato de ser a mais competitiva e, sobretudo, a que mais dá dinheiro. Ainda, na melhor residência do país. Ela quer, evidentemente, ouvir a longo prazo os seus colegas de faculdade parabenizando-a (“poxa, você é inteligente, meus parabéns!”), dizendo-a que passou em uma residência difícil. E, é claro, gostaria de chegar na reunião dos dez anos de formatura com um belo carro com seus filhos e um maridão à altura (intelectualmente e financeiramente falando). Para ela isso é tudo, dizer aos outros que está bem, que venceu. A vida é cheia de desafios e para ela essa seria uma vitória e tanto: a do reconhecimento dos amigos e colegas de faculdade.

O irmão dela também se forma em uma profissão diferente e mais direcionada a empresas. Ele deseja trabalhar em uma multinacional, evidentemente. Além de ser a que dá mais dinheiro, oferece uma melhor carreira, além da possibilidade de trabalhar no exterior. Quem dos seus colegas não deseja passar um mês na Coréia ou viver dois anos na Inglaterra? Além disso, os processos seletivos são corporativos e longos e, para ele, não tem nada melhor do que superar esse desafio. Ele pode passar e, além disso, vai mandar um e-mail para os colegas do yahoo! grupos dizendo que conseguiu tal feito. Todos irão parabenizá-lo e dizer que ele teve grande capacidade e esforço para conseguir o que queria. Mas era isso realmente que ele queria? Era seu sonho fazer essa faculdade? Ou simplesmente a fuga de um sonho e a busca de competitividade para se superar perante os outros e, a posteriori, um reconhecimento desses mesmos? Onde entra o sonho? O seu desejo pessoal? Para ele não existe isso. O que interessa a ele é competir e superar grandes desafios além, é claro, de ter uma boa condição financeira aliada a um status social pelo seu cargo na empresa. Deseja, como sua irmã, chegar na festa dos dez anos de formatura e ostentar aos outros o seu cargo e a sua posição hierárquica na empresa. Nada mais do que isso. A sua felicidade é ver os outros dizendo a ele que está bem e de parabéns.

E assim pendemos e tendemos, recentemente, a perpetuar: para uma vida a partir da opinião dos outros.

1 Ano de Nada Pensitivo

Agora, ele somente vai se chamar Pensitivo!

E mudou de endereço. Agora está com domínio próprio.

Clica na figura e veja o novo endereço:

http://santaum.org/pensitivo

Grande abraço e espero que goste do novo formato.

Santaum!!!!! (5 exclamações)

Da Preocupação do Próximo

Talvez seja unânime a aceitação de que todos os indivíduos sejam diferentes. A própria definição de indivíduo já o torna único por si só, apesar da definição dessa palavra na biologia se referir a um organismo, o que de certa forma implica praticamente na mesma abordagem unitária.

Como somos preocupados com o próximo, hã? Às vezes nos doamos tanto para o próximo que até esquecemos de nós mesmos. Abrimos mão de nossa individualidade para auxiliar a individualidade dos outros. Não estou propondo aqui o individualismo muito menos o “ajudar ao próximo”, mas sim a maneira como um se preocupa com o outro em excesso no sentido da comunicação e da fala. O modo como um enxerga o mundo e como o outro enxerga da maneira dele.

Naturalmente, poderá haver conflito de idéias entre esses dois indivíduos uma vez que cada indivíduo tem a sua maneira de pensar, apesar de que ambos podem apresentar semelhanças de idéias ou até mesmo de comportamento.

Quando nos deparamos com uma pequena diferença de ponto de vista e uma pessoa gosta muito da outra, uma tenta convencer a outra de que aquilo que prega é o correto e que aquilo deve ser posto em prática. São os conselhos, em muitos casos, hã? Talvez pode ser a alegação de que o certo para um pode ser o errado para o outro ou vice-versa? Eu posso afimar isso como um certo para mim apesar de admitir que esse certo para mim pode ser o errado para o outro. Intuitivamente, aquele que acha certo aquilo que defende é em muitos casos o certo pra ele definitivo e pronto.

O que eu quero dizer com isso? Não é comum em reuniões familiares ou festas de formatura de faculdade conselhos de amigos ou parentes para o que realmente deve ser o certo a ser seguido no ponto de vista deles? Não é comum ouvir nos discursos algo como “Se eu fosse você”? Tá certo (ou errado) que também o indivíduo não pode ser egocêntrico e que tudo aquilo que ele pensa e admite seja um certo imutável. Pode ser para ele, e de fato isso é certo para ele. E também que alguns conselhos são para o bem daquele indivíduo no ponto de vista do outro indivíduo. Mas temos que tomar cuidado com os excessos. Afinal, como é comum um indivíduo aconselhar o outro sendo que não consegue aconselhar a si mesmo, hã?

