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Entre a Mesmice e a Fuga do Mesmo

Por Santaum!

Existe algo na minha vida que me intriga bastante. Esse algo é justamente este paradoxo entre a mesmice e a fuga do mesmo na minha vida. O que me deixa mais satisfeito? A mesmice ou justamente o ato de escapar dela?

A mesmice me parece que é uma fuga que a nossa vida intuitivamente nos propõe a fugir da dor, da derrota e da frustração. Nos dá uma sensação de conforto instantâneo, alívio e de certa forma nos conduz a atitudes iguais às dos outros. É um sentimento rebanhado, de uma maioria que faz parte de um enorme grupo que naturalmente sempre está à nossa volta. Pode soar estranho, mas subentende-se que essa enorme maioria geralmente é feliz. Entretanto, seria essa uma felicidade de capa, de superfície, uma embalagem que mascara aquele verdadeiro sentimento que um espírito livre é capaz de proporcionar.

O grupo oposto é composto de pessoas que são contra essas posturas mesmas e iguais às dos outros. São uma pequena minoria. São pessoas fisicamente iguais às outras, porém elaboram em si pensamentos universais completamente diferentes daqueles que vieram de uma mesmice. São questionadores, sempre interrogam tudo que está em sua volta e sempre tendem a buscar a sua verdade absoluta. Às vezes não, evidentemente, contanto que não se pode deixar de adjetivá-los como criaturas humanas que refletem pensamentos em torno de si e em sua volta, que buscam um norte no seu dia-a-dia e ficam intrigados com as coisas tais como efetivamente são. Dá a entender que esse grupo se frustra mais e ao mesmo tempo fica revoltado e insatisfeito com as situações naturais que são deparadas no decorrer da sua vida. A pessoa desse grupo sempre se intriga em várias situações pelas quais a mesmice se manifesta e muitas vezes pode sofrer bastante com isso, por se tratar de uma minoria. Talvez não, pelo fato de se achar diferente e também por acreditar veementemente naquilo que o incomoda. E, para muitos desses poucos, essa pode ser uma felicidade interior e verdadeira.

Fico questionando qual o caminho que eu devo tomar, ao observar que tenho vários conhecidos que sequer se questionam sobre si mesmos. De conhecidos que, quando começo a comentar sobre assuntos do tipo, sequer começam a discutir algo parecido e encerram-me dizendo que eu estou viajando. Será, portanto, que não faço parte do grupo arrebanhado e fico intrigado como poucos acerca dessas questões reflexivas e existenciais? Seria isso um problema?

Para os mesmos, isso é um problema. Ainda mais quando se trata do atual, do hoje em dia. Para os mesmos, compensa mais ser igual aos outros e buscar na sua unidade algo plural e coletivo, para que os desvios da sua mesmice sejam mascarados. Para os mesmos, vale a pena buscar um modelo global para que ele se frustre menos e o outro não perceba a sua fraqueza natural e interior. Até para ele “mesmo” a sua maneira plural de viver lhe cai muito bem pelo fato de omitir algumas frustrações no seu pensamento interior e na sua unidade. Parece que essa sensação pode deixar em si um falso conforto, uma falsa alegria e uma falsa comodidade momentânea que não o faz se distinguir dos outros. Para os mesmos, isso seria, portanto, uma válvula de escape.

É, portanto, uma sensação frustrante e malograda os bem-aventurados que procuram questionar a sua existência e tudo que está em sua volta? Talvez a resposta seria sim. Mas não completamente um sim. Seria um sim com uma cara de não. Intuitivamente, este sim poderia ser um não ou nenhum dos dois, ou os dois ao mesmo tempo. O que interessa é que essas sensações ficariam mais claras, verdadeiras, como também o oposto delas. Não se criaria a partir daí uma máscara, uma capa, algo superficial. Os sentimentos seriam unânimes e verdadeiros. Viriam do seu interior. E essas sensações são fantásticas.

Mas até que ponto vale a pena expor em si estes sentimentos verdadeiros? Seria demasiado satisfatório para mim o simples fato de assumir verdadeiramente meus sentimentos ao invés de mascará-los?

Apesar desse paradoxo, todos já sabem a minha resposta.

Grande abraço a todos.

Vale a Pena se Frustrar!

 

Por Santaum!

Segundo o dicionário da língua portuguesa, a palavra FRUSTRADO é um adjetivo e seu significado é malogrado, incompleto, imperfeito, que não chegou a desenvolver-se.

A primeira pergunta: Existe alguém perfeito, completo, sempre desenvolvido?

Pois bem. A cada dia que passa, a figura do frustrado está ficando absolutamente fora do escopo da sociedade. O cidadão que erra, que não termina aquilo que começou, que é feio, gordo, ou que ainda não se formou depois de vários anos, ou até mesmo aquele que não consegue fazer suas atividades no trabalho, é mal visto. Ele é um incompetente, feio, não tem uma boa aparência e não tem nenhum status social diante das pessoas em sua volta.

Mas qual é o problema de se frustrar? Quem nunca se frustrou na vida? “Atire a primeira pedra” quem nunca se frustrou!

Se se avalia somente a aparência, beleza física, prepare-se que você algum dia vai ficar velho. Essa juventude, que é um sinal de beleza, um dia vai acabar. E todos ainda morreremos. No fim das contas, o que diz e apóia a perfeição do homem vai pra debaixo da terra da mesma maneira que os demais. Como nasceram também da mesma forma. Se você não aceitar e reconhecer que não será bonito durante toda a sua vida, ou melhor, se não se importar com isso, viverá com muito mais intensidade. Aceitar o fato de não ser perfeito é algo sensacional. E a velhice é uma coisa maravilhosa também, lembrando que esse conceito de beleza juvenil é social.

Reconhecer a derrota, o fracasso, o fim do namoro (ou fim de qualquer coisa que goste), não ter passado no vestibular, ou não ter se formado na mesma época dos amigos não tem nada de mais, é algo absolutamente normal. E sensacional. São nestes momentos que mais evoluímos intelectualmente. É o momento que nossas reflexões mais se aprofundam, que reconhecemos que somos imperfeitos, limitados. O ser humano é limitado, imperfeito, incompleto e malogrado.

Agora, para a sociedade de hoje, a pessoa que se frustra é ojerizada. Em alguns casos, recriminada. “Você não é nada!”. Diga-se de passagem que isso é um veneno contra a própria sociedade e as próprias pessoas. Como foi dito, não existe de fato aquela pessoa que nunca se frustrou na vida. E a figura daquele “perfeitão”, que nunca se frustrou, é só uma pseudo-aparência. Pode ter certeza que, dentro dele, seja no físico ou no psíquico, existe algo que o incomoda. Muitas vezes, para omitir ou esquecer sua frustração, ele opta por tentativas de fuga, como bebida alcoólica, “balada”, drogas, relacionamentos não amorosos (ficar com uma garota superficialmente, sentindo apenas um prazer carnal) e outros vícios. E essa é a explicação do feitiço contra o feiticeiro. Quem acaba sendo prejudicada é a sociedade, e é ela que acaba pagando as contas e arcando com as conseqüências.

Nunca se viu tanto doenças psíquicas. As pessoas não conseguem reconhecer suas limitações. Muito menos as derrotas no decorrer da vida. Não conseguem e não têm condições psicológicas de aceitar a frustração, porque está fora de moda. Portanto, reflita e assuma aqui a sua humanidade.

Vale a pena se frustrar!

Grande abraço a todos.