É justamente esse o ponto. A conclusão disso é que existem alguns indivíduos que aconselham outros indivíduos sem saber detalhadamente o que se passa na cabeça desses últimos. Uns não estão inteirados com a situação dos outros. Falta comunicação. O indivíduo é realmente único biologicamente e até mesmo fisicamente, mas ele depende do outro para sobreviver e para ser um ser humano. O indivíduo depende do coletivo, e inclusive essa capacidade de linguagem auxiliou o desenvolvimento da nossa própria espécie. Para aprimorar a comunicação entre os dois pontos de vista diferentes, é necessário primeiramente que um ponto de vista respeite o outro e consequentemente um complemente o outro seguindo essa mesma ótica.

Talvez com isso aquele tio que acha que é bem sucedido no ponto de vista dele seja menos influente no crescimento dos sobrinhos, ou o colega de faculdade que acha que tá bem no ponto de vista dele respeite mais a carreira do outro e admire a opção que este escolheu. Seria, portanto, uma comunicação sem palpites desnecessários, conselhos inúteis para o outro e consequentemente uma relação mais respeitosa e de aprendizado.

Grande abraço a todos.

1 Ano Bissexto

Neste post, o Pensitivo pretende fugir um pouco da sua normalidade, fazendo uma singela homenagem ao nosso colega Rev. Peterson Cekemp e, principalmente, a Cabala Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna.

O que se esperar de uma pessoa que tem praticamente 3 livros escritos, uma Cabala com assuntos complexos, com seminovosofias diferentes e projetos estranhos como o Super Homem Discordiano? O que se esperar de uma pessoa que escreve e exterioriza explicitamente o discordianismo? E que raios é esse negócio de discordianismo?

Eu entrei na primeira vez na Cabala Discordiana Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna no dia 63 de Burocracia de 3173 YOLD. Simplesmente, foi “nonada”. Eu fiquei meio assustado, primeiramente com o título e com os detalhes da coluna. O que se pensar inicialmente de um sítio que tem um gato preguiçoso com um título chamado de Orkutcídio? Mas que nome grande! O que era “Lasagna”? Perguntei para mim mesmo: será que é lasanha em inglês? E quem seria essa tal dessa Éris? E mais, o que se esperar de um blog que não incentiva o uso de uma comunidade tão popular?

Fiquei pensando com minha namorada e amigos: como será esse autor? Um gênio que deveria ser um intelectual tiozão com a vida já definida que toma seu precioso tempo expondo particularidades intelectuais da sua vida? Uma pessoa experiente que tenta publicar seus três livros? Um sujeito que lê bastante livros – como Nietzsche – e tem um conhecimento amplo em filosofia e outros da área de humanas?

No dia 63 de burocracia de 3173 YOLD, ao ler um post do Orkutcídio intitulado Epistemologia Teatrálica do Mundo, tive que adicioná-lo ao rol dos meus 10 favoritos na época em um post da Cabala Santaumniana. Esse foi, portanto, nosso primeiro contato. Logo depois ele comentou, em um fim de semana e pela primeira vez, no Pensitivo. Com opiniões e argumentações excepcionais, Rev. Peterson Cekemp acabou se tornando um dos autores desse blog, além de escrever na Cabala Orkutcídio, Tudismocroned, Só de Solo, Discordia Brasilis (foi um dos idealizadores da Revista homônima do último blog). Contribuiu para a revisão do livro do blogueiro Ibrahim César – chamado EQM – e, acima de tudo, é discordiano.

Detalhe primordial e para deixar alguns impressionados: Rev. Peterson Cekemp tem somente 15 anos.

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O Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna completou no dia 21 de discórdia de 3173 YOLD 1 ano bissexto de vida, e seria mais do que justo parabenizá-lo aqui no Pensitivo em pleno 23 de discórdia à 6:66:66 (2/3 do dia). Eu, Victor e Marcílio te desejamos muita prosperidade! Parabéns.

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Passo a bola, finalmente, para o Orkutcídio em Massa Para Adoradores de Lasagna. Fechado o ciclo !!!!! (5 exclamações)

Leitura da Carta Magna brasileira

Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II - garantir o desenvolvimento nacional;

III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

CAPÍTULO II – DOS DIREITOS SOCIAIS

Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Art. 27. O número de Deputados à Assembléia Legislativa corresponderá ao triplo da representação do Estado na Câmara dos Deputados e, atingido o número de trinta e seis, será acrescido de tantos quantos forem os Deputados Federais acima de doze.

§ 1º. Será de quatro anos o mandato dos Deputados Estaduais, aplicando-se-lhes as regras desta Constituição sobre sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação às Forças Armadas.

§ 2º. A remuneração dos Deputados Estaduais será fixada em cada legislatura, para a subseqüente, pela Assembléia Legislativa, observado o que dispõem os arts. 150, II, 153, III, e 153, § 2º, I, na razão de, no máximo, 75 % (setenta e cinco por cento) daquela estabelecida, em espécie, para os Deputados Federais.

VII – o total da despesa com a remuneração dos Vereadores não poderá ultrapassar o montante de 5 % (cinco por cento) da receita do município;

SEÇÃO V – Dos Deputados e dos Senadores

Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos.

§ 1º. Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável, nem processados criminalmente, sem prévia licença de sua Casa.

Art. 54. Os Deputados e Senadores não poderão:

a) serem proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada;

PS: Eu em 2006 visitei uma usina de álcool e açúcar que tinha como proprietário um Deputado Federal. O fato da referida Excelência ser dono da usina era motivo de orgulho para seus funcionários. Interessante isso.


Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:
I – que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;

Porque nós não temos aulas de direito no ensino médio e fundamental? No Brasil um cidadão nasce para ser manipulado. Somos manipulados o tempo todo. Seja pela televisão, pela propaganda, pela própria educação ridícula que nos é imprimida. Hoje em dia não se contesta mais o Capitalismo, mas porque diabos? Um cidadão brasileiro fica satisfeito se lhe for pago o que ele acha que merece, não contesta, se cala. “Imagina! Eu vivo bem demais, quantos vivem na miséria…”

No Brasil se estuda pra ganhar dinheiro,melhorar de vida. Não se estuda no Brasil para se contestar para dizer não. Estudamos no Brasil para comprar, para aceitar tudo que é produzido por gente muito rica. Aliás, o objetivo é chegar lá. Estudamos para ficarmos ricos. Esse é o ciclo.

A Constituição brasileira parece-me ridícula e inútil. Para quem ela foi escrita? Para os brasileiros? Mas brasileiro não sabe o que é direito, muito menos dever. O brasileiro não foi e nem será educado pelo Estado. Brasileiro é um número, uma estatística. Aliás, o brasileiro tem uma função muito importante no Estado de Direito em que vivemos, é obrigado a votar. Brasileiro vai para a Europa para ganhar dinheiro, claro, nada mais justo. Não imagina que na Espanha por exemplo existe um Estado de Direito que foi criado para os espanhóis. Fica triste quando é deportado de volta da Espanha. “Eu não merecia ser tratado daquela maneira…”

Continuemos assistindo TV, comprando, votando e sonhando em ir à Europa ou ao Estados Unidos para ganhar dinheiro, afinal, a nossa Carta Magna não nos foi apresentada. Aliás, existe Constituição?

O Rico e o Intelectual

A. – Como que não? Claro que é possível!

B. – Acredito que não. Você com certeza tomou a decisão errada. Você sabe que estudar nunca é demais, mas decidir sua carreira executiva focando a pós-graduação, sem trabalho, é um grande equívoco da sua parte. Na hora em que terminar seu doutorado, até mesmo seu mestrado, tenho certeza de que terá dificuldade de ingressar no mercado. Se somente fez iniciação científica na graduação, não fez estágio e entrou direto na pós-graduação sem nenhuma experiência profissional, a sua situação será mais complicada ainda.

A. – Então quer dizer que, mesmo tendo este título, a probabilidade de ficar desempregado será grande?

B. – Olha, essa é a minha opinião. Como líder de projeto eu não te contrataria pela idade que você tem e pelo enorme custo que teria que arcar contigo. Além disso, com essa idade, já teria que ter entrado no mercado. Afinal, você precisa conhecer a empresa. Além disso, precisa ser moldado pelos valores que ela prega. Isso é de fundamental importância para o seu crescimento profissional.

A. – Eu não vejo dessa forma. Se eu sou pesquisador, não quer dizer que necessariamente eu teria um perfil inadequado para ingressar no mercado. Posso muito bem ter um perfil de um empreendedor, por exemplo. Posso muito bem ter a plena capacidade de adaptar a esse mercado. Não vejo dificuldade nisso. Aliás, não vejo quase nenhuma dificuldade em sofrer adaptações ao longo da minha vida.

B. – A questão não é adaptação ou não. A questão é a falta de experiência que você vai ter com uma idade relativamente alta. E mais, vou ser bem sincero contigo. Realmente não vale a pena fazer somente o mestrado e doutorado porque, veja só, fazer um mestrado pra ganhar apenas 4.000 reais para mim é pouco. Um engenheiro com 2 anos de experiência vai ganhar mais do que você. Tenho um amigo que fez o doutorado dele na Alemanha e, quando voltou, ganhou só 8.000 reais. Acho isso muito pouco para a titulação dele. Olha, daqui a 5 anos, quando eu virar gerente da planta, vou ganhar mais que o dobro dele, que é doutor. Sem contar ainda com o bônus anual da empresa. Realmente, pelo menos financeiramente (que é o que eu penso), você só vai perder dinheiro fazendo a sua pós-graduação. Além disso, o estudante de pós-graduação é muito introspectivo e muito metódico, não tem o dinamismo e a velocidade que a gente tem.

A. – Discordo de você. O estudante de pós-graduação apenas adapta seu jeito de trabalhar na pesquisa. Você não pode fazer um trabalho ruim, mal escrito como muita gente faz por aí. Você, nesse sentido, não pode deixar de ser metódico, perfeccionista. Muito menos você tem que necessariamente ser rápido o suficiente para entregar algum resultado. Em trabalhos intelectuais, às vezes é preciso muito tempo para conseguir obter um dado, mesmo que seja em pequena quantidade. Entretando, esse dado é muito valioso para a pesquisa. Talvez, agora, isso não tenha nenhum resultado inovador para alguma aplicação ou fim, mas servirá de base científica para algum eventual trabalho futuro. Veja um exemplo clássico: Leibniz foi um grande filófico do século XVII. Além de enormes contribuições no cálculo diferencial e integral, ele inventou os números binários. Eu duvido que você praticamente não se utilize de nada que se relacione com a era digital.

B. – Eu não estou dizendo que para a humanidade a pesquisa é ruim. É boa sim. Só estou dizendo que, para entrar no mercado, você terá muita dificuldade. Pelo menos aqui no Brasil. Além disso, não vai ganhar dinheiro.

A. – Você então não acha que, de certa forma, eu não tenho nenhum potencial de ingressar no mercado?

Nesse aspecto, discordo completamente de você.

Primeiro ponto, não é descartada a hipótese de se fazer um doutorado buscando a inovação. Doutorado, ou mestrado, não é só estado da arte, mesmo considerando importantíssimo esse tipo de abordagem. É possível, sim, fazer parceria com alguma empresa ou até mesmo microempresa com o intuito de desenvolver pesquisa de altíssima qualidade. Provavelmente isso trará um razoável retorno financeiro na empresa. Nos Estados Unidos, por exemplo, isso é muito comum. Existem até empresas que têm mais de 1.000 doutores. Isso é ruim? Ter 1.000 doutores? A cada 100 pesquisas feitas nos Estados Unidas, 90 são oriundas de parcerias entre empresas e Universidades. No Brasil, somente 30. A área de pesquisa e desenvolvimento cresce mais a cada dia que passa e é um mercado demasiado potencial para estudantes de pós-graduação. Voltando novamente aos Estados Unidos, por que não fazer doutorado lá? Afinal, não é lá que é valorizado o conhecimento intelectual e o aluno que realmente estuda e não é igual ao Brasil onde o estudioso é tachado de nerd e desvalorizado nas empresas? Não é por isso que o Estados Unidos está no patamar econômico que está? Eles não são bobos. Desde sempre perceberam que conhecimento intelectual é a peça-chave para o pleno desenvolvimento de uma nação.

Estudo. Essa é a palavra-chave. Em um país em que um artista de programa de férias diz “Graças a Deus não li livros esse ano” e boa parte dos piores alunos de engenharia ficam nas melhores empresas por apresentarem um perfil extrovertido e respeitar hierarquia, o mercado teria que reagir da maneira mesmo como está pensando.

Segundo ponto, eu posso muito bem fazer um doutorado e, após terminá-lo, abrir um negócio. Existem muitas fundações de amparo que incentivam pessoas a abrirem, por exemplo, empresas incubadoras (microempresas). Existem, já, diversos exemplos de sucesso no Brasil em algumas regiões tecnológicas, como as cidades de Campinas e São Carlos no estado de São Paulo. Por que não empreender, por exemplo? Por que não começar do zero? Os grandes empreendedores sempre não começam do zero? E outra, diante da possibilidade de ser proletário, como você é, e ser dono do próprio negócio, prefiro ser dono do meu próprio negócio.

B. – Mas veja um ponto, você vai entrar nessas empresas e vai ganhar pouco. Seu salário, pelo título que você vai ter, será muito pouco. Além do mais, até você abrir o negócio e começar a lucrar, você vai ficar velho e não vai aproveitar a sua juventude com muito dinheiro. Vai passar a sua vida toda estudando? Bom, eu penso no dinheiro e…

A. – Posso ser até idealista, mas prefiro sempre progredir intelectualmente do que ser um rico sem cultura.

Contra a punição

Por Rev. Peterson Cekemp.

Há algum tempo, no post “Responsabilidade natural e artificial”, esbocei, mesmo sem saber, aquilo que agora se transforma na minha crítica à punição.

Tomei consciência de que sou contra a punição pouco antes de ler o livro “Aurora”, de Nietzsche. Depois que li fiquei um pouco frustrado, é verdade, porque descobri que ele mesmo já possuía essa idéia. Mas tudo bem. Vou procurar expor meus argumentos nesse post.

Se uma pessoa faz mal a você, o que você faz? Você faz um mal a ela, porque isso é justo. Você pode ser um bom cristão e dizer “eu ofereço a outra face!”, mas meu amigo, se você acredita que o Inferno é um lugar onde as pessoas más são punidas, então o que você apóia é a idéia de que se deve causar um mal a quem faz mal, invariavelmente. Ou nem precisa ir tão longe, se você é desses cristãos que adora montar a religião como se fosse um sanduíche da Subway, eu posso te perguntar se você concorda com o sistema penal. Posso te perguntar se você acha justo prender alguém se esse alguém comete assassinato, ou roubo, ou outro crime qualquer. Acha? Então tá, continuemos.

No livro “A Genealogia da Moral”, Nietzsche se pergunta: quando, onde, por que diabos existe a noção de que um dano sofrido deve corresponder a um dano causado? Nos jornais, principalmente no jornal regional que assisto no meio-dia com certa “regularidade”, há muitos casos de roubos, seqüestros, assassinatos. Os parentes das vítimas clamam por justiça! Os discursos deles geralmente estão aos moldes de “tem que haver justiça, esse cara tem que ser preso!”. Humm… Vejamos:

Se eu mato um parente ou um amigo seu, você pode a) querer me matar imediatamente com as próprias mãos, ou b) ligar pra polícia pra que eu seja preso. Um as pessoas costumam chamar de vingança; o outro, de justiça.

Mas qual é a diferença entre vingança e justiça? Nenhuma – essa é a resposta. As duas partem do mesmo pressuposto: se você sofre um dano, o que se tem a fazer é causar um dano àquele que fez o primeiro dano. O mecanismo básico é esse, sem exceções.

Há pessoas que poderiam argumentar diversas diferenças, mas elas não eliminam o fato de que o mecanismo é o mesmo e os dois funcionam por causa desse mecanismo, mesmo com as sutis particularidades. Alguns argumentam que a justiça está do lado da lei. Argumentação fraca, a lei é apenas um consenso; não existe ciência que determina que prender alguém é “mais justo” do que matar em determinada situações, ou experimento que defina como “mais justo” 5 ao invés de 4 anos de cadeira pra determinado delito. Outros argumentam que a vingança é cega e subjetiva; a justiça procura julgar o dolo daquele que comete um crime. Sim, é verdade, mas a partir do momento em que o dolo é comprovado, a vingança e a justiça perdem as diferenças mais uma vez. A justiça acaba sendo justamente como Nietzsche a definiu: uma troca. Dano causado por dano sofrido.

Prossigamos. No aforismo 15 do livro Aurora, Nietzsche escreve que em cada mal-estar e infortúnio que acontece a uma pessoa, ela vê dois consolos: o primeiro é causar mal a alguém, já que isso a lembra do poder que ainda tem, e isso a consola; o segundo é pensar que o mal que ela sofre é na verdade um castigo; que ela merece isso, que é culpada. Essa é uma boa psicologia, inclusive, para explicar a presença de pessoas castigadas por uma vida miserável / pobre em igrejas: durante muito tempo sofreram e tiveram a sensação de poder reprimida, e então se tornaram inofensivos, desistindo de tentar exercer seu poder sobre as pessoas, porque agora se encontraram no cristianismo, religião que diz que as pessoas já nascem pecadoras.

Há ainda outro lado da justiça das prisões e da segregação da sociedade (na forma de execução, até), a ser considerado: o de que as pessoas são presas porque são perigosas para a sociedade.

Em geral, grande número dos presos e executados “perigosos” foram politicamente perigosos, pessoas que se importavam com a verdade e ergueram a voz contra os poderosos – o que torna a punição algo detestável – mas ainda há mais um lado: os assassinos. As pessoas têm medo de que, soltos, eles possam cometer mais assassinatos.

Entretanto, Nietzsche também combate essa falácia da cognição moral em outro aforismo; nele, ele comenta que baseados em uma experiência ou em uma ação da pessoa, deduzimos que tal pessoa possua uma essência que é própria daquela atitude. Pior do que isso, tornamos essa pessoa alguém de caráter imutável e absoluto, de forma que ela é só aquilo que ela mostrou quando cometeu o crime e não, ela não pode ser diferente… Ora, é um terrível engano tirarmos tantas conclusões de apenas um ato!

A idéia das prisões é a de que elas devem separar o perigoso das pessoas comuns, mas temos uma noção errada do que é “perigoso”, ou então temos uma noção preconceituosa do que é “perigoso”; a idéia iluminista da recuperação do preso foi abandonada e subvertida no sistema punitivo que ela é hoje.

Nietzsche, no extenso aforismo 202 de Aurora, dá uma idéia sobre como deveríamos tratar os criminosos, aqueles que causam um dano a alguém: como um doente… Nessa analogia, não devemos nos vingar dele, mas sim tratá-lo. Devemos dar oportunidade e liberdade a ele, pra que ele possa reconstruir sua vida, devemos mostrar a ele o mal que causou e oferecer a ele uma nova chance. Dessa forma construímos um novo homem, fazemos com que ele supere seu passado e assim contribuímos para com ele. Um dano sofrido pago com um bem causado… Se fosse pago com uma dor causada, isso só multiplicaria a dor no mundo, não faria dele um lugar melhor, nem do criminoso uma pessoa melhor, e nem faria alguém feliz.

Voltando à questão da punição como consolo: hoje vivemos em uma sociedade de aparências e sintomas, onde o externo é valorizado muito mais do que o essencial, de forma que todo e qualquer essencial acaba se transformando em aparência pelo sistema, porque aparência pode ser comercializada – na verdade, pode ser contabilizada… Vivemos com uma cultura que privilegia o remédio e as medidas paliativas, não a cura – aprendemos a lidar com os sintomas, não com o problema da questão.

As escolas nos passam conhecimento, mas a grande maioria deles é inútil. Nenhuma escola nos ensina o que, agora, considero o principal: nenhuma ensina a lidar com a dor. Nenhuma ensina a lidar com a frustração. Ou você acha que coisas como “o importante é competir” colabora para fazer com que alguém lide com a própria frustração?

Somos ensinados subliminarmente, através de toda a nossa convivência prática e de toda a cultura que ingerimos e fazemos as crianças ingerirem, a lidar com nossos sentimentos ruins de maneira a remediá-los; uma fuga do real problema, uma fuga da realidade e uma vontade de esquecer os problemas, jogá-los no fundo de um baú e esquecê-los lá. Desse jeito, frente à tristezas e dores, ficamos com as dores aos outros, com a idéia do castigo e do martírio pessoal, que destrói o amor próprio no meio de uma teia de culpas imaginárias, ou então ficamos com a resignação e aceitação passiva e vitimal da dor, uma desistência que nos leva quase à depressão.

E Nietzsche surgiu com uma idéia trágica de vida, e eu com a minha idéia completa de vida no Seminovosofia (que dá no mesmo), onde a dor e a tristeza fazem parte da vida e é preciso saber conviver com elas, gostar delas, porque elas inevitavelmente vão acontecer, mas o modo como lidamos com ela piora o homem ao invés de melhorá-lo. Não se trata de dar a outra face, trata-se de batalhar contra elas quando elas surgirem. O que se faz hoje é criar leis pra impedir que elas aconteçam ou apagar seus sintomas.

Resumindo, vingança e justiça são a mesma coisa, e essa é uma maneira superficial de lidar com nossas dores e tristezas – fugindo delas, e, de quebra, piorando a humanidade. Devemos sim é dar uma chance pra que as pessoas melhorem, pois a desconfiança gera desconfiança e a dor causa a dor.

Pra finalizar, o filósofo alemão que me apóia nessa:

Durante milênios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: inesperadamente qualquer coisa correu mal, e não eu não devia ter feito isto… Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do ato, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos… Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna melhor… Mais razões haveria para afirmar o contrário (aprende-se com os erros, diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior…, mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).

Nietzsche, em Para a Genealogia da Moral

Pra complementar.

Aquele ali é opcional. Este aqui é pra com-ple-men-tar. MESMO.

Impérios vão e vem: esse é o Brasil que queremos?

Por Rev. Peterson Cekemp.

Uma vez eu cheguei muito perto de abordar esse assunto; talvez eu o tenha abordado, mas não por essa denominação, no caso… Mas vamos lá:

Já repararam como diversas interações nossas com alguns elementos da vida contemporânea nos faz ter um comportamento esquisito em relação ao nosso presente? Nós somos tão conscientes e acerca do nosso momento, analisamos tanto o nosso instante e, por vezes, planejamos tanto o nosso futuro, que não conseguimos viver nossa vida de uma forma mais intensa ou até mesmo da forma como a desejamos.

O homem deslumbra-se com a história, talvez tenha uma ponta de orgulho de seu progresso; o ser humano talvez tenha orgulho por poder ser orgulhoso do caminho que trilhou, apesar dos tropeços. Mas repare: os homens que faziam a revolução francesa não pensaram em fazer a “revolução francesa”. Isso é apenas uma denominação histórica posterior, muito posterior à época. Mas o que acontece conosco, nós que recebemos uma impressão tão organizada e segmentada da história, da história de qualquer coisa, aliás, não só a do mundo – e a estudamos tanto? O que acontece conosco? Acontece que sempre que fazemos alguma coisa, pensamos historicamente, e sentimos o peso da história, um peso desnecessário e ridículo à sua maneira; como alguém acima do peso que consegue resistir à tentação de comer um chocolate; logo imagina-se a grande heroína da revolução que fará em sua vida… Logo ela come outro chocolate, e ilude-se por seus planos despedaçados.

De qualquer forma, presto atenção ao nosso instante na TV brasileira: estamos no meio de uma revolução, a digital; sim, é verdade, e todos anunciam isso, mas você sentiu qualquer diferença? Todo o burburinho sobre a TV digital se resumiu a explicar para o leigo o que ele tem que fazer pra ter acesso a ela… Uma cerimônia de abertura, alguns programinhas aqui e ali, e pronto, acabou. Não sinto revolução alguma.

Mas há mais: a disputa da Globo contra a Record. 2008 vai ser um ano importante: desde o fim do ano passado, pelo que ouvi falar, a Globo amarga derrotas. Algumas pessoas são contra a Globo porque tacham-na de “do mal” – coisa que, tenho que concordar, faz um pouco de sentido sim. Aqueles que gostam da Globo pela superior qualidade de seus programas em relação aos adversários começa a mudar de opinião; é verdade que o SBT continua uma porcaria, a BAND sempre foi uma droga, e a Record sempre foi esquisita, mas de qualquer forma a Record tem O Aprendiz… Que conquistou muitos corações globais, não? E as novelas ficam cada vez melhores. Aos poucos o público se acostuma com a nova liderança… Será?

Mas a questão é que, no meio da revolução, ela não parece uma revolução, não é? Pensamos historicamente mas não sentimentos historicamente. Ninguém sente que aos poucos a Record está ganhando espaço. Eu disse sente. Você sente? Eu não. Eu ouço falar aqui e ali, mas a Renata Sorrah na novela das oito (atua mal…), o Pedro Bial, o Video Show, a Xuxa (se aposenta, querida!), tudo isso dá a impressão de que nada mudou e nada está mudando.

Mas é bom ficarmos atentos: a Record é do Bispo, e por mais que agora ela esteja a favor da legalização do aborto, isso é perigoso, mui peligroso. Todos inocentemente começam a ver que talvez não só a Globo produza qualidade; talvez ela não seja mais a mesma, não é? … Mas cuidado. Ninguém para pra pensar nas conseqüências de transmitir essa confiança do Ibope à Record; se em todo o meio de comunicação existe parcialidade, então a Record é um péssimo lugar pra que a fama se hospede. Talvez um dia ela se revele ainda pior do que a Globo.

É bom percebermos que, sim, talvez estamos num momento decisivo. É bom termos cuidado. Se a Globo é ruim, a Record pode ser pior. É hora de nos perguntar se, se não queremos um país tão influenciado pelo William Bonder, queremos ou não um influenciado pelo Tom Cavalcanti…

Assim Falou Desesperadamente a Vizinhança

Podemos considerar aqui dois sistemas: sistema aberto e sistema fechado.

Sistema aberto é aquele no qual entra ou sai matéria, como por exemplo o corpo humano. Um sistema fechado, como o próprio nome diz, proíbe a entrada e até mesmo saída de matéria (massa).

Agora, uma coisa é interessante. Mesmo que este sistema seja fechado, ele permite transferência de calor em trânsito nas suas fronteiras. Suponhamos que o corpo humano fosse um sistema fechado. Mesmo proibida a entrada e saída de massa, é possível que na fronteira (pele desse corpo) haja uma troca de calor entre o meio externo (vizinhança) e este ser humano (que não come e não evacua – sistema fechado). Nem respira também, muito menos transpira. De certa forma esse fenômeno é hipoteticamente fantástico.

Consideramos novamente que o ser humano seja um sistema fechado. Suponhamos agora que a taxa de transferência de calor desse sistema fechado seja NULA. Isto é, não existe de maneira alguma entrada ou saída de calor neste ser humano fantasia (ou fictício). Ou melhor, a energia interna desse sistema – fazendo uma suposição real e ao mesmo tempo super abstrata – não varia, o que é bastante coerente pelo fato de não entrar nem sair calor em trânsito nas vizinhanças. Esse tipo de situação, onde não existe troca de calor em trânsito, é adiabático. O ser humano, neste exemplo fictício, é considerado um sistema fechado adiabático.

Se este corpo humano fantasia não for considerado adiabático, evidentemente ele vai trocar calor com as vizinhanças. Imagine – numa outra situação surreal – que este corpo humano (sistema), ao invés de absorver calor, seja um corpo exotérmico e FECHADO. Em outras palavras, que este corpo seja fornecedor de energia para o meio externo.

Não seria incrível? Um ser humano fornecendo calor para o meio sem necessidade de trocar massa (sistema fechado) com a sua vizinhança. Mas como um bom ser humano real, é preciso descobrir alguma maneira de aproveitar esse calor. Simplesmente ele vai trocar calor com o meio externo, dando esse brinde para a natureza (vizinhança)? Não, não. O homem real não pode aceitar uma coisa dessas.

Existem duas possibilidades. Consideremos que na primeira situação a vizinhança seja uma sujeita arrogante, ou que esse meio externo recuse a amizade calorosa do sistema fechado negando esse fornecimento de calor. Nesta situação, podemos cobrir este corpo humano com algum sistema refratário. Primeiro, é necessário colocar uma primeira camada de material refratário, e é necessário, evidentemente, fazer alguns cálculos para obter a espessura dessa parede refratária. Sabemos também que esse cálculo é obtido em função da quantidade de calor que sai do corpo, da diferença de temperatura entre este corpo e a vizinhança (meio ambiente) e principalmente pela resistência que esse material refratário oferece pela passagem deste calor. Quanto maior a resistência, menos calor vai atravessar a fronteira (pele) desse fictício ser humano. Depois da camada refratária, é interessante colocar uma camada posterior de algum material isolante.

Pronto. A vizinhança ficará feliz e este ser humano (sistema fechado exotérmico) empacotado de materiais sobre a sua pele (fronteira entre o sistema e a vizinhança) irá sofrer um pouco mais na sua locomoção, com este excesso de peso.

A outra possibilidade não deixa de ser uma personalidade oposta da vizinhança. Que ela se interesse demasiadamente por esse calor! Podemos considerar dentro dessa possibilidade duas situações. Uma é que a vizinhança seja bacana, legal. Na outra, que a vizinhança tenha uma personalidade exploratória, que ela seja gananciosa, que explore arduamente a energia desse sistema fechado que fornece tanta energia sem controle. De qualquer modo, por que não cobrir novamente essa pele (fronteira do sistema)? Só que, ao invés de um material refratário, seria necessário utilizar um material que consiga absorver este calor que tal sistema fechado oferece. Para não complicar muito, consideremos um sistema de água (isso mesmo, água) encamisando este belo e exotérmico corpo humano fictício. O que acontece com essa água fria? Ela vai esquentar e podemos aproveitá-la com alguma coisa ou algum mecanismo. Se a vizinhança for super legal, ela apenas vai admirar esse belo corpo que gera energia.

Se esta vizinhança for exploradora e gananciosa, este sistema fechado exotérmico, coitado, vai sofrer, vai ser explorado abusivamente. Maldita seja essa vizinhança! Que sujeita má! Que crueldade! Pois bem, a vizinhança pode juntar uma centena de sistemas fechados exotérmicos e colocá-los na região inferior de alguma cápsula semi-aberta. No topo desta cápsula, pode existir uma chaminé vertical que, à medida que aumenta a sua altura, diminui a sua área transversal, como todas as chaminés. Pode-se perceber, claramente, que o bico das chaminés têm um diâmetro menor do que no seu fundo. Esta situação nos oferece uma condição óbvia de conservação de massa (equação da continuidade), pelo fato de que a velocidade do ar desta chaminé aumenta à medida que esta área transversal diminui. Afinal, a sua vazão (do ar) é a mesma. Além disso, ao longo dessa chaminé, efeitos de transferência de calor (diferença de temperatura entre o fundo e o topo da chaminé) também favorecerão o transporte desse ar quente da cápsula para o topo da chaminé. Dessa maneira, haverá um transporte ascendente de ar na região da chaminé, pelo fato da cápsula fornecer energia através dos sistemas fechados isotérmicos. Para aproveitar energeticamente esse transporte de ar, é necessário colocar na parede da chaminé algumas turbinas, e são justamente estas que irão absorver a energia oferecida pelos sistemas exotérmicos em série. É o mesmo princípio de uma hidrelétrica, contanto que o fluido de escoamento seja o ar quente gerado pelos corpos exotérmicos dentro da cápsula e não a água potencial do rio.

Essas, portanto, podem ser algumas dentre várias formas de explorar esses sistemas fechados que fornecem calor para a vizinhança.

O ser humano é um sistema aberto. Ela precisa de adquirir massa para consumir diariamente suas 2.000 calorias (considerando grosseiramente que crianças e idosos consomem a mesma quantidade de energia de um adulto e que não haja diferença de consumo em sistemas diferentes como homens e mulheres ou magros e gordos). Ao longo de toda a sua vida, o ser humano tem que se alimentar, respirar (entrada de massa) e evacuar, transpirar e outras excreções (saída de massa). Para que o seu metabolismo funcione adequadamente, é necessário controlar sua temperatura idealmente a mais ou menos 36 graus Celsius. Isso demanda uma quantidade de energia do meio externo (vizinhança) para a sua necessidade de sobrevivência biológica. Dessa maneira, ocorre o inverso dos exemplos anteriores, somente que, neste exemplo real, o sistema é aberto e a forma de energia que ele absorve do meio se dá através das reservas energéticas individuais da matéria que ele ingere. Como temos quase 7 bilhões de seres humanos (sistemas abertos) que consomem essa média de 2.000 calorias, percebe-se que este enorme somatório (a humanidade como um todo) precisa abusar da vizinhança. Temos, portanto, um problema de superpopulação de sistemas abertos no nosso planeta.

Através dessa óptica, é necessário descobrir uma maneira de minimizar a exploração abusiva das vizinhanças, de modo que cada sistema consiga se interagir sustentavelmente com ela. Infelizmente, o ser humano não é um sistema fechado, muito menos adiabático.

Assim falou desesperadamente a vizinhança.

P.S.: Este post é a parte II de Safado, Demasiado Safado.

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